4 AS TEORIAS DELIBERATIVISTAS DE FISHKIN, BOHMAN, COHEN
4.1 CONCEITUALIZAÇÃO E NATUREZA DA DEMOCRACIA
A linguagem, os conceitos e os preceitos deliberativos têm permeado muitos debates recentes; há um reconhecimento de atratividade desse procedimento democrático, inclusive entre os críticos. De modo simples, Maeve Cooke circunscreve a democracia deliberativa como “uma concepção de governo democrático que assegura um lugar central para a discussão racional na vida política.” (COOKE, 2009, p. 143). De praxe, discussões e debates metodológicos são, por excelência, características intrínsecas à deliberação pública. Similar
113 Desde a modernidade, como se sabe, predomina o conceito sociológico de racionalização, o qual substituiu, no decurso do processo que Habermas denomina pós-convencional, paradigmas tradicionais, religiosos ou axiológicos pela pluralidade de normas conforme a diversidade de segmentos: ciência, arte, política, direito etc. fundados numa autonomia que lhes permite estabelecer prescrições particulares. Por outro lado, a partir da ideia de que essa heterogeneidade não inviabiliza a intersecção entre essas esferas, a categoria do normativo postula haver certa convergência entre elas, sobretudo quanto ao modo de funcionamento das normas internas. E é nesse ponto que a teoria do discurso habermasiana propugna que o procedimento normativo é o elo da inter-relação, a partir do qual analisa, sob crítica, as operacionalidades normativas, enfocando, de modo particular, que regulações são suscetíveis de reconhecimento e aceitação intersubjetivas, mesmo que permaneçam dissensões, desde que se embasem no seguinte princípio: “são válidas as normas de ação à quais todos os possíveis atingidos poderiam dar o seu assentimento, na qualidade de participantes de discursos racionais.” (HABERMAS, 1997a, p. 142).
ao argumento anterior da filósofa da University College Dublin, Chambers estende a conceitualização da seguinte forma:
A deliberação é o debate e a discussão que têm como propósito produzir opiniões racionais e bem informadas nas quais os participantes são convidados a revisar preferências à luz da discussão de novas informações e das demandas feitas pelos demais participantes. Embora o consenso não precise ser o objetivo final da deliberação, e os participantes persigam presumivelmente seus interesses, o que caracteriza idealmente a deliberação é um interesse abrangente ou coletivo na legitimidade dos resultados (entendida como justificação de todos os concernidos). (CHAMBERS, 2009, p. 241-242).
O modelo deliberativo compreende tanto a racionalidade quanto a legitimidade das decisões tomadas por uma coletividade comunitária; precisa de instituições democráticas aliadas de tal modo, observa Benhabib (2007, p. 50), que “o que é considerado do interesse comum de todos resulte dos processos de deliberação coletiva conduzidos de modo racional e equitativo entre indivíduos livres e iguais.” Instituições democráticas, nessa concepção, primam pela imparcialidade e pela equanimidade, objetivando o interesse de todos os cidadãos, ao mesmo tempo em que devem favorecer a inserção destes nos processos deliberativos.
No próximo capítulo, quando se tratar dos processos de elaboração e operacionalização do Orçamento Participativo de Porto Alegre, constatar-se-á que a desenvoltura das discussões e dos debates envolvendo proposições, justificações, objeções e acordos caracteristicamente racionais e democráticos, apoiados por instituições afinadas a essa perspectiva, tornaram factível e exitoso o ideal pressuposto àquele projeto. De fato, segundo Cooke (2009), na deliberação os argumentos precisam estar isentos de constrangimentos, e o uso da razão prática nesses processos é fundamental para as configurações e as transformações de preferências. Será possível perceber, não obstante contingências eventuais, o exercício de condições como essas no processo de articulação e execução daquela prática orçamentária.
