5. ANÁLISE DOS DADOS
5.1. Escala e poder de mercado
5.1.4. Síntese do ganho competitivo de escala e poder de mercado
Para encerrar a apresentação do ganho competitivo de escala e poder de mercado, será apresentada a seguir uma síntese dos principais achados.
Como mencionado, neste estudo buscou-se compreender a percepção dos entrevistados sobre uma maior facilidade dos artesãos ao comercializarem seus produtos acessando os canais de venda da Rede Asta, um maior poder de negociação dos artesãos frente fornecedores e clientes e uma maior visibilidade, credibilidade e legitimidade dos artesãos ao participarem da Rede Asta.
Foi possível notar que o acesso aos mercados consumidores e o aumento de vendas é um ponto de central importância para a Rede Asta. Essa questão é bastante relacionada a uma das bases do comércio justo, que é o acesso aos mercados consumidores por parte dos produtores marginalizados (BACON, 2005; LOW e DAVENPORT, 2005a; WILLS, 2006; WFTO e FLO INTERNATIONAL, 2009), e é uma das principais expectativas dos grupos produtivos que passam a se relacionar com a Rede Asta.
A organização trabalha para favorecer esse acesso ao mercado consumidor por meio de seus canais de vendas, embora as vendas para o mercado organizacional sejam as mais representativas e mais mencionadas pelos entrevistados ao citarem exemplos práticos de acesso ao mercado e seu impacto em vendas. Além disso, a Rede Asta busca assegurar vendas mais constantes e dispersas para todo o Brasil, de forma que consumidores que de fato valorizem o produto tenham acesso a ele.
Já ao analisar o possível maior poder de negociação dos artesãos frente aos fornecedores e clientes, chegou-se à categoria analítica de relação com fornecedores. Durante a análise dessa categoria foi possível identificar que a Rede Asta pode ter um papel importante para garantir melhores condições comerciais dos artesãos junto aos seus fornecedores, seja coletando e distribuindo insumos doados, seja pesquisando e negociando diretamente maiores quantidades de matérias-primas para grupos produtivos que integrem redes de produção.
Apesar das dificuldades de organizar uma rede de fornecedores devido à grande diversidade de produtores, insumos e fornecedores, foi possível notar com a coleta de dados que algumas empresas podem ser engajadas com a causa do comércio justo e participarem dessa cadeia oferecendo condições comerciais diferenciadas. Esse ponto pode complementar a visão de que o comércio justo proporciona condições comerciais diferenciadas na relação entre os produtores e os clientes, incorporando também os fornecedores que não são citados por autores como Moore (2004), Schneider (2012a), Wills (2006), Low e Davenport (2005b) e WFTO e FLO International (2009).
Por fim, analisando uma maior visibilidade, credibilidade e legitimidade dos artesãos ao participarem da Rede Asta chegou-se a categoria analítica de credibilidade e legitimidade.
Nessa análise foi possível compreender que a participação na Rede Asta confere alguns atributos relevantes aos produtos dos artesãos, os legitimando como produtos de qualidade e que podem competir com outros produtos mais elaborados. Além disso, os próprios grupos passam a ter maior credibilidade ao fazerem parte da Rede Asta, resultante de esforços de comunicação da organização. Ainda, foi possível identificar que os grupos de artesãos podem perceber essa maior credibilidade e legitimidade ao participarem da Rede Asta, como se a organização fosse uma credencial de que aquele grupo em questão realiza um bom trabalho.
Não foi possível relacionar diretamente essa categoria analítica com os princípios e as características do comércio justo, embora seja um tema correlato à ampliação do reconhecimento da causa por parte dos consumidores e à maior visibilidade no mercado para os artesãos (WFTO e FLO INTERNATIONAL, 2009; DAVIES, 2009).
Portanto, concluindo a análise do ganho competitivo de escala e poder de mercado, o Quadro 14 sintetiza os principais pontos apresentados a partir do referencial teórico de Verschoore (2006) e Verschoore e Balestrin (2008).
É importante enfatizar que na comparação teórica realizada no capítulo 2, este ganho competitivo foi relacionado apenas com o acesso ao mercado por produtores marginalizados, um dos princípios do comércio justo. Entretanto, durante a análise foi possível identificar certa similaridade entre a relação com os fornecedores e as condições comerciais diferenciadas proporcionadas pelo comércio justo, ainda que na teoria esse princípio mencione a relação entre o produtor e o comprador, e também uma sinergia entre a ampliação do reconhecimento da causa do comércio justo e a credibilidade e legitimidade.
Ganho competitivo Escala e poder de mercado
Definição de Verschoore e Balestrin
(2008)
Benefícios obtidos em decorrência do crescimento do número de associados da rede. Quanto maior o número de empresas, maior a capacidade da rede em obter ganhos de escala e poder de mercado.
Elementos pesquisados Categoria analítica Principais achados comércio justo Relação com
Facilidade de artesãos comercializarem seus produtos, com acesso a canais de venda aos quais eles não teriam acesso sem a participação da Rede Asta.
Acesso a mercados consumidores e ampliação de vendas
a) a comercialização dos produtos é uma deficiência dos grupos produtivos; b) o aumento de vendas a partir de um maior acesso ao mercado é a principal expectativa dos grupos de artesãos;
c) com seus canais de vendas a Rede Asta proporciona vendas mais constantes e dispersas por todo o Brasil, levando os produtos a consumidores os valorizam; d) e os mercados organizacionais são mais mencionados ao se abordar exemplos práticos de acesso ao mercado.
Acesso aos mercados consumidores
Maior poder e capacidade de negociação de artesãos com fornecedores e clientes por participarem da Rede Asta.
Relação com fornecedores
a) os artesãos não possuem poder de barganha quando lidam diretamente com seus fornecedores;
b) a Rede Asta pode se responsabilizar pela coleta e distribuição de insumos doados por empresas;
c) A Rede Asta pode se responsabilizar pela pesquisa, compra em maior quantidade e distribuição de matérias-primas aos grupos de artesãos que integrem redes de produção, visando melhores condições comerciais ao lidar direto com os fornecedores;
d) e a Rede Asta acredita que pode ter um papel relevante em formar uma rede de fornecedores, embora a maior dificuldade para isso seja a grande diversidade de produtores, insumos e fornecedores.
Relações igualitárias e sustentáveis Comércio justo como um contrato social Maior visibilidade, credibilidade e legitimidade dos artesãos por participarem da Rede Asta.
Credibilidade e legitimidade
a) a participação na Rede Asta legitima os produtos dos artesãos como sendo de qualidade, feitos à mão, com design, estilo e acabamento competitivos;
b) os grupos produtivos também têm maior credibilidade ao participarem da Rede Asta, que podem ser resultantes dos esforços de comunicação da organização; c) os grupos produtivos percebem que há maior credibilidade e legitimidade ao participarem da Rede Asta.
Ampliação do reconhecimento da causa
Quadro 14. Síntese do ganho de escala e poder de mercado Fonte: Elaborado pelo autor (2015)