3 PERCURSO METODOLÓGICO
3.2 Conhecendo o campo de estudo
Cabe destaque que, mesmo demarcando o conceito da branquitude, não significa dizer que todas as pesquisas levantadas na busca realizada nas plataformas já citadas utilizam a mesma abordagem do termo. No Brasil, segundo Priscila Silva (2018), os estudos têm se ocupado, principalmente, de vertentes que marcam o poder da identidade branca, com hierarquizações cultural e racial, símbolo de dominação, alinhados à perspectiva de que tal conceito é construído, histórico e socialmente, para além da dualidade branco/negro.
Ao aplicar a busca dos descritores77 na BDTD, nos PPGE, no período de 2000 (quando as publicações de trabalhos se iniciaram no Brasil) a 2018, foram encontrados, com o descritor branquitude, 1078 resultados, que se dividiam em sete dissertações de mestrado e três teses de doutorado. Em relação à branquidade, foram encontrados três trabalhos: duas dissertações e uma tese. No repositório da CAPES79, pesquisando o mesmo período (2000 a
2018), foram encontrados 16 trabalhos com o descritor branquitude, sendo 11 dissertações e cinco teses. Na busca por estudos com o tema branquidade, foram auferidos 10 trabalhos, sendo sete de mestrado e três de doutorado (Gráficos 1 e 2).
77 No BDTD, é possível usar dois descritores, o que possibilitou um refinamento das informações, já na
plataforma da CAPES, a busca composta não foi efetiva. Considerando que o universo de abrangência foi delimitado a PPGEs, foi necessário realizar demais filtros manualmente.
78 Em relação à busca desse descritor no BDTD, nessa categoria, dois trabalhos estavam duplicados (Anexo I), e
a única diferença observada entre os trabalhos, que justifique o erro, foi o endereço do repositório, pois aparece, em cada registro, um endereço diferente. Isso pode ser corrigido apenas após a etapa qualitativa, então, a princípio, indicou-se 12 trabalhos.
79 A título de conhecimento, informamos que, na busca no catálogo da CAPES, mesmo quando marcados os
descritores e a área de conhecimento, a plataforma incorporou, aos resultados da busca, 11 trabalhos da área da Psicologia e um da Psicologia Escolar, o que foi rapidamente identificado pela notoriedade dos autores e pela disposição dos dados na planilha.
Gráfico 1 - Levantamento de estudos descritor branquitude Gráfico 2 - Levantamento de estudos descritor branquidade
Fonte: Elaborado pela pesquisadora Fonte: Elaborado pela pesquisadora
No trato do material levantado, foram organizadas quatro planilhas para agrupar descritores e banco de dados, com a identificação do ano da conclusão dos trabalhos, área de avaliação, formato (dissertação/tese), cidade onde se localiza a instituição, Thesaurus de palavras-chaves e uma coluna com observações, utilizada para agrupar informações de caracterização metodológica dos trabalhos. O filtro dessas informações foi feito a partir do contato com o título, da leitura dos resumos dos trabalhos e, quando ele não trazia informações suficientes, também eram lidas as introduções. No processo de catalogação dos 40 trabalhos encontrados (Anexo I), foi realizada a comparação dos dados entre as plataformas consultadas, antes de realizar a leitura dos resumos. Nessa averiguação, constatamos que todos os trabalhos incluídos na BDTD estavam presentes no catálogo da CAPES, mas, considerando que o segundo abrangia maior número de trabalhos, optou-se por utilizar apenas esse banco de dados. No prosseguimento, foi feita a leitura dos resumos e foram identificadas, entre os 26 trabalhos, apenas três pesquisas desenvolvidas no ensino superior com o foco no sujeito docente e/ou em sua prática.
Essa etapa nos confirmou o que as referências bibliográficas veem afirmando, que o estudo das relações raciais é mais investigado na educação básica do que no ensino superior. O número de estudos apareceu em sentido ascendente, no período de 2000 a 20018, o que indica que há interesse, no campo da Educação, em estudar o fenômeno do racismo a partir do lugar simbólico do branco, ao mesmo tempo que isso nos sugere algumas interpretações de uma tentativa persistente do adiamento “pessoal” das investigações, uma marca da
democracia racial, ou o “conheço alguém racista, mas não sou racista”80. Ao manter a separação nós/eles, perpetua-se, na pesquisa, um certo conforto do lugar simbolicamente superior na dicotomia educação superior x educação básica.
