Embora o termo “comunidade virtual” não seja muito utilizado pela expressiva maioria de trabalhos direcionados a redes sociais, muitos autores reconhecem sua pertinência como um dos elementos-objeto da abordagem. Iniciaremos nosso estudo com os conceitos mais amplos dentro da abordagem de comunidades e, subsequentemente, os conceitos específicos de comunidades sociais. Diversos estudiosos da área de redes definem comunidades como conjuntos de nós que estão muito mais próximos entre si do que dos demais, formando um cluster (Huberman & Adamic, 2003; Adamic & Adar, 2003, 2005 e 2005b; Wilkinson & Huberman, 2003; dentre outros). Essa proximidade é quase sempre associada
a uma maior densidade (ou seja, há um número maior de conexões ou de nós que estão em uma comunidade do que entre os demais) ou mesmo, a conexões mais fortes ou mais valorizadas. Trata-se de um entendimento aplicável a diversos tipos de redes. Além disso, os autores verificam a presença de subcomunidades dentro de
clusters, que podem constituir-se em um núcleo com laços mais
fortes. Uma comunidade, assim, constitui-se em uma estrutura de nós que estão mais próximos, mais agregados, mais conectados que os demais em uma rede social.
Outra característica das comunidades em redes é apontada por Newman e Park (2003): a estrutura da comunidade produz clusterização, ou seja, permite que os nós agreguem-se ainda mais uns aos outros. Isso equivaleria a dizer que a estrutura de comunidade tende a formar-se juntando nós cada vez mais próximos e tende a ficar cada vez mais densa. Girvan e Newman (2002) explicam que a clusterização pode ser compreendida como a propriedade das redes que apontaria para o fato de que dois nós que são “vizinhos” de um terceiro teriam grandes possibilidades de também possuírem uma relação entre si (em outras palavras: a chance de que duas pessoas com um amigo em comum também se conheçam é bem maior do que a de duas pessoas randomicamente selecionadas). Assim, o elemento típico da comunidade é aquele apontado por Simmel (1950 e 1964) como a tríade e não a díade, como muitos estudiosos analisavam. Na comunidade, tende-se a encontrar mais estruturas de conexão, portanto, as conexões entre dois nós são muito mais comuns que as demais. Assim, pela própria característica da clusterização, comunidades tendem a ter atores muito mais conectados que o restante da rede (e daí a característica da presença das tríades).
Como explicamos, a estrutura de cluster é uma propriedade das redes em geral e uma propriedade topológica83. Assim,
83 Para outros autores, no entanto, como Newman e Park (2003), afirmam que a
propriedade de comunidade seria característica das redes sociais e mais comuns a estas (p.4).
poderíamos discutir que as comunidades também seriam uma propriedade das redes sociais.
Vê-se aqui que o principal elemento de definição de uma comunidade em uma rede é, justamente, a densidade. Em uma determinada rede social, as comunidades seriam, assim, os agrupamentos de nós, em virtude da densidade das conexões na rede.
Figura 12: Grafo de uma rede inteira (a) e de um cluster (b).
Na imagem, vemos o grafo de uma rede inteira e do cluster da rede, ou seja, o centro onde estão concentrados a maior quantidade de conexões de maior valor. O grafo acima foi retirado de uma rede egocentrada em torno de um fotolog. Enquanto na primeira imagem temos todas as conexões estabelecidas através dos comentários de dois graus de separação (comentaristas e comentaristas dos comentaristas), vemos que há expressive diferença entre a rede e o cluster. O cluster representa apenas conexões recíprocas (comentários que foram retornados), e a maior parte dos nós está bastante conetada com os demais. A característica da comunidade é mais clara quando se observa que os nós não estão apenas conectados ao ego, mas igualmente, entre si, o que indicaria a possibilidade de existência de um grupo mais coeso.
Este é apenas um exemplo da estrutura da rede vista como um cluster. No entanto, resta-nos ainda avaliar a qualidade das
conexões e analisar se apenas a estrutura é suficiente para o estudo da comunidade. Wasserman e Faust (1994), por exemplo, explicam que os chamados grupos coesos podem ser estudados através de: a) a mutualidade dos laços ou conexões; b) a proximidade dos membros do subgrupo; c) a frequência dos laços dentre os membros; d) a frequência dos laços entre os membros em relação aos não- membros do grupo. A partir desta visão, estudam-se, de um modo amplo, os diversos tipos de comunidades. É interessante que a observação desses elementos, por exemplo, poderia complementar e, até mesmo, contribuir bastante para a compreensão da estrutura de comunidade. A mutualidade, por exemplo, é uma ideia fundamental. Um laço precisa ter duas vias de interação para poder ser aprofundado. É claro que, no entanto, essa reciprocidade não garante a força do laço, mas auxilia a percebê-la. A proximidade é verificada pelos sentimentos envolvidos, bem como pelas trocas de capital social. Já a frequência, pode ser avaliada também como frequência entre os contatos e interações.
Dentre os vários tipos de comunidades para os trabalhos da análise de redes sociais, há os cliques e os clusters. Wasserman e Faust (1994) explicam que o estudo dos cliques é um dos primeiros estudos de grupos coesos. Os autores definem o clique como “um clique em um grafo é um subgrafo de completude máxima de três ou mais nós”84 (p.254). Os autores explicam que a restrição é feita a, pelo menos, três nós, para evitar a díade, que é sempre completa (uma vez que uma única conexão já supre a necessidade de que os dois nós estejam conectados). Outras definições também utilizadas de cliques incluem redes onde todos as conexões possíveis entre os atores estão estabelecidas. A definição de clique é, assim, uma definição bastante estrita de grupo social, pois exige que todos os nós estejam conectados de todas as formas possíveis.
84 Tradução da autora para: “A clique in a graph is a maximal complete subgraph
Apesar da definição de clique ser frequentemente utilizada pelos autores quando realizam abordagens matemáticas e formalistas de redes sociais, trata-se de um conceito de difícil aplicação prática, pois é necessário que uma determinada rede ou agrupamento de nós nesta rede esteja inteiramente conectado, ou seja, que todos os nós analisados possuam um grau máximo de conexão.
Uma vez trabalhadas as visões sobre comunidades em redes, ou seja, tanto a visão da análise das redes sociais quanto a visão da abordagem mais formalista, há incompletudes. Embora o conceito de comunidade seja amplo, e preste-se a diversas construções, interessa- nos compreender como aparece a comunidade social. E a comunidade social, diferentemente de comunidades de reações químicas, de páginas e links, trabalha com motivações, percepções e construções individuais que são mais ricas que a mera análise formal pode perceber.
Neste item, portanto, verificamos como é a estrutura da comunidade virtual para a análise de redes. Resta-nos ainda discutir os elementos dessa estrutura, dentro de uma perspectiva sociológica.