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A PROPRIEDADE ENTRE OS ANTIGOS A PROPRIEDADE ENTRE OS ANTIGOS

A PROPRIEDADE EM GERALA PROPRIEDADE EM GERAL

35. A PROPRIEDADE ENTRE OS ANTIGOS A PROPRIEDADE ENTRE OS ANTIGOS

Ao longo da História a propriedade foi objeto das mais variadas formas de organização. Houve povos que não chegaram a conhecer a propriedade privada. Enquanto os tártaros a admitiam em relação ao rebanho, não quanto ao solo, entre os antigos germanos simplesmente inexistia. As tribos distribuíam as terras, para o seu cultivo, sem que se estabelecesse vínculo de domínio e, anualmente, os membros trocavam de terras. A propriedade limitava-se aos frutos das colheitas. Entre os gregos a prática era inversa: havia o domínio sobre as terras e o condomínio quanto à colheita. Nas palavras de Fustel de Coulanges:“O indivíduo não nos aparece como absoluto senhor do trigo por ele colhido, mas, mercê de notável

contradição, já tem a propriedade absoluta do solo. A terra era mais dele do que a colheita.”9 No levantamento histórico da propriedade, nem tudo se

apresenta claramente, a ponto de Carlos Alberto da Mota Pinto comentar que“a informação sobre esta matéria é sempre fragmentária e algo conjetural, sobretudo se pretendermos uma solução geral”.10

Na Grécia e em Roma, três instituições se mantinham inseparáveis: a família, a religião doméstica e o direito de propriedade. Cada família possuía o seu próprio deus, instalado em altar para ser adorado em caráter permanente. Havia uma relação muito forte entre a família, o seu deus e o solo ocupado, não se cogitando de mudança de lugar, salvo por motivos excepcionais. O imóvel era considerado propriedade da família e não de qualquer um de seus membros. O culto aos deuses se fazia no recesso dos lares e apenas pelos membros das famílias. Como nenhum estranho podia presenciar a adoração, as casas eram separadas por muros de pedras, paliçadas ou sebes. Quanto aos túmulos, igual cuidado era dispensado. Os membros de uma família deviam ser enterrados no mesmo local, enquanto que a área ocupada se tornava inalienável e imprescritível. De acordo, ainda, com Fustel de Coulanges,“não foram as leis, mas a religião o que primeiramente garantiu o direito de propriedade”.11

Em Esparta, chegou-se a vedar a venda das terras, pelo que a propriedade assumia caráter de coisa inalienável. Posteriormente, a Lei de Solon não impedia a venda, mas impunha ao vendedor a severa pena da perda de seus direitos de cidadão. Em Roma, com a Lei das XII Tábuas,

manteve-se inalienável apenas o túmulo.

O Direito Romano, malgrado as especulações a respeito, não ofereceu uma definição de propriedade. Considerando a disciplina da matéria, Fritz Schulz definiu a propriedade romana como“um direito sobre coisa corporal que confere por princípio, a seu titular, um pleno poder sobre a coisa, ainda que este poder possa e star sujeito a variadas limitações”.12

Houve, em Roma, diversas espécies de propriedade, sendo aquiritária a principal delas. Nesta modalidade, apenas os cidadãos romanos podiam assumir a titularidade, enquanto aos não romanos acessível era apenas a posse doius commercii. Quanto ao objeto da propriedade, tratando-se de coisa móvel, não havia restrições. Qualquer que fosse o gênero, a coisa podia figurar como objeto. Em relação aos imóveis, suscetível de domínio eram apenas os fundi italici, ou seja, as terras localizadas em território italiano.

Ao lado daquiritária, havia a propriedade pretória, também conhecida porem propriedade quiritáriabonitária, que podia ser adquirida com a usucapião, transformando-se. O tempo de posse exigido era de um ou dois anos. A sua aquisição exigia a cidadania romana, excetuando-se os não romanos que tivessem a posse doius comercii. Também apenas o fundi italici podia figurar como objeto da propriedade pretória.

Denominava-seres publicae a coisa pertencente ao Estado, como as praças, as ruas, os teatros. Ares publicae sujeitava-se a regras próprias, inclusive de proteção. Englobava as coisas pertencentes aoaerarium populi romani, ao fiscus. Quanto às praças, às ruas, aos edifícios localizados nomunicipium, embora chamados, equivocadamente, porres publicae, pertenciam ao Direito Privado, sendo propriedadequiritária ou pretória. Relativamente às terras pertencentes às províncias, podiam ser uma res publicae, caso fossem doaerarium populi romani ou do fiscus. Se as terras estavam beneficiadas peloius italicum, tratar-se-ia de propriedadequiritária ou pretória. As localizadas em umacivitas libera et foederata pertenciam à civitas ou aos seres humanos – romanos ou peregrinos. Quando um magistrado, observando as formalidades de estilo, consagrava as coisas a um deus, a este pertenciam, sendo denominadas porres sacrae. Como anota Fritz Schulz, em realidade tais coisas

integravam o patrimônio do Estado, mas sujeitando-se a regras especiais, não chegando a se confundir com asres publicae.13

Asres religiosae, que se limitavam aos sepulcros, eram consagradas à religião e se sujeitavam a regras especiais, fora do Direito Privado. Pertenciam, geralmente, aocollegia funeraticia.

Na Idade Média, os suseranos, visando à defesa de seus domínios contra possíveis invasões, firmavam pactos para a distribuição de terras –

feudos – , mediante a contraprestação de apoio militar. Os suseranos conservavam odomínio eminente, enquanto os feudatários, ouvassalos, permaneciam com odomínio útil . Os trabalhadores cultivavam a terra, mediante troca de alimentos.14 Tais acordos se faziam por tempo certo ou

vitalício. O feudatário, por sua vez, podia fazer concessões de terras, semelhantes a praticada com o titular dodomínio eminente. Assumia, perante os novos vassalos, a condição de senhor. O feudalismo, como anotaClóvis Beviláqua, praticamente foi extinto no Ocidente após a Revolução

Francesa.15

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