INTRODUÇÃO AO DIREITO DAS COISAS
Sumário:
Sumário: 1.1. Considerações prévias.2. 2.Terminologia, conceito e objeto do Direito das Coisas.3.3. Noção de direito real.4.4. Classificação e caracteres dos direitos reais.5.5. Paralelo entre direitos reais e obrigacionais.6.6. Os direitos reais no Direito Internacional Privado.7.7. Ações reais.8.8. Direito real e obrigação propter rem.
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1.CONSIDERAÇÕES PRÉVIASCONSIDERAÇÕES PRÉVIAS
A pessoa humana, ser imperfeito que é, depende do reino da natureza e do mundo da cultura para lograr a sobrevivência e realizar o desenvolvimento de suas potências ativas. Em seuatuar e fazer , necessita de exercer o poder sobre as coisas que lhe são essenciais, como a indumentária, os alimentos, a habitação, os instrumentos de trabalho. Como a sua vida desenrola-se em sociedade, onde concorre com pessoas animadas por iguais interesses, indispensável o surgimento de regras básicas sobre a posse, propriedade e relações análogas, além de princípios gerais de Direito. A justificativa do Direito das Coisas está ligada à carências primárias do ser humano.1 De acordo com J. W. Hedemann,“o
Direito das Coisas serve à dominação dos bens terrenos, sem a qual a vida do homem é impossível.”À medida que o ser humano evolui culturalmente,“o Direito das Coisas se r efina, convertendo-se em objeto de estudos científicos e de uma frondosa jurisprudência.”2
Afirmar que o Direito das Coisas regula importante matéria de ordem social é redundância, verdadeiro truísmo, pois o Jus Positum cuida exclusivamente de questões relevantes, seja para prevenir ou solucionar conflitos interpessoais. Ocorre, porém, que esta ramificação do Direito Civil possui por núcleo a posse, propriedade e os direitos reais sobre coisas alheias, em torno dos quais agigantam-se os interesses e na proporção dos diferentes graus do capitalismo vigente.
O Direito das Coisas é domínio do Direito Civil que se mostra receptivo à mudanças culturais, especialmente às que se operam na esfera político-ideológica, e revela um coeficiente de princípios e regras de caráter nacional.3 Seu campo legislativo é marcado por normas de ordem pública,
que se sobrepõem aos interesses particulares. Lacerda de Almeida, após empreender uma pesquisa aprofundada nesta província do conhecimento
jurídico, confessou o quanto se surpreendeu com o caráter evolutivo do Direito das Coisas. Parecia-lhe, anteriormente, que este sub-ramo constituísse“a sede das forças conservadoras na dinâmica geral do Direito, a parte mais refratária à transformações e ao progresso, a mais acentuadamente histórica...”Reconheceu o seu equívoco, diante da“preponderância cada vez maior do interesse público sobre o interesse particular no Direito Privado, os progressos do socialismo do Estado...”, além de registrar o alargamento do Direito das Coisas, ao açambarcar matérias então consideradas do âmbito do Direito das Obrigações.4 E o
depoimento do emérito civilista clássico foi há um século, quando a história ainda reservava uma grande projeção do interesse coletivo na esfera da propriedade privada!
Ludovico Barassi aponta oexercício efetivo do direito real comoato discricionário do titular , uma vez que o direito subjetivo é o senhorio da vontade.5 Realmente não há norma que imponha o uso e o gozo, por
exemplo, da propriedade, mas a inércia do seu titular pode trazer-lhe resultado negativo, especialmente em face da valorização crescente do princípio da função social da propriedade. Conforme as peculiaridades do caso concreto, o titular sujeita-se à usucapião em menor prazo e ao processo desapropriatório.
Alguns autores julgam o Direito das Obrigações conservador em seus princípios superiores, além de apresentar uma tendência à universalização. Aquela característica era levada em consideração no paralelo que se fazia com o Direito das Coisas, pois os seus institutos eram dominados pelo princípio da autonomia da vontade. Hodiernamente, o Direito das Obrigações reúne um acervo de regras cogentes, que fixa limite às convenções. Os princípios da função social do contrato eboa-fé objetiva, somados aos balizamentos doCódigo de Defesa do Consumidor , submetem as relações obrigacionais à normas de ordem pública. De certo modo, parte dos direitos obrigacionais conduz à formação de direitos reais, como ocorre na compra e venda. Ao firmar o contrato, o vendedor se obriga a transferir a propriedade ao comprador, o que se efetiva com a tradição. Não há como se quantificar o caráter dinâmico do Direito das Coisas, comparativamente ao do Direito das Obrigações. Ambos estão abertos à modernidade, seja para alcançar o aperfeiçoamento científico ou abrigar o novo sentido de justiça, mais social e humana.
A função social da propriedade,reconhecida 6 no plano
constitucional,7 direciona o legislador para adaptar o instituto às condições
econômicas do momento histórico, movendo-se não apenas pela justiça comutativa, mas sensível aos imperativos da justiça social. A realidade nacional cria especiais desafios. Os grandes centros urbanos estão cercados por habitações precárias em todos os sentidos, ao mesmo tempo em que aumenta a reivindicação de terra por grupos politicamente organizados,
visando a obter condições de trabalho no campo e moradia familiar. A questão social gera a chamadacontracultura, que se coloca antagônica ao Direito Oficial . Diante de um quadro como este, natural que o Direito das Coisas deste início de milênio não conserve os paradigmas que deram sustentação ao Código Civil de 1916, o qual retratou uma sociedade agrária dominada pela filosofia individualista. O Código Beviláqua,8 pelo art. 524,
assimilou a orientação romana de propriedade:“Ius utendi, fruendi et abutendi re sua quatenus iuris ratio patitur.”9 O atual, embora transcreva
ocaput do citado artigo, pelos parágrafos do art. 1.228 se abre à modernidade, condicionando o exercício do direito de propriedade aos múltiplos valores essenciais à vida, ao progresso e à cultura, como oequilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico. O Código Reale não chegou a adotar a filosofiacoletivista, mas umtranspersonalismo, que visa a conciliar os valores individuais e os coletivos, dando preeminência a um ou a outro de acordo com a situação prevista. Consoante a Exposição de Motivos, pertinente ao Direito das Coisas, foi “possível satisfazer aos superiores interesses coletivos com salvaguarda dos direitos individuais”.10