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Estudos críticos da branquitude no Brasil

3 PERCURSO METODOLÓGICO

3.1 Estudos críticos da branquitude no Brasil

A similaridade fonética entre os termos branquitude e negritude pode levar à equivocada compreensão de que opositivos, mas, assim como viemos construindo em nossa

linha argumentativa, raça é um significante que é estruturado na relação, mesmo quando a “brancura” opera como poder simbólico. O racismo, como problema de pesquisa no Brasil, começou a ser considerado na década de 195074 e os primeiros estudos foram desenvolvidos pela Escola de Sociologia da USP, financiados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que buscava compreender o milagre harmonia racial brasileira e, com isso, dar visibilidade internacional a esse modelo de convivência. O que a pesquisa desvela, então, é o caráter equivocado dessa compreensão, o racismo também se fazia presente no Brasil, mas com características particulares. A partir daí, as pesquisas se desenvolveram, até o final dos anos 1990, focadas no “problema do negro”, uma abordagem unilateral da questão em que os estudos da branquitude que começavam a chegar ao Brasil abrem a possibilidade de quebrar o silêncio do branco com sujeito nesse cenário.

Os primeiros estudos que abordam “o branco” como “objeto” de pesquisa são localizados os de Du Bois, nos EUA, que investigava o trabalhador branco norte-americano do século XIX. Suas pesquisas assinalam que, mesmo quando um trabalhador branco recebia um salário baixo, era compensado com um “salário público e psicológico”, que resultava em ganhos reais, no trânsito livre, no acesso às funções públicas, e que os prédios das escolas dos seus filhos eram os melhores da região, os tribunais dependiam do seu voto e, geralmente, eram tratados com respeito (DU BOIS, 1935 apud CARDOSO, 2010). Em resumo, significa dizer que, mesmo quando o branco é pobre, em uma sociedade racializada, ele tem vantagens. Esse estudo é considerado o “pontapé” para uma série de outros iniciados nos anos 1990, conhecidos como critical whiteness studies, e que se expandiram para a Inglaterra, a África do Sul, a Austrália e o Brasil, países que se tornaram centros de pesquisas da branquitude. No Brasil, o primeiro75 a problematizar a identidade racial branca foi o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos (1957). Na obra Patologia social do branco, o termo que ele cunhou foi a brancura e argumentou que a negação da descendência biológica e da cultura negra (política de branqueamento) contribuiu para que o pardo se considerasse branco e o preto se visse como pardo.

Esse deslocamento de “objeto”, em que o foco se move do oprimido para o opressor, teve influências de outros pesquisadores que tratavam de temas da colonização. O projeto político de branqueamento, investido em políticas de migração, a ideia de

74 Em sua dissertação de mestrado, Lourenço Cardoso (2008) mapeia a produção de dissertações e teses que

trabalham com raça como construto social, a partir os seguintes descritores: raça, negro, racismo e étnico/racial. A mais antiga localizada foi de 1957, na Universidade de São Paulo.

75 Faz referência a Florestan Fernandes, mas, apesar de ter usado o termo, o sentido não condiz com essa linha de

miscigenação como ascensão e o mito da democracia racial são marcas que influenciarão a branquitude brasileira, diferentemente dos EUA, em que quem é branco ou não branco, como argumenta Oracy Nogueira (2006), é estabelecido pela origem, pelo DNA. No Brasil, impera a aparência76, o que vai tornar tipicamente brasileira a fluidez dessa identidade, que “não busca uma pureza, a brancura pode ser acessado pelo dinheiro, status sociais, educação” (D’ÁVILA, 2006, p. 26).

A psicóloga Edith Piza, nos anos 2000, publicou a obra Branco no Brasil?

