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CONCEITO E CARACTERES DA PROPRIEDADE CONCEITO E CARACTERES DA PROPRIEDADE 1 Conceito

A PROPRIEDADE EM GERALA PROPRIEDADE EM GERAL

37. CONCEITO E CARACTERES DA PROPRIEDADE CONCEITO E CARACTERES DA PROPRIEDADE 1 Conceito

Entre definir a propriedade e formular o conjunto de poderes do proprietário, o legislador preferiu a segunda opção, fazendo-o pelocaput do art. 1.228: “O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.”21 O texto, basicamente, é reprodução

docaput do art. 524 do Código Beviláqua. Para os romanos, o direito de propriedade reunia três conteúdos:utendi, fruendi eabutendi, a seguir

considerados.

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A propriedade enfeixa uma gama de faculdades asseguradas pela ordem jurídica ao titular do direito subjetivo. Tais atribuições não são fragmentadas, mas fazem parte de um conjunto unitário, que confere aodominus o amplo poder sobre a coisa. Como destaca Marco Aurélio S. Viana:“O que temos... não é uma soma de faculdades, mas a unidade de todos os poderes conferidos ao proprietário; não é uma série de faculdades determinadas ‘a priori’, mas um poder geral, integrado por todos os poderes imagináveis.”23Para Aubry e Rau, não há como enumerar,

minudentemente, todos os poderes ínsitos no direito de propriedade.24

Usar , em regra, é tirar proveito das utilidades que a coisa oferece, sem destruí-la. Para tanto, o proprietário deve encontrar-se na posse do objeto. Corresponde ao jus utendi dos romanos. O dono de uma casa de campo, por exemplo, possui a faculdade de frequentá-la, deusá-la a seu bel-prazer.

O direito de gozar – jus fruendi – confere ao proprietário o poder de perceber os frutos que a coisa produz. Ao valer-se de tal faculdade, o dono deve estar na posse da coisa. Conforme os autores realçam, o exercício desse poder implica também o deuso. Graças a esse poder o proprietário, que cultivou a terra, semeando-a, procede à colheita de seus frutos. Estes, todavia, não se limitam à dádivas da terra, pois alcançam também os rendimentos que a coisa produz, como os aluguéis. No caso de locação, verifica-se o desmembramento dos poderes inerentes ao domínio: enquanto o proprietário permanece com o jus fruendi, o jus utendi em caráter temporário fica em poder do locatário.

O poder de disposição da coisa, correspondente ao jus abutendi dos romanos, consiste na capacidade de o proprietário se desfazer do objeto,

seja consumindo-o, alienando-o ou dando-lhe qualquer outra destinação, atendidos os requisitos de lei. Nem todo direito de propriedade, contudo, se reveste desse poder, pois há os bens inalienáveis por força de lei ou de vontade.

O proprietário tem, ainda, o direito de reaver a coisa, podendo valer-se da ação reivindicatória, a fim de receber o que é seu de quem injustamente o possua. Quando o dispositivo legal se refere a “quem quer que injustamente a possua ou detenha”, o legislador não restringe o poder à posse injusta, que se caracteriza pela formaviolenta,clandestina ou precáriade aquisição. O vocábulo“injustamente” foi empregado em acepção bem ampla, como ação contrária ao valor justiça ou prática juridicamente condenável. A ação reivindicatória é um pleito judicial formulado pelo proprietário, que não se encontra na posse da coisa, em face do não proprietário, que tem o objeto em seu poder sem uma razão jurídica. Parte legítima para propor tal ação é o proprietário e para figurar como réu, o possuidor da coisa. O proprietário investido na posse, que pretende excluir a pretensão de quem se diz titular de direito real sobre a coisa, vale-se daação negatória. Esta modalidade visa a negar a existência de algum direito real.

