• Nenhum resultado encontrado

OUTRAS CLASSIFICAÇÕES OUTRAS CLASSIFICAÇÕES

CLASSIFICAÇÃO DA POSSECLASSIFICAÇÃO DA POSSE

24. OUTRAS CLASSIFICAÇÕES OUTRAS CLASSIFICAÇÕES

Além das classes consideradas, a doutrina registra outras, como a trazida por Lafayette R. Pereira: posse natural e posse civil , entendendo-se pela primeira a que se efetiva pelo contato físico e, pela segunda, a que surge por força de lei ou em conformidade com a lei, independentemente do contato com a coisa.36

Ad interdicta é a posse apta aos benefícios da proteção possessória. Seu titular dispõe das ações de reintegração e manutenção, além dos interditos proibitórios, caso a posse seja objeto, respectivamente, de esbulho, turbação ou de ameaça. São possesad interdicta, entre outras, a do locatário e a do usufrutuário. Há de provar, basicamente, ocorpus e oanimus. Denomina-sead usucapionem a posse que se qualifica para a aquisição da propriedade pela prescrição aquisitiva, ou seja, porusucapião.37 Conforme destaque anterior, importante a distinção entre

o jus possidendi e o jus possessionis, conceitos frequentemente empregados na literatura especializada. O primeiro consiste nodireito à posse, que é a legitimidade de o possuidor ter a coisa e desfrutar dos poderes inerentes à sua posse. Pode ou não estar investido na posse, mas esta lhe pertence por direito. O segundo – jus possessionis – significadireito de posse, ou seja, a gama de proteção a que faz jus o possuidor. Mesmo que este não tenha o jus possidendi pode valer-se da tutela possessória.

A atual Lei Civil não reproduziu as disposições dos arts. 507 e 508 do Código Beviláqua, que dispunham, respectivamente, sobre as chamadas posse nova e posse velha. Aquela, com menos de ano e dia e esta, com mais de ano e dia. A matéria, todavia, está prevista no art. 558 do CPC de 2015, que atribui o direito de reintegração ou manutenção, liminarmente, quando o esbulho ou turbação for de menos de ano e dia. Ou seja, se a posse do esbulhador ou os atos de turbação são de menos de ano e dia, ao possuidor desalojado ou turbado caberá o direito de obter, liminarmente, a medida judicial pleiteada. Observe-se que a posse considerada não é a de quem pleiteia a proteção possessória, mas a do atual possuidor. Tratando-se de posse velha, cabível a tutela, mas sem o direito à obtenção de liminar, ou seja, sem a imediata reintegração ou manutenção. O rito, portanto, deixa de ser o das ações possessórias para seguir o ordinário.

Tendo em vista que o atual Códex não conservou as disposições dos arts. 507 e 508 do Código revogado, há quem cogite, como Jorge Franklin

A. Felipe, da eliminação do rito especial das ações possessórias.38 Creio que

o legislador considerou desnecessária a continuação de tais artigos, estando o seu conteúdo presente no art. 924 do Código de Ritos, ao qual as regras se atrelam mais adequadamente. Quando se cogita, cada vez mais, da aceleração dos feitos judiciais, seria um retrocesso a alteração das regras processuais que visam, sem mais delongas, à prestação jurisdicional. Além do mais, inovações no campo processual devem surgir de leis específicas e não de normas atópicas ou heterotópicas. Nem sempre as disposições do Código anterior, não mantidas no atual, restam eliminadas da ordem jurídica, pois às vezes permanecem na condição de normas implícitas.

A função social da propriedade, por extensão, impõe a função social da posse, notadamente a partir da Constituição da República de 1988 e com a ênfase dada pelo Código Civil de 2002, daí surgir a distinção entre a posse improdutiva e a posse pro labore. Ambas podem constituir a posse ad usucapionem, mas dispõem de regras específicas, distintas, previstas, respectivamente, nas disposições dos arts. 1.238 e 1.239 do novo Códex.

Na literatura jurídica encontra-se referência à expressão posse imemorial (ab inmemorabili), definida por Antônio Joaquim Ribas como“aquela de cuja srcem não resta lembrança” .39 Fala-se, também,

em posse contínua, para expressar que o possuidor exercita algum tipo de poder sobre a coisa sem interrupção. Invoca-se tal espécie quando se pleiteia a propriedade por via de usucapião. Posse pacífica é a que não foi

obtida mediante violência, física ou psicológica.

