4. RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL
4.4 Responsabilidade civil ambiental do Estado
4.4.1 Responsabilidade solidária
De acordo com o art. 3º, inciso IV, da Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente), considera-se poluidor toda a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental.
Por sua vez, o art. 942, do Código Civil brasileiro (Lei nº 10.406/2002), em sua parte final, estabelece que se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação.
Assim sendo, todos aqueles que cometeram o dano ambiental, serão responsabilizados pelos atos praticados, direta ou indiretamente.
Em outras palavras, todos aqueles que contribuíram de qualquer forma para a ocorrência de um dano ambiental devem responder pela integralidade do dano (CARVALHO, 2013, p. 134).
Também, Granziera (2011, p. 685) afirma que a responsabilidade solidária tem um papel muito importante na reparação dos danos ambientais, considerando que em muitos casos é praticamente impossível provar o nexo de causalidade entre a conduta antijurídica e o dano, logo, o estabelecimento da solidariedade torna-se um elemento flexibilizador e vantajoso para se alcançar a reparação integral do dano ambiental.
Além disso, a solidariedade, que excepciona a regra de que ao devedor não incumbe pagar nada mais do que deve em razão de sua ação ou omissão individual, abre caminho para a comunicabilidade plena entre todos os copoluidores, que direta ou indiretamente tenham contribuído para o dano, fazendo com que a reparação seja mais rápida e eficaz (BARCESSAT, 2018, p. 107).
Para Silva (1994, p. 217), aplicam-se as regras da solidariedade entre os responsáveis, podendo a reparação ser exigida de todos ou de qualquer um dos responsáveis.
O Superior Tribunal de Justiça reconhece de forma pacífica a solidariedade entre os responsáveis pelos danos ambientais, que agiram de forma direta ou indireta:
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DANOS AMBIENTAIS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. A questão em causa diz respeito à responsabilização do Estado por danos ambientais causados pela invasão e construção, por particular, em unidade de conservação (parque estadual). A Turma entendeu haver responsabilidade solidária do Estado quando, devendo agir para evitar o dano ambiental, mantém-se inerte ou atua de forma deficiente. A responsabilização decorre da omissão ilícita, a exemplo da falta de fiscalização e de adoção de outras medidas preventivas inerentes ao poder de polícia, as quais, ao menos indiretamente, contribuem para provocar o dano, até porque o poder de polícia ambiental não se exaure com o embargo à obra, como ocorreu no caso. Há que ponderar, entretanto, que essa cláusula de solidariedade não pode implicar benefício para o particular que causou a degradação ambiental com sua ação, em detrimento do erário. Assim, sem prejuízo da responsabilidade solidária, deve o Estado - que não provocou diretamente o dano nem obteve proveito com sua omissão - buscar o ressarcimento dos valores despendidos do responsável direto, evitando, com isso, injusta oneração da sociedade. Com esses fundamentos, deu-se provimento ao recurso. Precedentes citados: AgRg no Ag 973.577-SP, DJ 19/12/2008; REsp 604.725-PR, DJ 22/8/2005; AgRg no Ag 822.764-MG, DJ 2/8/2007, e REsp 647.493- SC, DJ 22/10/2007. REsp 1.071.741-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 24/3/2009. (Informativo de jurisprudência nº 0388. Período de 23 a 27 de março de 2009. Segunda Turma. STJ).
Portanto, como decorrência dessa solidariedade, será possível a responsabilização de toda a cadeia produtiva que contribuiu, ainda, que indiretamente, para o dano ambiental, como ocorre, por exemplo, com as instituições financeiras (STEIGLEDER, 2017, p. 188).
Complementando, pode-se responsabilizar o adquirente de uma área degradada, independentemente de ser ou não o autor, pois assume o ônus de manter a integridade do ecossistema, tornando-se responsável pela recuperação, a partir da obrigação propter rem, decorrente do direito de real exercício sobre a área, sem prejuízo da solidariedade entre os causadores dos danos ambientais.
Neste sentido, é o atual entendimento do Superior Tribunal de Justiça, através do entendimento do Ministro Herman Benjamin, in verbis:
ADMINISTRATIVO. DIREITO AMBIENTAL. ÁREA DE PRESERVAÇÃO
PERMANENTE - APP. RIO SANTO ANTÔNIO. LIMITAÇÃO
ADMINISTRATIVA. INEXISTÊNCIA DE DIREITO À INDENIZAÇÃO. DANOS AMBIENTAIS. OBRIGAÇÃO PROPTER REM. PRAZO PRESCRICIONAL. VACATIO LEGIS NÃO SE PRESUME. 1. Restrição de uso decorrente da legislação ambiental é simples limitação administrativa, e não se confunde com o desapossamento típico da desapropriação indireta. Dessa forma não enseja ao proprietário direito à indenização, mais ainda quando o imóvel foi adquirido após a entrada em vigência da norma de proteção do meio ambiente, o que afasta qualquer pretensão de boa-fé objetiva do atual titular do domínio: AgRg nos EDcl no REsp 1.417.632/MG, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 11.2.2014; AgRg nos EDcl no REsp 1.334.228/MG, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 11.12.2013, e REsp 1.394.025/MS, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 18.10.2013. 2. A obrigação de reparação dos danos ambientais é propter rem, sem prejuízo da solidariedade entre os vários causadores do dano, descabendo falar em direito adquirido à degradação. O novo proprietário assume o ônus de manter a integridade do ecossistema protegido, tornando-se responsável pela recuperação, mesmo que não tenha contribuído para o desmatamento ou destruição: AgRg no REsp 1.367.968/SP, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 12.3.2014, e REsp 1.251.697/PR, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 17.4.2012. [...] (Superior Tribunal de
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Justiça. Segunda Turma. Recurso Especial nº 1241630/PR (REsp 2011/0046147-2). Ministro Relator, Herman Benjamin. Data do julgamento: 23/06/2015. DJe 19/04/2017).
Em face do exposto, quando vários agentes tiverem participado de uma ação que cause a poluição ou a degradação ambiental, serão responsáveis solidariamente pelos danos praticados, nos termos do 3º, inciso IV, da Lei nº 6.938/1981, combinado com o art. 942, do Código Civil brasileiro (Lei nº 10.406/2002), consoante entendimentos doutrinários e jurisprudencial.