À luz do Direito brasileiro, presume-se plena eexclusiva a propriedade, até prova em contrário. É a disposição do art. 1.231 da Lei Civil e a presunção em tela é juris tantum. Aexclusividade, na lição de Clóvis

Beviláqua, alija a ingerência de terceiros e não o condomínio. Ainda quando duas ou mais pessoas são proprietárias de uma coisa, formando-se um condomínio, diz-se que a propriedade é exclusiva, pois cada um dos titulares pode afastar a ação de terceiros sobre a coisa.25 O art. 1.314 do

Código Civil garante a cada condômino amplos poderes sobre a coisa, como o de usá-la, reivindicá-la de terceiro e defender a sua posse.A propriedade é plena quando reúne todos os poderes previstos na Lei Civil. O titular detém todos os elementos inerentes à propriedade: o direito de usar, gozar e dispor livremente, com exclusão de outrem. Qualquer interessado poderá alegar a não plenitude do domínio, por exemplo, comprovando que o direito limita-se à nua-propriedade. Ao proprietário, não cabe o ônus da prova, pois a presunção o favorece. As limitações legais, impostas à propriedade, como o direito de vizinhança, não retiram da propriedade o caráter de plenitude.26

37.2.Caracteres

A doutrina, de um modo geral, indica os seguintes caracteres básicos da propriedade: a)exclusividade; b) perpetuidade; c) generalidade; d) caráter absoluto; e)elasticidade. A exclusividade significa que o titular do direito detém poderes sobre a coisacom exclusão de outrem. O caráter perpétuo

revela que o direito não é temporário ou transitório, pois suscetível de ser transmitidointer vivos oucausa mortis. Existindo o bem, haverá a propriedade, excetuando-se ares nullius e ares derelictae, enquanto não houver ocupação. Diz-se que a propriedade é geral, dado que ao seu titular tudo é permitido nos limites da lei. Aplica-se a ele o princípio danorma de liberdade: o que não lhe for proibido, licitamente poderá ser praticado. A este respeito, diz Henri de Page:“O proprietário pode tudo fazer, salvo o que lhe é proibido por lei ou por convenção”.27 Trata-se de um direito

absoluto como os demais direitos reais, o que significa ser oponível a todos, possuir validadeerga omnes. Alguns autores o consideram absoluto também pelo poder generalizado que odominus possui em relação à coisa. A Revolução Francesa havia proclamado, em 1789, que“ninguém poderá ser privado da propriedade, que é um direito inviolável e sagrado...”. Em consequência, o Código Napoleão assim definiu aquele direito:“A propriedade é o direito de usar e dispor das coisas da maneira mais absoluta...”. O Código Civil italiano, de 1865, pelo art. 436, reproduziu o texto francês:“A propriedade é o direito de gozar e dispor da coisa da maneira mais absoluta...”. À vista desta disposição, Filomusi Guelfi negou ilicitude na ação do proprietário que visa apenas a prejudicar terceiros.28

No passado mais distante, quando predominava a filosofia individualista, esse direito era incomensurável, sem limites, mas tal fase se encontra perdida na noite dos tempos, substituída pelo princípio de solidariedade que deve existir nas relações sociais. Hoje, a grande chancela do direito de propriedade é a sua função social , que impede o exercício irregular desse direito subjetivo em detrimento do interesse da coletividade. E é neste sentido que Henri de Page considera a propriedade um direito absoluto:“A propriedade... é um dos raro s direitos subjetivos absolutos que ao proprietário é admitido usar de uma coisa como desejar e, por isto mesmo, não tem satisfação a dar.” Entretanto, o eminente civilista belga frisa que o termoabsoluto não significa de modo algum ausência de limites. Ao contrário de alguns autores, admite a possibilidade de o proprietário incidir em abuso de direito.29

Alguns juristas apontam aelasticidade como um dos caracteres da propriedade. Esta teria a capacidade de retornar à plenitude dos poderes

que lhe são inerentes, quando se extinguisse um direito real limitador. É a capacidade de expansão da propriedade, uma vez que, na palavra de Mota Pinto,“não fica vago o somatório dos poderes que se extinguiram, correspondentes ao direito que findou”.30 Destarte, se ocorre a extinção do

usufruto pelo falecimento do seu titular, a propriedade volta a ser plena, deixando de ser apenas umanua-propriedade. O art. 1.410, inc. I, do Código Civil, cuida desta última hipótese.

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38.FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADEFUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE