CAPÍTULO 3 - A LIBERDADE SINDICAL NO BRASIL
3.2 Liberdade Sindical – O Problema da Unicidade
De acordo com o narrado, encontra-se em trâmite, no Congresso Nacional, o Projeto de Decreto nº 16, de 1984, o qual pretende aprovar o texto da Convenção nº 87, porém ainda há um longo caminho a ser percorrido para que o Brasil adote efetivamente as disposições deste tratado em seu território, muito em razão da mentalidade das partes envolvidas nas discussões, as quais insistem em manter uma organização sindical ultrapassada que somente causa prejuízos para as relações trabalhistas.
Não obstante os avanços trazidos pela Constituição de 1988, com relação à autonomia dos sindicatos, foram mantidos resquícios da antiga estrutura sindical que impedem a adoção da liberdade sindical em nosso país, segundo explica
Maurício Godinho Delgado145:
A Constituição de 1988 iniciou, sem dúvidas, a transição para democratização do sistema sindical brasileiro, mas sem concluir o processo. Na verdade, em um primeiro momento, construiu um sincretismo de regras, com o afastamento de alguns dos traços mais marcantes do autoritarismo do velho modelo, preservando, porém, outras características significativas de sua antiga matriz. Nesse quadro, Constituição afastou a possibilidade jurídica de intervenção e interferências político-administrativas do Estado, via Ministério do Trabalho, no sindicalismo (art. 8º, I CF/88). Reforçou o papel dos sindicatos na defesa dos interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais e administrativas (art. 8º, III, CF/88). Alargou os poderes de negociação coletiva trabalhista, sempre sob o manto da participação sindical obreira (art. 8º, VI; art. 7º, VI, XIII, XIV e XXVI, CF/88). Assegurou amplamente o direito de greve (art. 9º, CF/88). Entretanto, manteve a Constituição, em sua redação original de 1988, o sistema de unicidade sindical (art. 8º, II, CF/88), o financiamento compulsório de suas entidades sindicais integrantes (art. 8º, IV, CF/88), o amplo poder normativo da Justiça do Trabalho – concorrencial à negociação coletiva (art. 114, § 2º, CF/88) –, além de mecanismo de cooptação de sindicalistas, conhecido como representação classista. É bem verdade que o poder reformador constitucional, tempos depois de 1988, suprimiu ou restringiu dois desses mecanismos questionáveis: pela EC n. 24/1999, eliminou a representação classista na Justiça do Trabalho; pela EC n. 45/2004, contingenciou, fortemente, o poder normativo judicial trabalhista, mantendo-o apenas para situações excepcionais, como em casos de greve ou de ocorrência de comum acordo (fato
145 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 17. ed. São Paulo: LTr, 2018. p. 1588.
raro) entre as partes coletivas para a propositura do dissídio coletivo de natureza econômica (nova redação do § 2º do art. 144 da CF). Fica claro, portanto, que passados 25 anos da vigência da Constituição da República (1988-2013/2015), somente quando ao sistema sindical é que certos traços corporativistas se mantiveram preservados.
Nesse sentido, a Constituição de 1988 rompeu com o autoritarismo do Estado, mas não concedeu a liberdade absoluta aos sindicatos, somente uma autonomia limitada, impedindo que o governo intervenha diretamente em sua organização e administração.
Devido aos resquícios do sistema corporativista, mantidos pela
Constituição, José Carlos Arouca146 afirma que a unicidade sindical (art. 8º, II,
CF/88)147, bem como a contribuição sindical são os principais obstáculos para que o
Brasil adote a liberdade sindical absoluta.
Amauri Mascaro Nascimento148, ao comentar os motivos pelos quais o
Brasil não ratificou a Convenção nº 87 da OIT, elucida a unicidade como empecilho e justifica que esta impõe um modelo sindical obrigatório, contrariando esse tratado que prestigia a espontaneidade.
Observa ainda que a contribuição sindical obrigatória recolhida dos filiados ou não filiados é incompatível com a liberdade sindical, pois esta assegura o ingresso ou a desfiliação dos representados a qualquer momento, por isso é indevida a cobrança de tais valores daqueles que não estão filiados.
Com relação à contribuição sindical obrigatória, esta não é atualmente mais considerada um problema, pois a Lei nº 13. 467/2017 a tornou facultativa, nos
termos do artigo 545 da CLT149.
Contudo, a questão da unicidade sindical, compreendida como a proibição legal para a existência de mais de um sindicato na mesma base territorial (município), permanece sendo um dos entraves para que o Brasil adote as
146 AROUCA, José Carlos. Curso básico de direito sindical: da CLT à reforma trabalhista de 2017 (Lei n. 13.467). 6. ed. São Paulo: LTr, 2018. p. 69.
147 É vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município (BRASIL, 1988, Art. 8º, II).
148 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 8. ed. São Paulo: LTr, 2015. p. 134.
149 Os empregadores ficam obrigados a descontar da folha de pagamento dos seus empregados, desde que por eles devidamente autorizados, as contribuições devidas ao sindicato, quando por este notificados. (BRASIL, 1948, Art. 545).
disposições da Convenção nº 87, visto que interfere na autonomia da criação dos
sindicatos150.