Na análise qualitativa, outros dois trabalhos foram incorporados ao estado do conhecimento por consideramos que dialogavam com a nossa discussão, assunto e campo. Como será apresentado a seguir, entre os três trabalhos, dois consideravam um curso “de auto prestígio social”, a Medicina (NOGUEIRA, 2015; QUEIROZ, 2018). Já a nossa pesquisa não definiu as/os participantes considerando um curso, então, ao encontrar, no levantamento, uma pesquisa realizada com docentes brancos na educação básica (BASTOS, 2015), foram identificados resultados próximos às pesquisas feitas com docentes do ensino superior. Assim, a inclusão desse trabalho contribuiu para referendar nossa escolha de fazer um estudo com o máximo de áreas do conhecimento possível, por entendermos a complexidade da discussão do racismo e que ele é estruturante da sociedade brasileira. A branquitude, como estamos abordando, é mais que um grupo identitário, é poder, é projeto de sociedade. A segunda pesquisa incorporada de forma a complementar ao nosso estudo (SILVA, 2016) contribuirá para evidenciar o modo como a branquitude inaugura e se mantém no projeto da educação superior a partir do caso da USP.
Nosso escopo passou a ser os 26 trabalhos da branquitude/branquidade no campo da Educação. Esse quantitativo nos suscitou a conhecer, também, o cenário de emergência dessa produção na educação. Incluímos, na tabela, a região do Brasil em que estão os PPGE que abrigam as pesquisas acerca da branquitude, com o objetivo de traçar uma certa cartografia dessa produção, conforme representado na Figura 2, a seguir:
80 “No ano de 1998, ano do centenário da abolição da escravidão, a Universidade de São Paulo fez uma pesquisa
interessante sobre o racismo. Nessa pesquisa se perguntava às pessoas se elas tinham preconceito [racial]. Noventa e sete por cento delas informou que não tinha. Em seguida, perguntava-se às pessoas se elas conheciam alguém que tivesse preconceito. Noventa e nove por cento delas disse que sim, conheciam, e chegaram a apontar amigos e parentes próximos. [...] O problema está sempre no outro: essa é a forma mais simples de se resolver as manchas na própria imagem, as culpas e as ambivalências” (GONDAR, 2018, p. 50).
Figura 2 - Cartografia das pesquisas sobre branquitude nos PPGE
Fonte: Mapa IBGE (2010), com destaques feitos pela autora
A representação no mapa na Figura 2 situa a Região Sul (13) e a Sudeste (11) com os PPGE que protagonizam, no país, os estudos da branquitude, o que nos possibilita inferir uma interlocução de pesquisadores da Educação com outras áreas do conhecimento, já que foi no Sudeste que os primeiros estudos da branquitude começaram a ser desenvolvidos no país (Psicologia, Comunicação Social, Sociologia). No momento da busca, foram mapeados apenas dois estudos na Região Nordeste. Outro fator que corrobora nossa hipótese é a relação com o período que esses estudos foram produzidos: entre os 26 trabalhos, nove foram desenvolvidos na primeira década dos estudos críticos da branquitude no Brasil (2000 a 2010) e, nos últimos sete anos (2011 a 201881), já se somam 18 trabalhos. É provável que o grande número de programas de pós-graduação stricto sensu, nessas regiões, também impacta o cenário. Em consulta à lista de Programas Recomendados e Reconhecidos da CAPES, disponibilizada na Plataforma Sucupira, foram identificados 202 programas “em
81 Em relação a 2018, os dados correspondem até outubro, uma vez que o levantamento foi realizado em 26 de
funcionamento” no período de 2013 a 201682. Desses, 137 (68%) estão nas regiões Sul e
Sudeste do Brasil (Gráfico 3).
Gráfico 3 - PPGE por região do país
Fonte: Elaborado pela autora a partir de dados da Plataforma Sucupira
A centralização da discussão em uma determinada região não impede de considerarmos o início promissor, um fenômeno que emerge do desejo dos sujeitos pesquisadores e seus orientadores/as de inverter a “ordem oprimido x opressor”. Apesar de se manter estável (Gráfico 4), o número de estudos tem direção ascendente. Segundo o estado da arte de estudos das relações raciais e étnicas (SANTOS; VASCONCELLOS; HOLTZ, 2018), os descritores branquitude e branquidade estavam presentes no levantamento, foram agrupados na categoria multiculturalismo, e reconhecidas as pesquisas que interrogam o lugar do branco na educação das relações raciais como promissoras para o campo.“A religiosidade e cultura afro-brasileira, assim como a relação entre currículo e estudos sobre a branquidade são temas emergentes” (SANTOS; VASCONCELLOS; HOLTZ, 2018, p. 289).
82 Foram realizadas consultas ao Cadastro Nacional de Cursos e Instituições de Educação Superior, Cadastro e-
MEC, o site da CAPES e não foi encontrada informação mais atualizada. O site desta última direcionava para a Plataforma Sucupira.
Gráfico 4 - Estudos de branquitude em PPGE
Fonte: Elaborado pela autora
A constatação desse cenário não nos dá a possibilidade de acessar as motivações dos/das professores/as orientadores/as, mas nos instiga a pensar em hipóteses, tais como o maior contato desses docentes com estudantes não brancos no ensino superior (políticas afirmativas), o desenvolvimento de uma consciência racial, o incentivo financeiro de pesquisas nessa temática nas últimas décadas e a proximidade com teorias antirracistas.