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Conceito de Liberdade Sindical

CAPÍTULO 2 - LIBERDADE SINDICAL

2.4 Conceito de Liberdade Sindical

A liberdade sindical possui pontos fundamentais que norteiam seus objetivos e que devem ser observados detalhadamente, a fim de se extrair a sua conceituação.

Octavio Bueno Magano102 define a liberdade sindical como o “direito dos

trabalhadores e empregadores de não sofrerem interferências nem dos poderes públicos nem uns em relação aos outros, no processo de se organizarem, bem como o de promoverem interesses próprios ou de grupos a que pertençam”.

Segundo o jurista103, esse conceito destaca a essência mais conhecida da

liberdade sindical, isto é, a organização sindical sem qualquer espécie de interferência.

A definição proposta por Octavio Bueno Magano104 abrange também uma

segunda característica da liberdade sindical, no caso, a existência de duas dimensões: a primeira refere-se à liberdade positiva, compreendida como o “direito de constituir sindicato, de aderir aos quadros respectivos, de fazer obra de proselitismo, de coletar contribuições sindicais, de participar de assembléias sindicais” [sic]. A segunda dimensão consiste na liberdade negativa que “se traduz

no direito de não aderir ao sindicato e dele desligar-se”105.

Observa-se ainda uma terceira característica neste conceito, que “a

liberdade sindical pode ser ainda dividida em individual e coletiva”106.

Não obstante seu entendimento, Octavio Bueno Magano107 aduz que a

doutrina brasileira se concentra apenas em três dimensões da liberdade sindical para conceituá-la, no caso, sindicalização livre, autonomia e pluralidade sindical.

Nesse sentido, tem-se o conceito proposto por Mozart Victor

Russomano108, que divide a liberdade sindical em três partes, formando uma figura

102 MAGANO, Octavio Bueno. Direito coletivo do trabalho. Vol. III: Manual de direito do trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 1993. p. 27.

103 Ibid. p. 27-28.

104 Ibid. p. 28.

105 Ibid.

106 Ibid.

107 Ibid. p. 29.

108 RUSSOMANO, Mozart Victor. Princípios gerais de direito sindical. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998. p. 65.

triangular composta pela sindicalização livre, autonomia sindical e pluralidade sindical.

Compreende-se como sindicalização livre, o direito do trabalhador de “se

associar, no sindicato, aos seus companheiros de ofício ou profissão109”.

Ainda, esse direito “alcança, também, a prerrogativa do sindicato de se

aliar a outros sindicatos congêneres, constituindo federações e confederações, em

planos sucessivos e ascendentes”110.

A respeito da autonomia, afirma Russomano111 que o sindicato “é o

senhor único de suas deliberações, não podendo ficar submetido ao dirigismo exercido por forças ou poderes estranhos à sua organização interna”.

Para esse doutrinador112, a autonomia somente existirá quando

assegurados os seguintes direitos aos sindicatos:

a) Direito de criar novas entidades, preenchidas, naturalmente, as

exigências de direito positivo, variáveis de lugar para lugar e de época para época.

b) Direito de livre organização interna, que basicamente, é a

prerrogativa do sindicato de votar seu estatuto (kaskel-Dersh), mesmo quando existem modelos oficiais que devem ser adotados a título de mero esclarecimento ou orientação.

c) Direito de funcionar livremente, dentro da lei em vigor, mas sem

que essa lei comprima o exercício de representação, pelo sindicato, dos interesses de seus associados, da categoria em geral e da própria entidade.

d) Direito de formar associações de nível superior, princípio que

pode conduzir à formação das centrais de sindicatos ou

confederações gerais de trabalhadores. [...].

Mozart Victor Russomano113 observa que essa autonomia deve ser

ampla, porém, não plena, com a finalidade de preservar a segurança interna dos países e a ordem pública.

Ora, a autonomia é um elemento essencial para a liberdade sindical, no entanto, não pode configurar risco à sociedade, pois a função do Estado é garantir que as pessoas convivam coletivamente e se desenvolvam com segurança, motivo pelo qual elas cederam parte de sua autonomia individual por meio de um contrato

109 RUSSOMANO, Mozart Victor. Princípios gerais de direito sindical. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998. p. 66.

110 Ibid.

111 Ibid. p. 70.

112 Ibid. p. 72.

social, pacto este que não pode ser prejudicado por uma autonomia sindical ilimitada que ameace a existência da própria nação.

Por fim, compõe o conceito de liberdade sindical, de Mozart Victor Russomano, a pluralidade sindical, a qual consiste na possibilidade de se criar diversos sindicatos idênticos, representando a mesma categoria profissional ou econômica na mesma base territorial, tema este que será oportunamente desenvolvido com os devidos aprofundamentos no terceiro capítulo desta dissertação.

Para Arion Sayão Romita114, “a expressão – liberdade sindical – possui

várias acepções. Engloba na realidade, várias liberdades, ou um feixe de liberdades”.

Ao comentar a definição de Arion Sayão Romita, José Rodrigo

Rodriguez115 observa que esse feixe de liberdades se refere “ao indivíduo, ao grupo

profissional e ao Estado: liberdade do indivíduo diante do grupo e vice-versa; e do grupo em face do Estado”.

Para Amauri Mascaro Nascimento116, o conceito de liberdade sindical é

composto pelas seguintes liberdades: associação, organização, administração, exercício das funções e filiação.

Nesse sentido, afirma que “liberdade sindical significa direito de

associação. Para haver liberdade sindical, é garantida a existência de sindicatos”117.