Alice Monteiro de Barros151 afirma que os críticos da unicidade sindical
alegam que esta previsão legal viola os princípios democráticos da liberdade sindical, posto que impede a livre escolha dos trabalhadores de se filiarem ao sindicato que bem entenderem.
Octavio Bueno Magano152 é categórico ao afirmar que a unicidade é
incompatível com os ditames da Convenção nº 87 devido à redação do Art. 2º, o qual prevê o direito das organizações sindicais se constituírem como bem entenderem, ou seja, de acordo com este tratado, pode-se constituir quantos sindicatos desejarem os representados, o que não ocorre na unicidade que condiciona a criação dos sindicatos a uma limitação imposta pela lei, não sendo outro o entendimento que se extrai de suas lições a seguir reproduzidas:
O art. 2º da Convenção n. 87, da OIT como bem se há de recordar, estatui que os trabalhadores têm o direito de constituir organizações que julgarem convenientes, o que implica na possibilidade de constituírem tantos sindicatos quantos desejarem, no âmbito de uma mesma profissão. A regra da pluralidade sindical deflui, pois naturalmente, da leitura do texto. Isso não significa, contudo que trabalhadores e os empregadores de um determinado país não possam preferir a regra da unidade. O que se há de evitar é que seja imposta a intervenção estatal. A situação em que se negue ao indivíduo toda a possibilidade de escolha, entre distintas organizações, porque a legislação só permite a existência de uma única, no mesmo ramo profissional em que o interessado exerce atividade, é incompatível como os princípios incorporados na Convenção n. 87, da OIT.
Ao comentar sobre a unicidade sindical, Octavio Bueno Magano153 tece
severas críticas à estrutura sindical adotada pela Constituição de 1988 e lamenta a sua manutenção em nosso ordenamento jurídico, observando que a unicidade é interessante somente para as cúpulas sindicais e colide com o sistema da pluralidade universalmente adotado pelos demais países.
150 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêndio de direito sindical. 8. ed. São Paulo: LTr, 2015. p. 111.
151 BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho. 10. ed. São Paulo: LTr, 2016. p. 801.
152 MAGANO, Octavio Bueno. Direito coletivo do trabalho. Vol. III: Manual de direito do trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 1993. p. 44.
Segundo Amauri Mascaro Nascimento154, os defensores da unicidade sindical argumentam que esta protege o trabalhador, pois evita a fragmentação do movimento sindical que não se manteria unido em um ambiente de pluralidade sindical.
Além da fragmentação, alegam que caso adotemos a pluralidade sindical, haveria a criação de sindicatos pequenos e frágeis, bem como a cooptação dos sindicatos com as empresas.
De acordo com esse doutrinador, estes afirmam ainda que não seria possível adotar em nosso país o sistema da pluralidade em razão da ausência de critérios para definir o sindicato mais representativo, inexistindo, ainda na Constituição, órgão responsável pelo registro dos sindicatos e solução de disputas de representação, bem como a pluralidade aumentaria os conflitos entre os sindicatos.
Data vênia, tais argumentos são extremamente frágeis, uma vez que mesmo sujeito à unicidade, a fragmentação do movimento sindical é patente com a proliferação dos sindicatos que “em 2002, e daí por diante, chegaram a aproximar-se
de 19.500 entidades sindicais”155.
Referidas entidades, em sua maioria, não possuem qualquer representatividade, ou seja, não atendem aos interesses dos representados, são apenas entes artificiais que nada produzem em favor daqueles que representam, se valendo da proibição legal de criação de sindicatos congêneres para praticarem atos que beneficiem apenas a sua cúpula, pois sabem que não perderão a exclusividade da representação.
Essa grande quantidade de sindicatos decorre de “desdobramentos de
categorias, em alguns casos artificiais, permitidos pela legislação”156 e devido às
terceirizações das atividades pelas empresas, posto que “quando uma empresa
repassa para outras os serviços que antes realizava, a categoria pode subdividir-se”157.
154 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 8. ed. São Paulo: LTr, 2015. p. 197.
155 Ibid. p. 198.
156 Ibid.
Amauri Mascaro Nascimento158 chama atenção para o fato de que quando ocorrem essas subdivisões dos sindicatos, “os efeitos não são diferentes
daqueles que existem nos sistemas de pluralidade sindical”, ou seja, não há razão
para a manutenção da unicidade sindical porque esta, por si só, não impede a formação de diversos sindicatos.
Em relação à alegação de fragilidade, esta não prospera, tendo em vista que a representatividade de um sindicato está relacionada a sua força de pressão e
não a seu tamanho159.
Prosseguindo, o argumento de cooptação dos sindicatos com os
empregadores não prevalece, pois, de acordo com Amauri Mascaro Nascimento160,
nos países em que a pluralidade sindical foi adotada, não houve a subjugação dos sindicatos, os quais permanecem combativos lutando por melhores condições de trabalho.
A alegação de dificuldade para fixar critérios para escolha do sindicato mais representativo também não encontra guarida, uma vez que “isso não tem sido dificuldade nos países de liberdade de organização sindical. O problema foi
superado na Espanha, França e Itália”161.