Quanto ao surgimento, a posse pode sersrcinária ouderivada. A primeira nasce com o titular, não padecendo assim de qualquer vício anterior. A posse proveniente de usucapião é desta natureza. Derivada, como o próprio nome induz, é a que provém de outrem e continua com as mesmas características da anterior, com os mesmos vícios.

REVISÃO DO CAPÍTULOREVISÃO DO CAPÍTULO

■Posse direta e indireta. A classificação da posse, que

passamos a apresentar, toma por base o ordenamento jurídico vigente. Posse direta possui quem tem a coisa em seu poder. A contrario sensu, indireta é a posse de quem detém a propriedade, mas sem dispor do direito de uso e de gozo. No usufruto, o usufrutuário detém a posse direta, enquanto o nu- proprietário tem a indireta. Se o usufrutuário entrega a coisa em locação, passará, juntamente com o nu-proprietário, à condição de possuidor indireto, enquanto o locatário terá a posse direta. Se todos os poderes inerentes à propriedade se concentram em apenas uma pessoa, a posse não comporta as adjetivações direta e indireta.Neste caso, alguns a denominam posse absoluta ou plena.

■Posse exclusiva e composse. Posse exclusiva é a não

compartilhada; é a que pertence a uma só pessoa. Tal posse pode ser plena, direta ou indireta. Tem-se a composse, como o próprio nome sugere, quando mais de uma pessoa detém a posse plena, direta ou indireta. É o caso, por exemplo, de duas pessoas possuírem a nua-propriedade ou a propriedade plena de um imóvel. Na composse, os possuidores detêm iguais poderes e estes recaem sobre o mesmo bem. A composse não se confunde com o condomínio, pois este se caracteriza quando mais de um indivíduo possui a propriedade do bem, enquanto aquela se verifica quando duas ou mais pessoas têm a mesma posse. A composse se divide em pro diviso e pro indiviso. A primeira se dá quando a coisa é divisível e os poderes recaem sobre partes distintas; o inverso ocorre na modalidade pro indiviso, em que a coisa é indivisível e os poderes incidem sobre a totalidade da coisa.

Posse justa e posse injus ta.

Diz-se que a posse é injusta quando adquirida por violência, clandestinidade ou de forma precária. Justa é a não adquirida por algum desses vícios. A violência pode ser física (vis absoluta) ou moral, também chamada psicológica (vis compulsiva). A violência se diz física quando a força bruta é utilizada, enquanto a psicológica se caracteriza com a grave ameaça. Posse clandestina é a obtida às escondidas, sem o conhecimento do possuidor. Precária é a posse adquirida com a recusa de restituição da coisa. Dá-se ainterversão do título quando a posse deixa de ser precária. A posse injusta autoriza o ajuizamento de ação possessória em face de terceiros.

■Po s s e d e b o a- fée d e m á-f é. Ocorre a posse de má-fé quando

o possuidor tem conhecimento do vício ou impedimento à aquisição da coisa; na posse de boa-fé, o possuidor desconhece tal circunstância. É possível a conversão da posse de boa-fé em posse de má-fé, e tal fato ocorre no momento em que se constata que o possuidor tem conhecimento do vício ou impedimento. A posse de boa-fé nem sempre se caracteriza como justa e, de igual modo, a de má-fé nem sempre é injusta. Todavia, há presunção de boa-fé para o possuidor que apresenta justo título.

■Pri nc ípi o de per m anênc ia do car áter da po ss e .. Embora a

existência do princípio em destaque, a presunção de permanência é apenas relativa. Há possibilidade teórica de o

caráter da posse modificar-se, como ocorre quando o esbulhador adquire a propriedade da coisa.

