3.1 A ORALIDADE
3.1.1 O Conceito de Oralidade
Segundo Havelock, o desenvolvimento crescente de pesquisas, a partir dos anos de 1960, no campo de estudos que investiga as relações entre o oral e o escrito, coloca os conceitos de oralidade e de oralismo em uma situação diferente da que ocupavam anteriormente, ganhando maior importância acadêmica. Esses conceitos contribuem para a caracterização de sociedades que, dispensando o uso da escrita, têm se valido da linguagem oral em seus processos de comunicação. As expressões têm sido utilizadas também para identificar certo tipo de consciência, supostamente criada pela oralidade (Havelock, 1995). Essas preocupações têm sido centrais aos estudos realizados nesse campo.
A “oralidade primária” é a classificação que é dada à oralidade de uma cultura totalmente desprovida de qualquer conhecimento da escrita ou da impressão. É “primária” por oposição à “oralidade secundária”, da atual cultura de alta tecnologia, na qual uma nova oralidade é alimentada pelo telefone, pelo rádio, pela televisão ou por outros dispositivos eletrônicos, cuja existência e funcionamento dependem da escrita e da impressão, de acordo com Walter Ong (1998).
Antes da invenção da escrita, a expressão do pensamento e a linguagem humana tiveram forma apenas em significados orais, corporais e rituais. Sem a escrita, a educação das pessoas fazia-se pela prática e os conhecimentos eram transmitidos às gerações futuras através do corpo, tanto pela fala, quanto pelo jogo, símbolos e performances. A distância entre o emissor e o receptor era a do alcance do som da voz.
Estranhando que, a despeito de tantas disciplinas instituídas, ainda não se tenha uma ciência da voz, Zumthor (1977, p. 11) assim a descreve:
[...] a voz é querer dizer e vontade de existência, lugar de uma ausência que, nela, se transforma em presença; ela modula os influxos cósmicos que nos atravessam e capta seus sinais: ressonância infinita que faz cantar toda matéria [...].
E justifica esta lacuna, em decorrência de um antigo preconceito, segundo o qual todo produto da linguagem se identifica com uma escrita, tornando difícil o reconhecimento e a validade daquilo que não o é. Evidencia, assim, a antiga tendência de se sacralizar a letra.
A prática de sacralização da letra é evidente na escola onde trabalhamos, sujeitando os educandos a extenuantes exercícios escritos de análise gramatical, completamente descontextualizados do cotidiano e ignorando qualquer tipo de linguagem oral, seja a
praticada pelos alunos entre si, seja a veiculada pela mídia, que é parte integrante do dia a dia dos jovens. Mesmo com cursos de capacitação, as novas experiências e aprendizagens não são levadas para a sala e pouco contribuem para mudar a metodologia de ensino. Da mesma forma, a maioria dos projetos educacionais não é acompanhada em seu desenvolvimento. A formação do professor está ligada também às condições de exercício da profissão, na maioria das vezes, em situações precárias. Além do mais, pode-se afirmar sem exagero, que a maior parte dos programas de formação de professores é concebida para criar intelectuais que operam a serviço dos interesses do Estado e trabalham para manter e legitimar o status quo. Assim, observamos que trabalhar com a voz não é prioridade em nossa escola.
Segundo Zumthor, a voz ultrapassa a palavra, sendo o que designa o sujeito, a partir da linguagem. A linguagem nela transita, sem deixar traço. “A voz se diz enquanto diz; em si ela é pura exigência. Seu uso oferece um prazer, alegria de emanação que aspira reutilizar no próprio fluxo linguístico [...]” (1977, p. 13). Pode-se afirmar ainda que a voz é consciência e que, produzindo desejo, ao mesmo tempo em que é produzida por ele, sempre fabrica o discurso. Nota-se ainda que o idioma puramente oral de nossa infância moldará os padrões de nosso comportamento linguístico para sempre. Dessa forma,
Os valores ligados à existência biológica da voz se realizam simultaneamente na consciência linguística e na consciência mítica-religiosa, a ponto de ser difícil distinguir nisso duas ordens. Mas eles permanecem aí não apropriados, moventes, ricos em conotações ambíguas, focalizados num bem pequeno número de esquemas, que fogem à interpretação. (ZUMTHOR, 1977, p. 15)
Indefinível, articulação entre Um e Outro, entre sujeito e objeto, ela permanece inobjetivável; interpelando o sujeito, ela o constitui e nele imprime algo de alteridade. Aquele que a produz se liberta de um limite, de sua significância enclausurada. O ouvinte, que escuta essa voz que nasce de outra parte, deixa ressoar em si todas as suas modificações e argumentações. Esta atenção se torna, no tempo da escuta, outra fala, fora do corpo. Embora se ressinta do “não-lugar” anterior ao seu nascimento, pleno de imaginário, a voz vai se impregnar na linguagem e dar lugar ao simbolismo.
Não há um único tipo de oralidade, mas seu substrato comum permanece intocado, como fenômeno que comporta, para o locutor e o ouvinte, um mesmo investimento de energia psíquica, de valores, de sociabilidade e de linguagem. Potencialmente individual, mas também
socializadora, a voz tem o poder de mostrar de que modo o homem se situa no mundo e em relação ao outro.
Toda comunicação oral subsidia um duplo desejo: o de dizer e o que devolve o teor das palavras ditas. Mais do que dar uma informação ao ouvinte, o locutor necessita perceber, no outro, o efeito de sua fala, provocar o reconhecimento de sua intenção, submetê-lo à força elocutória de sua voz. A presença de ambos num mesmo espaço proporciona o diálogo real (ou virtual), permitindo que gestos e olhares interfiram na comunicação, assegurando uma flexibilidade particular ao discurso. Também daí decorre uma consequência moral: a impressão, no ouvinte, de uma fidelidade menos contestável do que na comunicação escrita. A esse respeito, as experiências, colocadas em prática nas oficinas de teatro do Colégio Serravalle, evidenciaram a facilidade com que os alunos se deixavam convencer pelas histórias de vida uns dos outros relatadas nas rodas de conversa.
Podemos dizer que a voz é interioridade manifesta, que não necessita atingir fisicamente seu objeto de desejo; uma vez que produzida por um interior, se liga a outro interior, sem nenhuma mediação. Ainda conforme Zumthor (1977, p. 33),
Toda comunicação oral, como obra da voz, palavra assim proferida por quem detém o direito ou se lhe atribui, estabelece um ato de autoridade: ato único, não reiterável identicamente. Ela confere um Nome na medida em que o que é dito nomeia o ato feito, dizendo-o. A emergência de um sentido é acompanhada por um jogo de forças que age sobre as disposições do interlocutor.
Esta afirmação é fundamental à análise que faremos, neste estudo, da potencialização da voz dos alunos na escola. Por que na escola esse poder é restrito a um único segmento da comunidade, no caso, o professor? De que forma essa situação poderia mudar?
É importante que o educador não se restrinja a um fazer técnico, transmitindo receitas prontas através de um monólogo em sala de aula, pois acredito que o ato educativo deve revelar as identidades individuais de todos os envolvidos na aprendizagem, frente a um processo político de transformação social.
É nesta perspectiva que a educação se vincula ao conflito e ao confronto de ideias, pensamentos e experiências, sociais e culturais, entre os sujeitos, na prática educativa. Educar é provocar reflexões e ações dentro do contexto social e político onde tal formação se
desenvolve. É neste sentido que se revela o pensar educativo enquanto espaço da reflexão, da dúvida e do questionamento. Propor espaços para a reflexão e para o pensamento não alienante é propiciar meios e contextos de diálogo na escola.