Se for evocada, mais uma vez, a teoria democrática agregativista (elitista) ou, mais recentemente, da escolha racional, recupera-se a argumentação comum entre elas da fixação da necessária estabilização na estrutura do poder político central, capaz de compatibilizar interesses privados e coletivos (bem comum) por meio do “acoplamento” de preferências apoiado no voto. Em sentido contrário, a guinada da democracia deliberativa é decisiva ao orientar procedimentos decisórios a serem articulados nos espaços de debates, negociações, pactos e consensos, isto é, fóruns nos quais cidadãos razoáveis podem deliberar. Instituições
democráticas devem possibilitar que a razão que fundamente decisões procedimentais seja pública, livre e inclusiva. Parafraseando Habermas, sob a condição pública, cidadãos identificam-se com os líderes dos partidos democráticos, e não com administradores burocratas. Por esse ângulo, estão corretos Werle e Melo (2007, p. 8):
Enquanto explicação normativa de legitimidade, a democracia deliberativa recorre aos ideais de legislação racional, política participativa e de autodeterminação dos cidadãos. [...] indivíduos e grupos engajam-se em uma argumentação racional com o propósito de resolver conflitos políticos.
Essa assertiva se conecta a ideia de Gutmann e Thompson no texto O que significa
democracia deliberativa (2007), quando diz ser inerente a essa vertente democrática a necessidade de justificar decisões, cidadãos e representantes. Na expressão deles: “Espera-se que ambos justifiquem as leis que dariam o ao outro. Na democracia, os líderes deveriam justificar suas decisões, e responder às razões que os cidadãos dessem em retorno”. (GUTMANN; THOMPSON, 2007, p. 19). Portanto, ainda que também advirtam que nem todas as questões e decisões sejam ininterruptamente deliberativas – haja vista que se pode até admitir mecanismos políticos como barganha ou operações restritivas – fato é que a primeira e mais importante característica da deliberação é a exigência de justificação.
Nessa lógica, pode-se enfatizar imediatamente três caracteres pertinentes: a) os motivos produzem decisão justificável e asseguram o valor do respeito recíproco; b) os motivos são acessíveis aos que por eles sejam envolvidos; e c) à democracia deliberativa, confere-se certa durabilidade, na medida em que esta pretende influenciar decisões governamentais no tempo presente ou futuro, embora saiba-se que decisões públicas possam cessar.
De qualquer forma, justificações entre as dissenções políticas devem ser processadas no modelo deliberativo, ou, de outra maneira, processos de justificações e decisões devem aproximar-se maximamente desse modelo. Com efeito, cumpre à deliberação “promover a legitimidade das decisões políticas”; além disso, objetivo vinculado a este é estimular considerações públicas sobre assuntos ou questões públicas; e o terceiro objetivo é promover a respeitabilidade recíproca às tomadas de decisões. Como frisam Gutmann e Thompson (2007, p. 27), “a deliberação não pode fazer com que valores incompatíveis sejam compatíveis, mas podem ajudar seus participantes a reconhecer o mérito moral presente nas exigências de seus oponentes, quando estes possuem mérito.”
Percebe-se com nitidez que a tese comum que une autores deliberativos é o método e o exercício mais apropriado para encaminhar e legitimar as políticas públicas; constitui-se no
processo das discussões públicas, em que se pode encarnar a deliberação. Não poderia ser diferente a afirmação de Habermas em um trecho de Democracia: entre fatos normas, ressaltado por Ângela Marques (2009, p. 12):
A deliberação deveria estabelecer formas de comunicação capazes de garantir a legitimidade das políticas públicas, ao criar articulações discursivas entre o discurso institucional e a conversação cívica entre os cidadãos, a qual se constitui nos espaços públicos parciais que integram as redes comunicacionais periféricas do espaço público político.
A deliberação é, assim, um desempenho democrático no qual cidadãos formulam razões inteligíveis com possibilidades de aceitação; integram debates reflexivos à luz dos quais demandas universalizáveis são tratadas. Com efeito, o contributo qualitativo da deliberação à democracia é que ela imprime procedimentos pelos quais eles, os cidadãos, apesar das suas diferenças, engajam-se cooperativamente para, por meio da argumentação igualitária, mais bem compreender e solucionar problemas que os envolvem. Ou, dito de outra forma, problemas públicos são mais bem equacionados quando a discussão medeia a articulação de acordo racional construído intersubjetivamente114. Portanto, a deliberação
pública é um movimento em direção ao outro mediante os elementos implicados no próprio processo discursivo.
