ENQUADRAMENTO GERAL
2. Conceptualização e objeto
O sigilo bancário corresponde ao dever de reserva43 ou discrição das instituições financeiras, incluindo
os bancos, decorrente da natureza da atividade e da profissão bancária, a deveres acessórios de boa-fé,
um dever de non facere44, contratos, usos e costumes bancários45/46 e tem por objeto todas as
Bancário nos currículos e ensinos das Escolas e Faculdades de Direito, seguindo a experiência da Faculdade de Direito de Bissau, que já incluiu no seu plano curricular do 5ª Ano, na disciplina de Direito Privado, o Direito Bancário, associado às produções e maturações de doutrinas e jurisprudências nacionais sobre o tema Direito Bancário. Todavia, já em Portugal e na Europa em geral, e no sistema bancário da nossa sub-região, v.g., no Senegal, e nos restantes seis países da UEMOA, o panorama é outro, onde se multiplicam os referidos sinais de sedimentação e de vitalidade do Direito Bancário.
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Neste sentido, M. Januário Costa Gomes considera que a reserva na atividade bancária encontra-se centrada no regime do sigilo bancário, em geral, nos termos do arts.78º, n.ºs 1 e 2, do RGICSF. Cf. Manuel Januário da Costa Gomes, Contratos
Comerciais. I. Contratos Comerciais em Geral. II. Contratos Bancários, Coimbra, Almedina, 2012, p. 105.
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Cf. Menezes Cordeiro, Direito Bancário, 5.ª ed, cit., p. 352. Igualmente, veja-se: Daniela Pessoa Tavares, “O Segredo
Bancário na Legislação Bancária de Angola, Cabo Verde e Moçambique”, in Revista de Concorrência e Regulação, Anos
V-VI-N.ºs 20-21, Outubro 2014 – Março 2015, p. 204.
45 O conceito de sigilo bancário como dever de discrição, de forma ampla não deixará de convir o conceito de Pereira Sousa, que nos informa que “silêncio naquilo, que se nos disse, ou sabemos, para não comunicar a outrem a coisa, que se quer encoberta, e não sabida de alguém, ou de certas pessoas”. Cf. Joaquim José Caetano Pereira e Sousa, op. cit.,. Por seu turno, não seria de excluir a exposição de Paula Barbosa a conferir e explicar a confidencialidade que, igualmente, informa o direito tributário, na qual inspiramos que a confidencialidade no domínio de sigilo bancário, significa ser confidente, discreto, reservado. A comunicação sob ordem de sigilo bancário. Assim sendo, ao dever de respeitar o sigilo bancário, corresponde o dever de guardá-lo. Dever de guardar os dados, que são quaisquer elementos, quaisquer informações relativos, neste caso, à situação da conta do cliente. Cf. Paula Barbosa, «Do valor do sigilo – O sigilo bancário, sua evolução, limites: em especial o sigilo bancário no domínio fiscal – A reforma fiscal», Revista da Faculdade de Direito da
Universidade de Lisboa, Vol. XLVI – N.º 2, 2005, p. 1268. No sentido de que o sigilo bancário advém de uma relação de
confiança fundada no contrato de depósito bancário, impondo ao banco o dever de guardar a discrição acerca das operações que o cliente lhe confia, vem Savary, em sentido amplo, caracterizar o conceito do sigilo bancário como “Tudo ver, tudo entender e nada dizer”. Cf. Savary, apud Carlos Manuel Ferreira de Carvalho, Prontuário Bancário – Enciclopédia
informações confidenciais, em especial as identificações dos clientes, cifras identificadoras das contas, as suas movimentações financeiras, em suma, quaisquer outras operações, serviços e instrumentos de
pagamentos ligados às contas47.
