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4. RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL

4.1 Dano ambiental e responsabilidade

4.1.2 Comprovação do dano ambiental

O art. 186 do Código Civil brasileiro (Lei nº 10.406/2002) consagra uma regra universalmente aceita: a de que todo aquele que causa dano a outrem é obrigado a repará-lo.

Em conformidade com o texto legal: “art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.

A interpretação do artigo evidencia que quatro são os elementos essenciais da responsabilidade civil: ação ou omissão, culpa ou dolo do agente, relação de causalidade, e o dano experimentado pela vítima.

Salienta-se que, a culpa é um dos fundamentos da responsabilidade subjetiva. A prova da culpa do agente passa a ser pressuposto necessário do dano indenizável. Dentro desta concepção civilista, adotada pelo Código Civil Brasileiro, a responsabilidade do causador do dano somente se configura se agiu com dolo ou culpa (GONÇALVES, 2003, p. 21).

Diferentemente, a lei impõe, a certas pessoas, em determinadas situações, a reparação de um dano cometido sem culpa. De acordo com teoria do risco integral, adotada pela Constituição Federal brasileira, em seu art. 37, §6º, a responsabilidade da Administração Pública, tem fundamento no próprio risco da atividade, dispensando a comprovação da culpa ou do dolo.

Assim, Bandeira de Mello (2014, p. 1034), assevera que a responsabilidade objetiva é a obrigação de indenizar a alguém em razão de um procedimento lícito ou ilícito que produziu uma lesão na esfera juridicamente protegida de outrem, bastando para configurá-la, a mera relação causal entre o comportamento e o dano.

Também, nos casos de responsabilidade objetiva, não se exige prova da culpa do agente para que seja obrigado a reparar o dano. Quando a culpa é presumida, o autor da ação

168 só precisa provar a ação ou a omissão e o dano resultante da conduta do réu, porque a culpa já é presumida (GONÇALVES, 2003, p. 21).

Convém ressaltar que, o Código Civil brasileiro, sem prejuízo da responsabilidade subjetiva, acrescentou, de forma expressa, em seu art. 927, parágrafo único, a obrigação de reparar o dano independentemente da culpa, nos seguintes termos:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

Da análise do dispositivo, verifica-se que o legislador adotou o risco como fundamento da responsabilidade civil. Nessa fórmula da responsabilidade objetiva, todo aquele que desenvolve atividade lícita, que possa gerar perigo a outrem, deverá responder pelo risco, não havendo necessidade de a vítima provar a culpa do agente. O lesado só terá que provar o nexo de causalidade entre a ação e o fato danoso, para exigir seu direito reparatório (LEITE, 2003, p. 127).

Consoante a isso, os Tribunais brasileiros têm debatido muito a matéria, enfatizando à necessidade de comprovação do dano, haja vista que, salvo determinação legal, não há que se falar em dano presumido, devendo a sua ocorrência ser comprovada (ANTUNES, 2015, p. 524). Nessa perspectiva, o egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, em recente decisão, destacou a necessidade da comprovação da efetiva ocorrência de dano e do nexo de causalidade com a conduta lesiva do agente, para que seja configurada a responsabilidade civil objetiva por dano ambiental, conforme ementa:

Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. DIREITO AMBIENTAL. SUPRESSÃO DE ÁRVORES NATIVAS EM ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. DANO E NEXO CAUSAL NÃO COMPROVADOS. IMPROCEDÊNCIA. – A responsabilidade civil objetiva por dano ambiental não exclui a comprovação da efetiva ocorrência de dano e do nexo de causalidade com a conduta do agente, pois estes são elementos essenciais ao reconhecimento do direito de reparação. Precedentes do STJ. - Na espécie, o Ministério Público não comprovou a ocorrência de dano ambiental, ônus que lhe incumbia, nos termos do art. 373, I, do CPC. Embora presumidamente verdadeiros os fatos apontados pela Brigada Militar, não se extrai da leitura do Relatório nº 322/087/2016 a comprovação do dano ambiental imputada à apelada na inicial, isto é, a supressão de árvores nativas em APP, sem licença do órgão ambiental competente, em área de aproximadamente 150 m² , mas apenas o corte de vegetação rasteira e não propriamente de árvores, em relação à qual não há nenhum dado técnico que possa estimar propriamente qual foi o dano ambiental , pelo que não há que falar em medidas reparatórias, sequer medida compensatória, consistente em eventual replantio. A indenização, ainda que compensatória, depende da efetiva comprovação do dano (REsp 439.456/SP, 2ª Turma, Relator o Min. João Otávio de Noronha, j. 03/08/2006, DJ 26/03/2007), sendo que tal situação não restou demonstrada no caso em apreço. Manutenção da sentença de improcedência. APELO DESPROVIDO.

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(Apelação Cível Nº 70080298755, Vigésima Segunda Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Marilene Bonzanini, Julgado em 13/02/2019).

Salienta-se que, ainda que se trate de responsabilidade objetiva, é pressuposto da responsabilidade civil a ocorrência de dano; ausente ele, inexiste o dever de reparação, como demonstra a decisão proferida pelo colendo Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial nº 1.140.549/MG, cuja ementa transcrevo:

PROCESSUAL CIVIL E AMBIENTAL - VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC NÃO CARACTERIZADA - MANUTENÇÃO DE AVES SILVESTRES EM CATIVEIRO - RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO AGENTE POLUIDOR - AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO ADMINISTRATIVA - RESPONSABILIDADE CIVIL - DANO AMBIENTAL NÃO COMPROVADO. 1. Não ocorre ofensa ao art. 535, II, do CPC, se o Tribunal de origem decide, fundamentadamente, as questões essenciais ao julgamento da lide. 2. A responsabilidade civil objetiva por dano ambiental não exclui a comprovação da efetiva ocorrência de dano e do nexo de causalidade com a conduta do agente, pois estes são elementos essenciais ao reconhecimento do direito de reparação. 3. Em regra, o descumprimento de norma administrativa não configura dano ambiental presumido.4. Ressalva-se a possibilidade de se manejar ação própria para condenar o particular nas sanções por desatendimento de exigências administrativas, ou eventual cometimento de infração penal ambiental. 5. Recurso especial não provido. (STJ. Recurso Especial nº 1140549-MG. Recurso Especial 2009/0175248-6. Rela. Mina. ELIANA CALMON. Segunda Turma. Data do julgamento: 06/10/2010. DJe 14/04/2010. RSTJ vol. 219, p. 209).

Nesse contexto, de acordo com o entendimento predominante em nossos Tribunais é a de que os danos ambientais devem ser atuais, concretos e devidamente comprovados, para que seja configurada a responsabilidade civil ambiental.