Entende o doutrinador que se a lei permite a reunião de pessoas com mesmo interesse profissional e econômico, está caracterizada a liberdade sindical, uma vez que o direito de associação encontra-se preservado no ordenamento jurídico interno dos Estados.

Essa caraterística da liberdade sindical revela-se extremamente importante, porém, seu conceito não se limita apenas à associação, mas também engloba a liberdade de organização, que pode ser compreendida como a reunião de

114 ROMITA, 1976, p. 40 apud RODRIGUEZ, José Rodrigo. Dogmática da liberdade sindical: direito, política e globalização. 1. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p. 356.

115 RODRIGUEZ, José Rodrigo. Dogmática da liberdade sindical: direito, política e globalização. 1. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p. 357.

116 NASCIMENTO. Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 8. ed. São Paulo: Ltr, 2015. p. 35.

pessoas com os mesmos ideais que se unem para reivindicar direitos, agindo de

forma organizada118.

A relevância dessa organização para o desenvolvimento das relações trabalhistas é evidente, pois ultrapassa o plano meramente coletivo, afetando diretamente a esfera individual das pessoas, uma vez que possibilita que os sindicatos garantam direitos para todos os seus representados, os quais não seriam alcançados isoladamente.

Essa característica da liberdade sindical permite que os sindicatos se oponham a atos arbitrários de terceiros ou do Estado e, ao mesmo tempo, reivindiquem melhores condições de trabalho, logo, essencial para a sobrevivência do movimento sindical.

Como se não bastasse, essa organização possibilita a formação dos sindicatos, cujo objetivo primordial consiste em proteger os interesses dos seus representados, possibilitando ainda que essas entidades se relacionem entre si, inclusive internacionalmente.

Além disso, a liberdade de organização envolve o direito à livre organização interna dos sindicatos, permitindo que estes escolham seus componentes, órgãos que compõem sua estrutura e as atividades que irão realizar.

Outro elemento que compõe o conceito de Amauri Mascaro

Nascimento119 envolve a liberdade de administração, que nada mais é do que a

possibilidade de os sindicatos votarem seus próprios estatutos, sem interferências externas.

Ademais, seu conceito abarca também a liberdade no exercício das

funções, sendo esta considerada o “meio pelo qual o sindicato desenvolve a sua

ação destinada a atingir os fins para os quais foi constituído”120.

Essas funções envolvem a representação da categoria perante o Estado e terceiros e em processos administrativos, judiciais etc., sempre visando os interesses dos representados.

Outra função dos sindicatos é a negocial, pois essas organizações são responsáveis por promover a negociação de direitos, função esta considerada um instrumento “de paz social e de grande utilidade como técnica jurídica que permite

118 NASCIMENTO. Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 8. ed. São Paulo: Ltr, 2015. p. 37.

119 Ibid. p. 40.

às próprias partes de uma disputa trabalhista a escolha de normas a serem

observadas para composição dos seus conflitos em proveito geral”121.

Citam-se, ainda, como funções dessas organizações: a assistencial, que consiste na prestação de serviços médicos, educacionais etc.; a tributária, considerada como poder do sindicato de impor contribuições aos associados e não associados; a econômica que consiste no exercício da atividade econômica pelo

sindicato122.

Ainda, há posições doutrinárias que defendem a ideia de que os sindicatos teriam a função política, outras são contrárias a seu envolvimento nesses assuntos, existindo três correntes a respeito do tema, conforme explica Ojeda Avilés123:

1º) A apolítica por oposição ao Estado, própria do sindicalismo revolucionário, que não acredita no Estado (pregando a sua destruição com a estrutura capitalista) nem a política como meio de elevação das classes trabalhadoras. A Carta de Amiens (1906), da França, propõe a abstenção da atividade política pelo sindicato, devendo os trabalhadores conseguir pelos seus próprios meios a melhoria da sua condição social.

2º) A apolítica por aceitação do modelo econômico-político, reconhecidos o capitalismo e o lucro, desde que sejam respeitados os direitos do trabalhador dentre os quais o de greve e o de negociação, sendo essa a posição dos sindicatos norte-americanos, com variações.

3º) A participação política, que, por sua vez, tem mais de uma forma. O sindicato cria partidos políticos, como na Inglaterra, como o governo trabalhista do Partido Trabalhista, cujo suporte foi o sindicalismo. O sindicato, às vezes submetem-se a um partido, ao qual pode ficar totalmente subordinado. O sindicato, em outras vezes, não participa ostensivamente das relações políticas, mas financia candidatos”.

Por fim, compõe o conceito proposto por Amauri Mascaro Nascimento124 a

liberdade de filiação e desfiliação, entendendo o jurista que “ninguém pode ser

obrigado a ingressar ou a não ingressar num sindicato. Eis, de modo simples, a súmula do princípio da liberdade de filiação sindical”.

121 NASCIMENTO. Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 8. ed. São Paulo: Ltr, 2015. p. 41.

122 Ibid.

123 AVILÉS, 1976 apud NASCIMENTO. Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 8. ed. São Paulo: Ltr, 2015. p. 42.

Diante do exposto, analisando as conceituações apresentadas pelos renomados doutrinadores, chega-se à conclusão de que a liberdade sindical pode ser compreendida como um feixe de liberdades, no qual encontram-se inseridas as liberdades de associação, organização, administração, exercício das funções e filiação e, juntamente com o tripé da sindicalização livre, autonomia sindical e pluralidade sindical, garante o direito dos trabalhadores e empregadores de não sofrerem intervenção do Estado ou de terceiros em suas organizações, permitindo que os sindicatos alcancem os objetivos para os quais foram criados.