■Ou tr as cl ass ifi cações .. Enquanto a posse natural é a que se

efetiva pelo contato físico, a civil surge por força de lei ou em conformidade com a lei. Ad interdicta é a posse protegida por ações possessórias, como a do locatário e a do usufrutuário. Ad usucapionem é a posse que se qualifica para a aquisição do domínio pela usucapião. Jus possidendi é o direito à posse; jus possessionis significa direito de posse. Antiga classificação

considera posse nova a que possui menos de ano e dia, enquanto a posse velha é a de mais de ano e dia. Posse improdutiva é a não geradora de coisas; posse pro labore é a utilizada no trabalho. Posse imemorial é a antiga, de cujo início não se guarda lembrança. Posse contínua é a exercida sem interrupção. Posse pacífica, a adquirida sem qualquer vício. Posse srcinária é a não transmitida e que não traz consigo qualquer vício; posse derivada, ao contrário, é a transmitida e se contamina com eventuais vícios anteriores.

_______________

1Conforme expressão de José Castán Tobeñas, op. cit., tomo 2, vol. I, p. 681. 2V. em Arnoldo Wald, op. cit., p. 53 e em Darcy Bessone,op. cit., p. 263.

3Em matéria penal, a posse prevista no crime de peculato art. 312 do Código Penal – é compreensiva tanto da posse direta quanto indireta. Neste sentido o acórdão do Superior Tribunal de Justiça: “... II. A expressão posse, utilizada no tipo penal do art. 312 , caput, do Código Penal, não deve ser analisada de forma restrita, e, sim, tomada como um conceito em sentido amplo, que abrange, também, a detenção. Dessa forma, o texto da lei aplica-se à posse indireta, qual seja, a disponibilidade jurídica do bem, sem apreensão material...” , RHC 10845/SP, 5ª Turma, rel. Min. Gílson Dipp, julg. em 13.03.2001, pub. em 23.04.2001, DJ , p. 00166.

4 A posse do locador, do nu-proprietário ou do credor pignoratício não se ajusta à teoria de Ihering. A posse do locatário, do usufrutuário ou do devedor pignoratício não se afeiçoa à teoria de Savigny” (op. cit., p. 265).

5Instituições de Direito Civil – Direitos Reais, 18ª ed., obra atualizada por Carlos Edison do Rêgo Monteiro Filho, Rio de Janeiro, Editora Forense, 2003, vol. IV, p. 33. Orlando Gomes sustenta igual opinião: “A bipartição da posse em graus é construção doutrinária enraizada na concepção de Ihering. Explica-se unicamente nesse clima conceitual. Para os que concebem a posse em outra perspectiva, não se justifica o desdobramento da relação possessória”. Direitos Reais, 19ª ed., atualizada por Luiz Edson Fachin, Rio de Janeiro, Editora Forense, 2004, p. 59. 6Programa de Direito Civil , atualização de Laerson Mauro, 3ª ed., Rio de Janeiro, Editora Rio, 1984, vol. III, p. 54.

7Enunciado aprovado na Jornada de Direito Civil, realizada no período de 11 a 13 de setembro de 2002, sob a coordenação científica do Min. Ruy Rosado, do Superior Tribunal de Justiça, cf . J. Franklin Alves Felipe et alii , O Novo Código Civil Anotado, 4ª ed., Rio de Janeiro, Editora Forense, 2004, p. 482.

8José Carlos Moreira Alves refere-se ainda à posse múltipla: “Há posse múltipla – como acentua Wolff – em dois casos: no de posse de parte real da coisa (o

Teilbesitz, a que alude o § 865 do Código Civil alemão, e em que sobre a mesma coisa há vários possuidores, tendo, porém, cada um posse sobre parte diversa da coisa) e no de desdobramento da posse(em que há, no mínimo, dois possuidores – o direto e o indireto – sobre a mesma coisa, mas com posses de natureza

diversa)...” . Op. cit., vol. II, tomo I, p. 476.

9… plures eandem rem in solidum possidere non possunt; contra naturam quippe est, ut, quum ego aliquid teneam, tu quoque id tenere videaris.” , Digesto, Livro XLI, tít. II, 3, § 5.

10Cf . Astolpho Rezende, op. cit., 1º vol., p. 371. 11Op. cit ., p. 34.

12Cf . R. Limongi França, verbete Composse, Enciclopédia Saraiva do Direito, 1ª ed., São Paulo, Editora Saraiva, 1978, vol. 16, p. 401.

13Cf . Sílvio de Salvo Venosa, op. cit., p. 46.

