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Conhecimento local e conhecimento técnico

1. O envolvimento dos atores

1.2 Reconhecimento do lugar

1.2.2 Conhecimento local e conhecimento técnico

O conhecimento local resulta de uma combinação de senso comum e competências práticas, adquirido através das interações sociais em que o conhecimento se vai partilhando e misturando, resultando numa acumulação de informação específica de uma rede social (Healey, 1999). Uma vez que resulta das interações sociais, das experiências e valores partilhados, este conhecimento é intrínseco ao contexto social em que se forja e ao espaço físico em que decorre. Resulta de um processo longo, que combina as experiências quotidianas com a memória coletiva, reinventando-se continuamente sob o peso das tradições, valores e códigos sociais. Este conhecimento comum, próprio dos cidadãos, pode auxiliar a que os processos de decisão se adequem às condições locais e aos valores específicos de cada contexto (Burby, 2003).

A pós-modernidade tem posto em causa a hegemonia do conhecimento científico e a noção de perito (Whitmarsh et al., 2009), dando lugar à valorização de outras formas de conhecimento. Os referenciais técnicos e científicos que apoiavam os processos de decisão tradicional nas políticas públicas e através de um processo lógico conduziam à produção de resultados, perdem assim o carácter absoluto. A participação é discutida como uma prática que permite a inclusão de outro tipo de conhecimentos no processo de decisão, aumentando a robustez dos resultados e democratizando o processo. Desta forma, os cidadãos a quem as políticas são destinadas passam a ter a oportunidade de, ativamente condicionar o processo

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de decisão. A distinção entre técnicos, fazedores, e cidadãos, recetores, dilui-se assente na valorização da contribuição dos cidadãos.

O conhecimento local, associado aos cidadãos, e o conhecimento científico, associado aos técnicos, apresentam diferenças que devem ser compreendidas quando se pretendem desenvolver processos participados, para que se constitua uma partilha efetiva. As diferenças entre público e técnicos decorrem de diferentes racionalidades, originando processamentos da informação distintos: o público, mais experimental, dá respostas mais “afetivas, automáticas e rápidas”; os técnicos, mais analíticos, apresentam comportamentos mais “deliberativos, conscientes e cognitivos” (Xenias & Whitmarsh, 2013, p. 76). Mas estes autores reconhecem que esta distinção origina uma valorização positiva da racionalidade técnica face a uma racionalidade leiga, quase irracional, que não corresponde à realidade, em que as soluções técnicas muitas vezes se revelam ineficazes e desadequadas face ao contexto. As diferenças de valores e conhecimento originam respostas diferentes, com os técnicos a ponderarem as questões de forma abrangente, respondendo de modo “mais detalhado e mais abstrato, mais genérico e teórico” apresentando espontaneamente “soluções teóricas”, face ao público que se exprime de forma “mais experimental e pragmática” (Xenias & Whitmarsh, 2013, p. 82). Assim, para além das diferenças na abordagem aos problemas, a formulação das respostas revela linguagens distintas podendo dificultar a construção conjunta de soluções. Mas a própria posição perante os problemas apresenta, segundo estes autores, variantes ainda que coincidam na sua identificação, com os técnicos a focarem-se em “questões pragmáticas e tecnológicas” e o público a privilegiar questões direcionadas para a “amenização” dos problemas (p. 76), ou seja, os primeiros focam-se em soluções propositivas enquanto os segundos procuram minimizar os problemas.

Mas as escolhas nem sempre se agrupam em função do nível de conhecimento técnico de cada indivíduo, muitas vezes os valores e a identidade agrupam as escolhas de outra forma, superando a diferença entre peritos e público (Xenias & Whitmarsh, 2013, p. 80). A profundidade do conhecimento científico nem sempre é o fator determinante na escolha, uma vez que valores relacionados com a cultura intrínseca do indivíduo podem superar o nível de informação que possui no processo de decisão.

A divergência entre público e peritos tem implicações tanto no desenvolvimento de processos participados como ao nível do risco inerente ao processo de decisão (Xenias & Whitmarsh, 2013). As diferenças na abordagem aos problemas, na racionalização das questões e na linguagem que utilizam podem representar uma oportunidade se devidamente confrontadas e negociadas num processo deliberativo, minimizando o risco de contestação dos resultados. Estas diferenças justificam um maior envolvimento do público no processo de decisão, assegurando um nível superior de aceitabilidade dos resultados, necessário para a implementação das políticas. Quando as soluções são desenhadas apenas por peritos, que ao analisarem a problemática não se aproximam da sensibilidade do público, as políticas públicas mantém uma relação top-down e o risco de gerar contestação (Xenias & Whitmarsh, 2013). Os técnicos e os políticos salvaguardam os interesses políticos e económicos e o público garante a adequação à realidade local (Innes & Booher, 2004), pelo que da combinação de todos resulta uma ampliação no espectro de abordagem aos problemas e do conhecimento disponível. O envolvimento dos cidadãos no processo de decisão das políticas públicas, incorporando a sua perspetiva e conhecimento, aumenta a legitimidade dos resultados, minimizando conflitos (Rydin & Pennington, 2000). Segundo Burby (2003) a minimização do risco resulta da aprendizagem dos “problemas que as comunidades e atores

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enfrentam, da clarificação e adaptação dos objetivos às circunstâncias locais, novas perceções e sugestões para instrumentos de políticas e ideias para as soluções de implementação que refletem os valores locais” (Burby, 2003, p. 35).

Xenias & Whitmarsh (2013) propõem que os técnicos, em vez de desenharem a solução, deveriam elencar as alternativas que depois seriam confrontadas com a opinião do público, garantindo-se a qualidade técnica da abordagem e a minimização da discrepância face à posição do público, vocacionando esta abordagem para situações em que se exige uma resposta urgente e uma ação assertiva. Os técnicos deixam de deter o poder de decisão passando a ser encarados como facilitadores de um processo deliberativo, assegurando sinergias entre especialistas e cidadãos, e realizando a síntese final (Fung & Wright, 2001).

Em problemas complexos o recurso ao conhecimento local é mais assertivo que respostas meramente técnicas porque os cidadãos não se encontram formatados nas soluções, possuindo uma diversidade de experiências que os torna mais operativos que os peritos para além de aumentar a responsabilização e diminuir a burocracia do processo de decisão (Fung & Wright, 2001).

O conhecimento local constitui um capital que deveria ser incorporado nos processos de decisão, mas revela-se necessária uma mudança de procedimentos que acolha o público no processo, com vista a possibilitar a produção de conhecimento conjunta e a aprendizagem mútua.