Assim sendo, o sigilo bancário é um dever indelével conexo ao ofício, que consiste na discrição que os bancos, seus órgãos e funcionários hão-de observar quanto à informação de natureza pessoal e económica sobre os clientes, exclusivamente colhidas no exercício das respetivas funções e nas leis que informam a profissão bancária, no sentido de não revelar a terceiros nem utilizar senão no estrito
âmbito do circuito fechado do exercício da profissão e operação bancária48. Assim se deduz que o
sigilo bancário traduz-se no instituto jurídico normativo que regula a relação entre os bancos e os seus clientes, impondo àqueles a importante obrigação profissional de zelar e guardar o sigilo como uma das obrigações típicas e fundamentais dos bancos, consistindo na observância, por parte dos bancos, através dos dirigentes e colaboradores, de séria discrição de segredo profissional, v.g., relacionada com os contratos de depósitos, contas, créditos, de que tenham conhecimento e compartilham entre si por 46 Assim considera Alberto Luís (op. cit., p. 454) que o “Segredo Bancário consiste na discrição que os bancos, seus
órgãos e empregados, devem observar sobre os dados económicos e pessoais dos clientes, que tenham chegado ao seu conhecimento através do exercício das funções bancárias”. E, José Maria Pires define o sigilo bancário como “um dever especial, penalmente protegido, a que estão adstritas determinadas pessoas, de não revelar ou utilizar informações legalmente consideradas confidenciais e cujo conhecimento resulte exclusivamente do exercício de funções ou da prestação de serviços em instituição de crédito” (Direito Bancário: O sistema bancário português, Vol.I, Lisboa, Editora
Rei dos Livros, 1994. p. 120). Mais adiante, este autor considera que o sigilo bancário corresponde um dever de discrição sobre a vida pessoal e económica do cliente bancário, nas relações deste com a banca, tradicionalmente respeitado nos usos e praxes bancários e eventualmente consagrado na legislação reguladora das instituições (Cf. José Maria Pires, O Dever de
Segredo na Atividade Bancária, Colecção Temas de Direito Bancário, n.º 1, Lisboa, Editora Rei dos Livros, 1998, p. 15).
Ademais, Rodrigo Santiago, na esteira de M. Paul Sieg-Hart e de Lenckner, conceptualiza o sigilo como dever de guardar a discrição, imposto ao “confidente” sempre que este tenha conhecimento de uma circunstância que a parte interessada deseje, expressa ou implicitamente, seja mantida em sigilo, i.e., importando-se, naturalmente, com os factos apenas conhecidos dentro de círculo limitado de pessoas e em cuja discrição a pessoa a quem respeitam tem, da sua perspetiva, um interesse objectivamente fundado. Cf. Rodrigo Santiago, «Anotação ao Acórdão do STJ, de 22 de Junho de 1988», Revista
da Ordem dos Advogados, Ano 49 – Dezembro, 1989. p. 849 e ss; Juan Carlos Malagarriga encara-o como “la obligación impuesta a los bancos de no revelar a terceros, sin causa justificada, los datos referentes a sus clientes que llegem a su conocimiento como consecuencia de las relaciones jurídicas que los vinculam”. Nesta mesma linha Sérgio Carlos Covello
toma sigilo bancário como “obrigação que têm os bancos de não revelar, salvo justa causa, as informações que venham a obter em virtude de sua atividade profissional”. Sérgio Carlos Covello, O Sigilo Bancário, 2ª ed., São Paulo, Universitária do Direito, 2001.
47 Cf. Armindo Saraiva Matias, Direito Bancário, op. cit. p.25 e ss; No sentido de que o sigilo bancário tem por objeto todas as informações confidenciais que o banco não deva revelar a terceiros, nomeadamente o saldo de conta, crédito concedido a um cliente, etc…, cf. Thierry Bonneau, Droit Bancaire, 4ª ed., Paris, Montchrestien, 2001, p. 267 e ss. Cf. Também o Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 26 de Setembro de 2000, Processo n.º JTRC01115, disponível em http://www.dgsi.pt.