Ninguém sabe, ninguém viu e, mais tarde, Porta de vidro: entrada para a branquitude (2002),

em que defende que a identidade racial do branco não seria marcada. Ela é, de certa forma, invisível, o que cria a metáfora de que essa identidade racial é uma “porta de vidro” em que o sujeito se choca quando tem o impacto dos seus privilégios. A partir daí, ele se percebe como pertencente a um grupo racial que compartilha culturas e valores comuns (mesmo que ele discorde deles), mas a ideia da “invisibilidade”, nessa perspectiva, foi muito criticada a partir da argumentação de que a invisibilidade só é possível em um contexto em que supremacia branca impede, sistematicamente, o não branco de apontar para essa hegemonia (SANTOS et

al., 2012). A invisibilidade, então, é mais uma forma de expressar a branquitude, uma

marcação praticada pelos próprios teóricos, sobretudo os norte-americanos, que, nos estudos da branquitude no Brasil, não ganhou muita força.

A partir de sua dissertação de mestrado, José Hilton Miranda (2018) publicou, recentemente, um artigo em que retoma discussões teóricas sobre a invisibilidade. Ele não a descarta, mas faz uma diferenciação com a neutralidade. Para o autor, a branquitude é norma que opera com a ausência de reflexão, e a consciência da condição de racializado, de “branco”, não significa ter compreensão dos privilégios, já a neutralidade expressaria a face mais dissimulada da branquitude, pois sabe dos seus privilégios e escolhe fazer mantê-los.

De acordo com a revisão de literatura feita por Lourenço Cardoso (2010), branquitude é entendida como uma categoria importante para a luta antirracista na educação. Desde 2001, essa área possibilita auxiliar na desconstrução dessas relações hierarquizadas. No mapeamento realizado, a psicóloga Maria Aparecida Bento é identificada como a primeira pessoa a defender uma tese sobre a temática no Brasil. No seu trabalho, ela busca articular a representação social do não branco, e soma a discussão da branquitude à característica de universalidade presente na construção da identidade nacional. A autora defende que, “uma

76 NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de

referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. Tempo social, Revista de

vez que a escravidão envolveu apropriação indébita, concreta e simbólica, violação institucional de direitos durante quase 400 dos 500 anos que tem o país. [...] Essa herança silenciada grita na subjetividade contemporânea dos brasileiros, em particular dos brancos, beneficiários simbólicos ou concretos dessa realidade” (BENTO, 2003 apud MIRANDA, 2015, p. 14).

O silêncio, a omissão, a distorção do lugar do branco na situação das desigualdades raciais, no Brasil, têm uma marca de autopreservação, um forte componente narcísico, “porque vêm acompanhado de um pesado investimento na colocação desse grupo como grupo de referência da condição humana” (BENTO, 2002, p. 30). A pesquisa de Maria Aparecida Bento (2002) também se tornou um marco no campo conceitual, pois as traduções do termo whiteness podiam ser encontradas, no país, como branquitude e branquidade, e usadas como sinônimos. Seu trabalho fortaleceu o estabelecimento do termo branquitude no campo de pesquisa. Outro ponto a ser considerado é em relação ao termo brasileiro “negridade”, cunhado pelo movimento negro, para se referir aos negros que não se identificam com seu pertencimento racial e buscam assimilar a cultura, os valores e os estilos da cultura branca.

A branquitude, nos estudos críticos brasileiros, é entendida como fluida e precisa ser compreendida no tempo e no contexto social e histórico em que é observada, como assinala Priscila Silva (2018). Ao demarcar a contribuição dos estudos da branquitude norte- americana no cenário brasileiro, a pesquisadora identifica influências nos aspectos de construto ideológico; as vantagens materiais e simbólicas aos brancos; as desigualdade de distribuição de poder (econômico político e social) situado as principais direções dos principais estudos, sendo eles, a vertente de uma identidade neutra (SILVA, 2018), acrescentadas às características nacionais, à superioridade estética (SCHUMAN, 2012), ao silenciamento e à neutralidade (BENTO, 2009), à hierarquia (PIZA, 2009), ao símbolo de dominação (MALOMALO, 2014), a um lugar de poder (LABORNE, 2014), de colonialismo epistemológico (COROSSACZ, 2014) e de possibilidade de autorreflexão (CARDOSO, 2010). Abordagens de diferentes campos de saberes, que adensam a produção de conhecimento acerca das relações raciais e nutrem nossa pesquisa.