14REsp. nº 136922/TO, Superior Tribunal de Justiça, 4ª Turma, rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar:“Composse. Área comum Pro Indiviso. Turbação. É cabível ação possessória intentada por compossuidores para combater turbação ou esbulho praticado por um deles, cercando fração da gleba comum...” , julg. em 18.12.1997, pub. em 16.03.1998, DJ , p. 00145.

15REsp. nº 222568/BA, Superior Tribunal de Justiça, 3ª Turma, Min. Carlos Alberto Direito: “Ação de reintegração de posse. Autorização do cônjuge. 1.Não desfeita a sociedade conjugal a comunhão dos bens acarreta a composse, impondo-se a incidência do art. 10, § 2º, do Código de Processo Civil para o ajuizamento da ação de reintegração de posse...” , julg. em 15.05.2000, pub. em 26.06.2000, DJ , p. 00162.

16REsp. nº 10521/PR, Superior Tribunal de Justiça, 4ª Turma, Min. Barros Monteiro: “Reintegração de posse. Concubina. Composse. É de reconhecer -se a tutela possessória à concubina que permaneceu ocupando o apartamento após a morte do companheiro de longos anos e que postula, em ação própria, a meação do bem adquirido na constância da sociedade de fato, mediante o esforço comum. Recurso especial conhecido e provido.” Julg. em 26.10.1992, pub. em 04.04.1994, DJ , p. 06684.

17Direito das Coisas, 6ª ed., Rio de Janeiro, Livraria Freitas Bastos, S. A., 1956, p. 35.

18

Op. cit., p. 737.

19 Ap. cív., proc. nº 2004.001.12941, 18ª Câm. Cív., rel. Des. Jorge Luiz Habib, julg. em 13.07.2004, pub. em site do TJRJ, consulta em 27.08.2004.

20Op. cit., p. 267.

21Código Civil dos Estados Unidos do Brasil , ed. cit., vol. III, p. 11.

22Da Posse e das Ações Possessórias, 9ª ed., Rio de Janeiro, Editora Forense, 2000, vol. I, p. 38.

23Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ap. cív. nº 7000339979, 15ª Câm. Cível, rel. Des. Vicente Barrôco de Vasconcellos: “... Posse Precária. Na espécie, a ocupação de área em razão da permissão ou tolerância dos proprietários, parentes dos ocupantes, não induz a posse, consoante os termos dos arts. 497 e

492 (atualmente, 1.208 e 1.203) do Código Civil”. Julg. em 14.08.2002. Ementa transcrita do sitedo TJRS em 26.08.2004.

24Direito Civil – Direito das Coisas, 27ª ed., São Paulo, Editora Saraiva, 2002, vol. 5, § 16, p. 29.

25Op. cit., tomo V, p. 746. 26Op. cit., p. 38.

28REsp. nº 430810/MS, Superior Tribunal de Justiça, 4ª Turma, rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar: “Acessão. Construções. Posse de boa-fé. Retenção. O possuidor de boa-fé tem direito à retenção do bem enquanto não indenizado pelas construções (acessões) erguidas sobre o imóvel. Precedentes. Recurso

conhecido e provido” , julg. em 01.10.2002, pub. em 18.11.2002, DJ , p. 00226. 29O erro ou a ignorância do direito não escusa.”

30Op. cit., tomo I, p. 455. 31

Cf . Astolpho Rezende, op. cit ., 1º vol., p. 403. 32Cf . Astolpho Rezende, op. cit ., 1º vol., p. 404.

33Cf . anota Orlando Gomes, Direitos Reais, ed. cit., p. 56. 34Digesto, Livro XLI, tít. II, frag. 3, § 19.

35Op. cit., vol. II, tomo I, p. 79. 36Op. cit., p. 36.

37Cf . Enciclopédia do Direito Saraiva, ed. cit., verbete Posse “Ad Usucapionem” , texto da Comissão de Redação, vol. 59, p. 379.

38Jorge Franklin Alves Felipe et alii , O Novo Código Civil Anotado, 4ª ed., Editora Forense, Rio de Janeiro, 2004, p. 226.

39Op. cit., p. 67. Pomponius ad Sabinum, em Digesto, Livro XLIII, tít. XX, frag. 3, § 4º: “Ductus aquae, cuius srco memoriam excessit, iure constituti loco habetur.” – “Consi dera-se constituído juridicamente o aqueduto de cuja srcem não se tem memória.”