48 Cf. Maria Eduarda Azevedo, «O Segredo Bancário…», op. cit., p. 73 e ss; Telmo José Macedo Alves, «O Sigilo Bancário…», op. cit., p. 16 e ss.
razões puramente profissionais, etc...49 Porém, ficando, por isso, vedados de as difundir ou permitir que outros estranhos à conta tenham acesso aos seus dados e informações, senão o próprio titular da conta devidamente identificado, seu mandatário ou procurador e nos casos estritamente previstos nas leis, sob pena de incorrer nas responsabilidades administrativa, disciplinar, cível e até penal.
O sigilo bancário é encarado como a obrigação de discrição dos bancos, os seus órgãos e os seus funcionários, relativa às informações dos dados económicos e pessoais conexos aos seus clientes e de que tenham conhecimentos por causa do exercício das profissões bancárias. Não obstante o nome sugestivo do “sigilo bancário”, o sigilo não se resume apenas à banca, todavia engloba e vincula todas as instituições e agentes que atuem no mercado financeiro, monetário, cambial, abrangendo com isto todos aqueles que praticam as atividades de intermediações financeiras, creditícias, valores mobiliários e outras atividades com elas conexas. Neste sentido, o sigilo bancário respeita a generalidade do
sistema financeiro50.
As operações e atividades bancárias são desenvolvidas numa lógica de globalização e de abertura dos mercados, possíveis de se subdividirem nos três principais eixos seguintes:
a) Da entrega e recebimento: em regra, mediante o contrato de depósito, do qual emerge a
obrigação do cliente garantir a provisão da conta, os bancos recebem fundos destes, que deles possam dispor por conta e risco próprio, todavia com a obrigação de os restituir no todo ou em parte, assim que o cliente o demandasse;
b) As operações de créditos, traduzindo-se no contrato de concessão de crédito por desembolso ou
por assinatura;
c) E meios de pagamentos, gestão e serviços bancários colocados à disposição da clientela51. No
entanto, estas atividades bancárias geram, na maioria dos casos, várias relações contratuais entre os bancos e os clientes, nomeadamente contratos de depósito bancário, de conta, de conta corrente
49 Devendo-se destacar que o que está em causa na proteção do sigilo bancário não é uma simples posição de técnica jurídica, antes uma atitude ideológica, para significar uma determinada conduta que se exige face à sociedade e ao direito. 50 Cf. Luís Guilherme Catarino, «Segredo Bancário e Revelação Jurisdicional», Revista do Ministério Público, Ano 19º, nº74, Abril-Junho 1998, p. 62 e ss; Alberto Luís, op. cit., p. 454. Fernando Conceição Nunes, «Os deveres de segredo profissional no Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras», Revista da Banca, n.º 29 – Jan-Março, 1994, p. 39 e ss. Sobre a definição, as tipologias e as atividades das instituições de crédito em Portugal à luz do RGICSF, veja-se Fernando Conceição Nunes, «As Instituições de Crédito: Conceitos e Tipologia Legais, classificação, atividades legalmente permitidas e exclusivos», Revista da Banca, n.º 25 – Jan-Mar., 1993, p.71 e ss.
51 No estrito termo regulado ao abrigo da Lei n.º 12/97, e do Regulamento 15/2002, relativo aos meios de pagamentos na UMOA.
bancária, de concessão de crédito bancário, de desconto bancário, de financiamento bancário, etc, as quais configuram deveres específicos que informam cada tipo contratual, e outros tantos deveres dos bancos, de entre eles ressaltando os deveres de não se imiscuírem nos negócios dos clientes, o dever de vigilância, de prudência, de não ingerência e, fundamentalmente, o dever de guardar o sigilo, no sentido de que os bancos não devem divulgar as informações relativas aos seus clientes.
