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2. A ESTRUTURA DAS INFRAÇÕES ADMINISTRATIVAS

2.2 A TIPICIDADE

2.2.1 O fundamento constitucional do princípio da tipicidade

2.2.2.2 Conceitos indeterminados: discricionariedade ou

A propósito, debate-se doutrinariamente se o administrador público, ao manejar o conceito indeterminado previsto na norma, estaria exercendo um poder discricionário ou um juízo interpretativo. De acordo com o conceito clássico de Celso Antônio Bandeira de MELLO:

“Discricionariedade, portanto, é a margem de liberdade que remanesça ao administrador para eleger, segundo critérios consistentes de razoabilidade, um, dentre pelo menos dois comportamentos cabíveis, perante cada caso concreto, a fim de cumprir o dever de adotar a solução mais adequada à satisfação da finalidade legal, quando, por força da fluidez das expressões da lei ou da liberdade conferida no mandamento, dela não se possa extrair objetivamente, uma solução unívoca para a situação vertente”.314

A controvérsia gira em torno da inclusão “da fluidez das expressões da lei”

como um dos requisitos habilitadores do exercício de uma atividade discricionária.

Segundo o Professor Celso Antônio, “não é aceitável a tese de que o tema dos conceitos legais fluidos é estranho ao tema da discricionariedade”.315 Para ele, a discricionariedade não serviria “senão para referir as situações em que a Administração desfruta de uma certa liberdade”.316 “Se em determinada situação real o administrador reputar, em entendimento razoável”, “que se lhe aplica o conceito normativo vago e agir nesta conformidade, não se poderá dizer que violou a lei, que transgrediu o direito”.317 “Em assim sendo, evidentemente terá procedido dentro de uma liberdade intelectiva que, in concreto, o direito lhe facultava”318, ou seja, terá agido discricionariamente ao aplicar o conceito indeterminado no caso concreto.

Maria Sylvia Zanella DI PIETRO afirma que essa “margem de apreciação”

314 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Discricionariedade e Controle Jurisdicional. 2a. ed.

São Paulo: Malheiros, 2003. p. 48.

315 Ibid., p. 23.

316 Ibid., p. 25.

317 Ibid., p. 23.

318 Ibid., p. 23.

que a Administração dispõe para enquadrar a falta dentre os ilícitos previstos na lei mediante conceitos imprecisos consistiria em “uma discricionariedade limitada pelos critérios previstos em lei”.319

Eros Roberto GRAU diverge. Para ele, “o que a doutrina tradicional concebe como sendo a discricionariedade é a interpretação...”.320 Isso porque:

“A discricionariedade é essencialmente uma liberdade de eleição entre alternativas igualmente justas ou entre indiferentes jurídicos – porque a decisão se fundamenta em critérios extrajurídicos (de oportunidade, econômicos etc.), não incluídos na lei e remetidos ao juízo subjetivo da Administração -, ao passo que a aplicação de conceitos indeterminados é um caso de aplicação da lei”.321

E prossegue:

“Logo, no Estado de Direito, qualquer agente público somente deterá competência para a prática de atos discricionários – isto é, exercitando as margens de liberdade de atuação fora dos quadrantes da legalidade – quando uma norma jurídica válida a ele atribuir a formulação de juízos de oportunidade. Fora dessa hipótese, qualquer agente público estará jungido, subordinado à legalidade.

Inclusive quando lhe incumba o dever-poder de interpretar/aplicar texto ou textos normativos que veiculem ‘conceitos jurídicos indeterminados’”.322

Eros Roberto GRAU conclui que “a consequência mais relevante que se extrai dessa distinção respeita precisamente ao papel a ser desempenhado pelo Poder Judiciário diante de ambas as hipóteses”.323 Almiro do COUTO E SILVA sufraga essa orientação, afirmando que “relativamente à diferença, quanto à sindicabilidade judicial, dos atos administrativos que aplicam conceitos jurídicos indeterminados e dos que envolvem exercício de poder discricionário é possível resumir tudo do seguinte modo:

(a) – O exame judicial dos atos administrativos de aplicação de conceitos jurídicos indeterminados não está sujeito a um limite a priori estabelecido na lei. O próprio legislador, no instante de decidir, é que verificará se há um limite, ou não, ao controle

319 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 23a. ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 613.