É por essa natureza que, de acordo com Avritzer (2009, p. 7-8), pode-se asseverar que a democracia deliberativa, em primeiro lugar, sobrepõe-se àquela democracia agregativa resumida no voto. Ao contrário, “o processo de argumentação e mudança de preferência é um elemento central no processo de tomada de decisão.” Em segundo lugar, a correlação entre racionalidade e justificação de preferências é um processo intrínseco a essa deliberação. Em terceiro lugar, é uma prática democrática orientada pelo princípio da inclusão, tal como defende Habermas115. E, por fim, a democracia deliberativa propõe articulações institucionais
que efetivem as preferências resultantes das amplas discussões entre os cidadãos.
Ademais, pode-se ainda destacar quatro consideráveis justificativas para o modelo deliberativo: a) é uma forma processual pela qual se tomam decisões políticas; b) há uma preocupação inclusiva intrínseca ao procedimento deliberativo; c) o estilo ou formato de
114 Cohen faz uma observação pertinente: a estrutura da deliberação, que tem por finalidade encontrar melhor caminho para resolver problemas, em vez de fazer pressão sobre os participantes para que eles cheguem a soluções, deve encorajar os indivíduos a encontrar razões e argumentos com os quais os outros possam concordar. (COHEN apud MARQUES, 2009, p. 15).
115 O princípio do Discurso (D) postula que “indivíduos com visões, valores ou interesses distintos são frequentemente excluídos de um processo decisório; porém todo processo democrático deve potencialmente incluir todos aqueles afetados pelas suas decisões.” (AVRITZER, 2009, p. 8).
instituição que adota a metodologia deliberativa; e, d) a deliberação pública, estabelece uma peculiaridade política à democracia.
Essa vocação política desenvolve-se especialmente na esfera pública enquanto excelente espaço para seu acontecimento e avaliações simultâneas de graus, alcance e qualidade do processo. A esfera pública é, por natureza, constituída de práticas comunicativas ou redes comunicacionais articuladas nas quais problemas afetáveis, intercâmbio de razões, justificações e inquirições constituem e perpassam as discussões entre cidadãos livres, iguais e organizados. Esses espaços, como frisa Habermas (apud MARQUES, 2009, p. 16), são “contextos de descobertas especialmente encarregados de perceber, identificar e tratar os problemas que interessam à sociedade como um todo.” Ademais, é na esfera pública que se entrecruzam discussões oriundas das instituições político-burocráticas e administrativas, em que se formam as vontades, argumentos e decisões formais; e aquelas geradas na sociedade civil, por meio das organizações e movimentos e seus atores diversificados, capazes de influir sobre a agenda política e as decisões das instâncias daquela primeira área de poder institucional.
Esse complexo processo deliberativo encarna processos sociais, políticos e comunicativos; estes últimos, essencialmente plurais, incluem discursos políticos institucionalizados, comunicações midiatizadas e conversações cotidianas, o que significa dizer que, por um entendimento amplo de deliberação, podem-se compreender afinidades, convicções e interesses diversos; com efeito, a deliberação em vez de restrita e linear é complexa e aberta.116 Aliás, a deliberação processada nas instâncias sistêmicas do poder
político distingue-se ou dissocia-se em temporalidade, formas e objetivos daquela verificada nas conversações mais periféricas ou nas associações populares.
O importante é que a comunicabilidade funcione como construto que permita que mesmo interlocutores heterogêneos sejam cooperantes no fluxo de informações, proposições, justificações, críticas e acordos. É claro que, em virtude de estratégias, desequilíbrios, opressões simbólicas ou ostensivas etc., constrangimentos como esses podem entravar ou desvirtuar o engajamento deliberativo. Marques (2009, p. 21) observa com razão
[...] que os constrangimentos impostos por relações sociais e econômicas desequilibradas [...], desafios impostos pela deliberação são dois dos principais fatores que que afetam o desenvolvimento dos processos comunicacionais ligados à troca argumentativa e à orientação dos sujeitos em direção ao entendimento mútuo.
116 É por isso que, como chama atenção Marques (2009, p. 14), autores como Saphiro (Optimal Deliberation? - 2002) e Sanders (Against Deliberation – 1997), por exemplo, opinam que as exigências requeridas à deliberação a tornam empiricamente inviável.
Mas isso não implica desistir das possibilidades políticas da soberania popular como possibilidades no seio da democracia, para, “schumpeterianamente”, entregá-la ao arranjo institucional em eleições periódicas.
