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3 A DELIBERAÇÃO PÚBLICA NO LIBERALISMO DE JOHN RAWLS

3.3 O REPUBLICANISMO E O NEORREPUBLICANISMO

3.3.5 Democracia bidimensional: eleitoral e contestatória

Ao contrário do estado de imperium, uma democracia elementar devidamente estruturada possibilita procedimentos que identifiquem e autorizem os interesses comuns. Como definir interesses comuns da população? Estes representam considerações cooperativamente admissíveis embasadas em certa boa vontade, preocupadas com o provimento coletivo102. E um governo será tanto democrático à proporção da consideração e

das convergências de políticas e legislações aos interesses comuns.

Assim como na teoria deliberativa habermasiana, Pettit assegura que essas considerações dos interesses comuns nascem e ligam-se a outras questões sem constrangimentos tratadas no processo discursivo; o discurso cooperativo exclui considerações egocêntricas ou corporativistas; e questões ou procedimentos conflitivos são dirimidos no discurso conforme os interesses comuns dos envolvidos. Com efeito, diz ele (1997, p. 220): “[...] deveria existir instituições democráticas que possibilitassem examinar as políticas identificadas e os outros fatores que influenciassem a maneira como as políticas materializam-se e possibilitassem extirpar aqueles que não respondem a tais interesses”. Conforme a perspectiva bidimensional democrática, Pettit artificializa uma dupla terminologia jornalístico-livresca – autoral e editorial – para explicar os aspectos de autoria e contestação no interior dos processos democráticos.

Autoral é a forma democrática estilizada no processo eleitoral pelo qual as pessoas podem determinar políticas gerais a serem consideradas e implementadas pelo governo; Pettit designa, como autorais, eleições e referendos. Além de manifesto da soberania popular, o instituto das eleições periódicas, populares e influentes103 impõe aos candidatos, ainda que

instrumentalmente (eleição ou reeleição), ações ou estratégias políticas atentas aos interesses comuns. O povo é, por assim dizer, autor das políticas públicas discutidas e implementadas pelo Estado. Por outro lado, a normatividade democrática aplicada, inclusive, ao processo eleitoral deve obstar leis e políticas manipuladas e corporativistas camufladas de interesses comuns – são os “falsos positivos” – ou leis e políticas voltadas para os interesses comuns, embora assim não pareçam – são os “falsos negativos.” Além disso, é preciso evitar tanto a discriminação de alguma minoria quanto as políticas alheias ao bem comum. Adverte Pettit

102 Rawls, de modo similar, como foi explicitado acima, acredita que sua teoria da justiça com equidade é plausível para contextos sociais complexos e plurais modernos, porque a cooperação visando à justiça é uma das condições básicas aos demais fundamentos, assumidas pelas pessoas.

103 Ao contrário dos opositores da democracia ou dos chamados “democratas elitistas” – tal como aquele “arranjo institucional” schumpeteriano, Pettit propõe “fazer das eleições populares um meio plausível de gerar um rico fornecimento de candidatos, como objeto de interesse comum.” (1997, p. 223).

(1997; p. 224): “A primeira é a tradicional preocupação sobre a tirania da maioria democrática e a segunda uma preocupação sobre a preocupação da elite democrática.” Em seguida, admoesta quanto ao sentido temerário real dessa última:

Políticas podem ser implementadas para servir a vantagem eleitoral particular, burocrática ou só pessoal e políticas que aparecem para representar os interesses comuns na retórica interminável de uma eleição, podem se materializar em uma correta impressão da legislação e regulação como políticas que servem aos fins desse ou daquele lobby de interesses. (PETTIT, 1997, p. 224).

De qualquer forma, nas repúblicas atuais a democracia se espelha nos processos eleitorais, satisfazendo razoavelmente o ideal de governabilidade autoral do povo, ou então, sem o impreterível evento eleitoral, não se pode definir democracia autoral popular.

O problema é que essa dimensão eleitoral-autoral pode satisfazer o povo coletivo ignorando, entretanto, o povo atômico, as particularidades: indivíduos ou minorias. E é por esse limite que Pettit introduz o conceito metafórico de controle editorial para explicar a dimensão contestatória da democracia. Isso porque, segundo ele (2007, p. 226), no contexto comunitário “qualquer forma de desenvolvimento [...] está destinada a ferir a alguns mais que outros.”104 Assim como no sistema editorial, em que o editor critica, recomenda ou impede

reportagens ou assuntos, o povo não coletivo – indivíduos e grupos, em geral, dispersos no interior do universo do povo – participa no sentido negativo ao contestar ou repropor políticas e legislações produzidas e assumidas, no cerne da democracia autoral.