320 GRAU, Eros Roberto. O direito posto e o direito pressuposto. 5a. ed. São Paulo: Malheiros, 2003.

p. 212.

321 Ibid., p. 203/204.

322 Ibid., p. 206.

323 Ibid., p. 204.

judicial. Haverá limite se, em face da complexidade do caso, da diversidade de opiniões e pareceres, não podendo ver com clareza qual a melhor solução, não lhe couber outra alternativa senão a de pronunciar um non liquet, deixando intocada a decisão administrativa.

(b) – O exame judicial de atos administrativos que envolvem exercício de poder discricionário está, a priori, limitado pela lei, a qual deixou desde logo as linhas dentro das quais poderá a autoridade administrativa livremente tomar suas decisões. Dentro daquele espaço, qualquer uma delas será juridicamente incensurável e inexaminável pela autoridade judiciária”.324

Assim, no âmbito do Direito Administrativo Sancionador, a correta distinção entre poder discricionário e aplicação de conceitos jurídicos indeterminados é de absoluta relevância, pois evita a confusão, infelizmente ainda presente na jurisprudência pátria, em relação aos limites do controle judicial do ato administrativo sancionador. É o que se denota do seguinte julgado:

“Em relação ao controle jurisdicional do processo administrativo, a atuação do Poder Judiciário circunscreve-se ao campo da regularidade do procedimento, bem como à legalidade do ato demissionário, sendo-lhe defesa qualquer incursão no mérito administrativo a fim de aferir o grau de conveniência e oportunidade”.325

Ora, não se demite um servidor por razões de conveniência e oportunidade, mas sim porque ele praticou alguma falta tipificada em lei à qual corresponda essa sanção. Como se viu, ao verificar a efetiva ocorrência de determinada infração administrativa, ainda que tipificada por meio de um conceito vago, a administração pública exercita um juízo de legalidade, e, portanto, amplamente sindicável pelo Poder Judiciário, como lucidamente decidiu o Superior Tribunal de Justiça: “a Administração, ao ter imposto sanção disciplinar, não praticou ato imbuído de aspecto discricionário (conveniência e oportunidade). Por isso é possível o amplo controle judicial desse ato, sem que haja limitação às questões formais”.326

E não se argumente que tal conclusão contraria o princípio da separação dos poderes. Longe disso, ela afirma-o, na medida em que restabelece o primado da lei sobre a atividade administrativa, como é próprio em um Estado Democrático de

324 COUTO E SILVA, Almiro do. Poder discricionário no Direito Administrativo Brasileiro.

Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, Editora Renovar, n. 179/180, jan./jun. 1990. p. 60.

325 STJ, 3a Seção, MS no 15.064/DF, rel. Min. Gilson Dipp, DJ. 17/11/2011.

326 STJ, 1a Seção, MS no 15.205/DF, rel. Min. Benedito Gonçalves, DJ. 20/10/2010.

Direito. O fato dos atos administrativos gozarem do atributo da executoriedade apenas inverte o momento em que o controle judicial é exercido, mas não o suprime. Se, como ensina Celso Antônio Bandeira de MELLO, por força do privilégio da execução prévia, “o Poder Público pode compelir materialmente o administrado, sem precisão de buscar previamente as vias judiciais, ao cumprimento da obrigação que impôs e exigiu”327, por outro lado, complementa Prosper WEIL, “o particular pode certamente contestar a sua validade perante juiz”.328

Assim, ao verificar a prática de infração administrativa plasmada em um conceito indeterminado, a Administração Pública exerce juízo de legalidade, que, portanto, é amplamente sindicável pelo Poder Judiciário.