Nesses países, as leis criaram diversos critérios para a escolha dos sindicatos mais representativos, tais como “número de sócios, tempo de existência da entidade, número de contratos coletivos, realização de eleições internas,
estatutos democráticos etc”162.
Ato contínuo, a indefinição de órgão responsável por decidir as disputas sindicais não provoca o enfraquecimento do movimento sindical, dado que “disputas de representação sindical são resolvidas, na via judicial, em qualquer sistema, o
voluntário ou o impositivo”163.
Por fim, a alegação de que a adoção da pluralidade prevista na Convenção nº 87 causará conflitos entre os sindicatos não prospera, tendo em vista
158 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 8. ed. São Paulo: LTr, 2015. p. 198. 159 Ibid. 160 Ibid. p. 199. 161 Ibid. 162 Ibid. 163 Ibid.
que mesmo com a unicidade sindical, atualmente existem inúmeras disputas entre
essas organizações164.
Oliveira Viana165, defensor da unicidade sindical, aponta ainda os
seguintes problemas em se adotar as disposições da Convenção nº 87 no Brasil:
a) ou adotamos a pluralidade sindical, mantendo o princípio do sindicato de direito privado, dotado de faculdades e poderes
meramente estatutários e, consequentemente, agindo
exclusivamente como representante legal do seu corpo de associados, isto é, de uma fração da categoria e não da categoria toda; e, neste caso, os interesses da categoria, considerada como uma totalidade, ficariam sem representação específica, o que importaria dificultar ou mesmo impossibilitar a obra tutela do Estado, desde que ao Estado só seria lícito agir e proteger os interesses gerais da categoria e não os interesses desta ou daquela associação profissional, isso é, desta ou daquela fração privatizada de categoria; b) ou então adotamos a pluralidade sindical, mas atribuindo aos sindicatos as prerrogativas constitucionais de direito público, investida, portanto, de todos os poderes conferidos pelos arts. 58, 137 e 138 da Constituição (direito de representação legal, poder regulamentar, poder tributário etc.); mas neste caso, teríamos criado uma impossibilidade prática, pois não seria possível a coexistência de sindicatos múltiplos, cada um deles estipulando, autonomamente convenções coletivas obrigatórias para a categoria toda, cada um deles imponto automaticamente contribuições à categoria toda [...].
Octavio Bueno Magano166 rechaça tais argumentos, afirmando que este
foi criado dentro de um contexto histórico verdadeiro, no qual “as categorias e
profissões devem estar identificadas com a visão unitária do Estado, a respeito da economia”, porém, esta situação não é mais admitida na atual democracia em que vivemos.
No cenário atual, não há como se defender a unicidade pela ótica da sociedade moderna, pois a proibição legal imposta pela Constituição nada mais é do que um resquício de um sistema autoritário e intervencionista, o qual não interage com os preceitos basilares da democracia brasileira.
164 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 8. ed. São Paulo: LTr, 2015. p. 199.
165 VIANA, s. d, p. 12-13 apud MAGANO, Octavio Bueno. Direito coletivo do trabalho. Vol. III: Manual
de direito do trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 1993. p. 45.
166 MAGANO, Octavio Bueno. Direito coletivo do trabalho. Vol. III: Manual de direito do trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 1993. p. 46.
Chama atenção a escolha do legislador pela unicidade sindical, pois a
Carta de 1988 assegura a liberdade individual por meio do Art. 5º, caput 167 e ao
mesmo tempo seu Art. 8, II, proíbe a criação de sindicatos congêneres na mesma base territorial, o que é contraditório, uma vez que, ao limitar a união espontânea dos representados, acaba por violar a própria liberdade individual de escolha em qual sindicato estes desejam se filiar, sendo, portanto, óbvio, que a presença da unicidade não se enquadra nos princípios democráticos de nossa legislação.
Logo, a estrutura sindical adotada na Constituição de 1988 não se sustenta, sendo a unicidade considerada um grave problema para o fortalecimento do movimento sindical, visto que ao contrário do defendido pelas centrais sindicais que apoiaram sua manutenção, este sistema não impediu a sua fragmentação, mas sim a criação de diversos sindicatos sem qualquer representatividade.
Ora, permanecer nesta estrutura autoritária somente causará mais prejuízos aos representados, os quais encontram-se desamparados pela falta de representatividade dos sindicatos, tratando-se a questão de um grave problema social, ainda mais neste momento em que a Lei nº 13.467/2017 alterou a legislação para admitir o negociado sobre o legislado.
Em vista disso, a liberdade sindical no Brasil não é absoluta, mas apenas parcial, pois, em que pese os avanços trazidos pela Constituição de 1988, com relação à autonomia dos sindicatos, ainda persiste em nossa estrutura sindical resquícios do intervencionismo estatal, uma vez que a unicidade impõe a união obrigatória dos sindicatos, sendo esta disposição incompatível com a Convenção nº 87 da OIT, a qual prevê em seu Art. 2º a união espontânea por meio de sindicatos congêneres.