Ainda uma palavra breve nesse introito no que se refere ao ambivalente papel da mídia no que se refere dimensão comunicacional na esfera pública. Ora, a mídia, como defende Habermas, tem primeiramente a responsabilidade de captar, sistematizar e publicizar, portanto, favorecer as discussões de questões e opiniões relevantes. Por outro lado, ausência de autonomia e neutralidade dos seus profissionais possa – e quanto a isso o filósofo também alerta – privilegiar setores sociais, empobrecer ou distorcer as informações e opiniões e, por conseguinte, afetar os fluxos comunicacionais saudáveis naquela esfera pública.
Nesse sentido, adverte Habermas (2006, p. 411-412):
O modelo de comunicação da política deliberativa que desejo apresentar destaca [...] que a comunicação política mediada pode facilitar os processos de legitimação deliberativa em sociedades complexas se um sistema de autorregulação de mídia ganha independência de seus ambientes sociais, e se o público anônimo conceder feedback entre um discurso de elite informado e uma sociedade civil responsiva.
Assim, dadas as condições de autonomia e seriedade, a mídia, ainda mais conforme agregação de tecnologias ascendentes tem importante papel de, a partir da captação de questões sociais universais, favorecer a formação da opinião e dos debates públicos; pode também encorpar e ampliar discussões importantes geradas das interações sociais mais periféricas. Sem dissociá-la de entraves ou limites do contexto no qual esta se ancora e atua, a mídia tem, conforme Marques (2009, p. 25), pelo menos três objetivos primordiais: a) viabilizar melhor compreensão de problemas que afetam a todos; b) possibilitar autocrítica de cada participante sobre seus reais interesses e carências; e c) propor uma diversidade de saídas aos problemas em pauta. Essas funções têm, portanto, influência considerável na formação do engajamento deliberativo dos cidadãos.
Antes de se passar a para abordagens deliberativistas mais específicas, considere-se dois breves argumentos a favor da democracia deliberativa em Maeve Cooke. Para esta autora, a deliberação pública em primeiro lugar, tem inegavelmente um poder educativo, pois encaminha a participação deliberativa em assuntos públicos qualificando, efeito, os cidadãos dos pontos de vista moral, prático e intelectual; embora não clara “medida” dessa qualificação em relação a não participativa e, além disso, participação deliberativa não implica, em si mesma, retidão moral e intelectual, haja vista, que decisões ou transformações não são necessariamente melhores. Em segundo lugar, há um poder gerativo de comunidade inerente à
deliberação, pois a partir do bem comum, o indivíduo tanto se conscientiza de sua pertença a uma comunidade de tradição e valores admissíveis sob recíproca de razões públicas, quanto admite na perspectiva do outro, decisões racionais discutidas e referida ao conjunto dos afetados, mesmo que nem toda deliberação comunitária supere outras não comunitárias. Em terceiro lugar, os procedimentos deliberativos tornam os resultados democráticos mais justos. Concordando com Cohen e de Benhabib, ela afirma: “as decisões democráticas são justas ou legítimas desde que sejam produzidas por um procedimento justo.” (COOKE, 2009, p. 148). E por fim, a deliberação pública qualifica cognitiva e epistemologicamente seus resultados, pois os envolvidos interessam-se na melhor alternativa para regular questões de interesse público, cujo nível de justiça avalia-se mais pelo processo de alcance do que pelo conteúdo propriamente dito, à semelhança da máxima de Habermas: o como se sabe importa mais do que o que se sabe.
É conveniente ainda destacar as três teses de Thomas Christiano, acerca dos préstimos recursos da deliberação pública: a) tese da contribuição: a deliberação pública significa um subsídio indispensável, em tempos contemporâneos, para a realização e a valorização do ideal democrático institucional; b) tese da necessidade, pela qual instituições democráticas se qualificam, enquanto tais, conforme práticas deliberativas – ou, inversamente, uma democracia deficitária é aquela cujas instituições recusam ou subestimam a deliberação pública; e c) tese da exclusividade que assegura que a deliberação é a essência axiológica da deliberação. “A única razão pela qual a democracia tem alguma importância é que envolve a deliberação pública entre iguais” (CHRISTIANO, 2007, p. 84).