Neste sentido, o sigilo bancário constitui um dever para o banco e um direito para o cliente, tutelado pelo direito público, em especial o “direito constitucional”, e pelo direito privado, conferindo-lhe a
natureza pública e privada52. Assim sendo, o sigilo bancário constitui a proteção dos direitos
individuais básicos, que são as intimidades e a esfera de ação que determina a identidade de cada pessoa, que tem de ser preservada da intromissão totalitária dos agentes e entidades estranhas, e que
incumbe, principalmente, ao banco defender e guardar, pelo interesse próprio e da clientela53.
Com efeito, o sigilo bancário abrange inequivocamente todos os vínculos jurídicos da atividade económica de intermediação monetária, tanto na vertente de captação como na vertente de investimento e fornecimento. Assim sendo, informa e engloba todo o universo dos serviços e contratos em geral concluídos entre clientes e as instituições financeiras, dentre os quais destacam-se, essencialmente, o depósito bancário, o depósito em conta corrente, a conta poupança, a conta a prazo, o contrato de custódia e guarda de valores, o contrato de abertura de crédito, o de empréstimo, de financiamento, etc…, geralmente firmados através de contratos de adesão por intermédio das cláusulas contratuais gerais estandardizadas. Para os quais nascem ope legis as obrigações de discrição imposta aos bancos e aos seus funcionários efetivos e eventuais, no sentido de não revelação, salvo disposição legal em contrária, das informações colhidas em virtude de suas atividades profissionais que dizem
respeito as operações, contratos e serviços dos seus clientes54.
Neste sentido, estabelece Rodrigo Santiago que, para se falar de “segredo é necessário que se trate de
um facto conhecido por um número limitado de pessoas, de algo que não seja, sem mais, acessível a
52 No sentido de que o sigilo bancário apresenta, pois, um duplo carácter: moral e jurídico, que do ponto de vista ético, traduz-se na salvaguarda da reputação das partes envolvidas, que impõe ao banco o dever de não revelar de forma ilícita os dados sujeitos à reserva, no interesse difuso do cliente, da banca e do sistema financeiro, e assumindo, por conseguinte, a boa-fé numa relevância singular no âmbito das relações bancárias – relações jurídicas uberrine fidei -, a fidúcia recíproca – banco-cliente hoc sensu mas também nas relações negociais prévias tendo em vista à conclusão de um contrato bancário. Veja-se, Maria Eduarda Azevedo, O Segredo Bancário, Lisboa, Centro de Estudos Fiscais – Direção Geral das Contribuições e Impostos, 1989, p. 5 e ss.
53 Cf. Geraldo de Camargo Vidigal, «As Centrais de Risco e o Sigilo Bancário», in Diogo Leite de Campos (coord.), Sigilo
Bancário, Lisboa, Edições Cosmos, 1997, p. 21 e ss.
qualquer, numa palavra de conhecimento obtido por força de uma confidência”55.
Portanto, do ponto de vista legal, a nossa lei de regulamentação bancária apresenta lacunas preocupantes quanto à necessidade de fixação do objeto e âmbito de sigilo bancário na ordem jurídica guineense, contrariamente ao art. 78º do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades
Financeiras (RGICSF), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 298/92, de 31 de dezembro, que vem,
nomeadamente estabelecer não só a definição, mas o seu próprio objeto, ainda que indicativo, em particular relacionado como o nome dos clientes, as contas de depósitos e seus movimentos e outras operações bancárias consignadas, por exemplo, ao abrigo do art. 4º do RGICSF. Neste sentido, este prevê numeros apertus do objeto e âmbito do sigilo bancário na ordem jurídica portuguesa, abrindo assim brecha para a entrada de todas as relações bancárias privadas com os clientes, incluindo os serviços pontuais ou de passagens, nomeadamente depósitos, saques, aplicações financeiras, gastos com cartões de créditos, operações, pagamentos de bens e serviços, débitos, compra de moeda estrangeira, transferência, enfim todo e qualquer tipo de serviço e operação praticada pelo cliente no banco.
SECÇÃO II
Panorama Histórico: Génese e Evolução