O primeiro aspecto contestatório envolve a dialética dissenso-consenso. Indivíduos com suas crenças e convicções, compondo um público afetado por decisões públicas, podem estabelecer em primeira instância discussões não atreladas necessariamente ao consenso, tal como a meta habermasiana. Mas, ao mesmo tempo, a contestação depende de um fluxo comunicativo baseado em transparência, escrutínio e liberdade de informação. Assim, a lisura das deliberações públicas embasa a contestação. O segundo é a inclusão. A perspectiva democrática dos neorromanos advoga que segmentos sociais e seus representantes não sejam ignorados pelas maiorias, nem excluídos dos fóruns deliberativos. De acordo com Silva (2011, p.42), “formas de ações afirmativas para corrigir a sub-representação de determinados grupos no parlamento [...], a distribuição estatística dos grupos sociais relevantes no

104 Pettit dá o exemplo de uma questão de interesse comum como um empreendimento com riscos de resíduos poluentes. Há potencial protesto da minoria da vizinhança afetada e posição contrária de uma minoria dependente da empresa para subsistir, não atingida pela legislação antipoluição. Contestações são comuns em projetos ou negócios em meios urbanos, por exemplo. Em conflitos, se vetos individuais pudessem, fariam impedimentos; por outro lado, poder-se-ia apelar às barganhas. Mas isso, diz ele, resultaria em coalizão danosa aos excluídos. Portanto, percebe-se a interface entre contestação e conflito.

Executivo e no Judiciário são exemplos de estratégias para promover a natureza inclusiva da democracia”.

Além de discursiva e inclusiva, na democracia contestatória, há o terceiro aspecto caracterizado como responsividade no sentido do acontecer da contestação, mediante meios disponíveis. Segundo Pettit,

[...] eles incluem a possibilidade de escrever para um membro do parlamento, a capacidade de requerer um ombudsman para fazer uma investigação, o direito de apelar a uma corte superior contra uma decisão judicial, e prerrogativas menos formais tais como aquelas envolvidas em direitos de associação, protesto e manifestação. (PETTIT apud Silva, 2011, p. 45).

Quanto a esse assunto, a presente tese limita-se a esse ponto, mas não se pode omitir a subsequente provisão de recursos de contestação propostos por Pettit: os procedimentais, os consultivos e os apelativos. Os primeiros, relativos ao conteúdo das decisões do governo e ao processo de autorização de ações e legislações daquele, incluem restrições referenciais pelas quais se pode contestar decisões governamentais desviadas. Dentre elas, destacam-se quatro: a) o império da lei exige leis gerais, publicadas, inteligíveis e consistentes; b) deliberação democrática requer decisões transitadas nos debates parlamentares e comunitários; c) é necessária despolitização de questões relevantes ao interesse público; e d) é necessária provisão de auditoria independente sobre gastos orçamentários públicos. Os recursos consultivos, individuais ou coletivos, influem nas decisões públicas, aliás, com força contestatória ante ações governamentais “falso-positivas,” adversas aos interesses comuns, sobretudo às minorias. Quando o protesto é ouvido, mesmo um grupo lesado pode ceder razoavelmente a uma política de interesse público. O que é antidemocrático é a rejeição ao parecer público.

Finalmente, recursos apelativos constituem importante instrumento nas democracias atuais; indo além de casos gravíssimos como as torturas, recorre-se ao parlamento para numa ação dolosa de governo, de modo particular quanto a violações de justiça. Embora a corte suprema, segundo Pettit, seja foro apropriado para desafiar legalmente o governo, há também tribunais para apelações específicas: terra, imigração, educação etc. Ademais, contestações podem alcançar outras esferas de governo, como as más gestões, embora nem sempre acolhidas pelos tribunais, e, nessas reclamações, os ombudsmen têm papel importante. Conforme o autor (2007, p. 237), “[...] estão habilitados para investigar uma reclamação, e publicar um relatório [...], são frequentemente efetivos em assegurar uma compensação e, até mesmo, uma mudança de prática por parte dos agentes do governo”. Por fim, por mais que

sejam imperfeitos, são determinados “[...] para proteger as pessoas do perigo das autoridades governamentais e corporações que se comportam de uma maneira corrupta e faccional.” (PETTIT, 2007, p. 237).

As condições e os processos democráticos vistos até aqui – a liberdade como não dominação e a bidimensionalidade democrática precisam na perspectiva republicana, estar ancoradas ou garantidas pela constitucionalidade. Ou seja, há uma interligação necessária entre democracia e constitucionalismo. Essa é a terceira questão no percurso do neorrepublicanismo de Pettit.