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Considerações adicionais sobre o interpretante

Capítulo 3: O conceito de representação: a relação triádica

3.7 Considerações adicionais sobre o interpretante

A teoria dos interpretantes de Peirce é uma das mais longas de suas teorias. Neste momento, apenas elucidamos a função lógica desempenhada pelo terceiro correlato da tríade semiótica para consideração da informação no capítulo seguinte, uma vez que há uma estreita relação entre informação e interpretante, como era de se esperar, seja do ponto de vista lógico- formal, semiótico ou metafísico. Poderíamos tratar do interpretante de várias maneiras. Entre os estudiosos de Peirce, ainda não há consenso sobre a teoria dos interpretantes, sobretudo com relação a consideração dos interpretantes emocional, energético e lógico (ver seção As duas tricotomias: um visão de conjunto, Santaella, 2000, p. 81-87). Seriam eles somente formas de interpretantes dinâmicos, isto é, o efeito causado pelo signo poderia ser uma emoção na contemplação, uma ação habitual ou um pensamento? Ou poderia o interpretante imediato ser a potencialidade emocional, energética e lógica? Debate ainda importante, não responderemos tais questões neste texto, mesmo porque ainda não temos uma concepção consolidada a respeito dessa tricotômica. Passemos então a definição desses interpretantes, em cujo texto Peirce parece indicar que a divisão dos interpretantes em emocional, energético e lógico pertenceria ao objeto dinâmico, uma vez que os define como o efeito significado do signo. Segundo Peirce:

O problema do que seja o “significado” de um conceito intelectual somente pode ser resolvido através do estudo dos interpretantes, ou propriamente dos efeitos significados dos signos. Verificamos que são de três classes gerais com algumas subdivisões importantes. O primeiro efeito significado de um signo é o sentimento por ele provocado. Na maior parte das vezes, existe um sentimento que interpretamos como prova de que compreendemos o efeito específico de um signo, embora a base da verdade neste caso seja frequentemente muito leve. Este “Interpretante emocional”, como o denomino, pode importar algo mais do que o sentimento de recognição; e, em alguns casos, é o único efeito significado que o signo produz [...] Se um signo produz ainda algum efeito desejado, fa-lo-á através da mediação de um interpretante emocional, e tal efeito envolverá sempre um esforço. Denomino-o “Interpretante energético”. O esforço pode ser muscular [...], mas é usualmente um exercer do mundo interior, um esforço mental. Não pode ser

nunca o significado de um conceito intelectual, uma vez que é um ato singular [...] Mas que espécie de efeito pode ainda haver? 247 (CP, 5.475, 1907).

[...] Vou denominá-lo “interpretante lógico”. [...] Devemos dizer que este efeito pode ser um pensamento, o que quer dizer, um signo mental? Sem dúvida pode sê-lo; só que se esse signo for de natureza intelectual – como teria de ser – tem de possuir um interpretante lógico; de forma que possa ser o derradeiro interpretante lógico do conceito. Pode provar-se que o único efeito mental, que pode ser assim produzido e que não é um signo, mas é de aplicação geral, é uma mudança de hábito; entendendo por mudança de hábito uma modificação nas tendências de uma pessoa para a ação, que resulta de exercícios prévios da vontade ou dos atos, ou de um complexo de ambas as coisas248249 (CP, 5.476, 1907).

Primeiro é necessário compreender a relação entre o interpretante lógico e o pensamento como singularidade e esse é um dos pontos, entendemos, em que a consideração da tricotomia emocional-energético-lógico não pode ser mero individual como é o caso do interpretante dinâmico. Isso porque o interpretante lógico é pensamento generalizado como efeito do signo, isto é, é hábito, regra geral, significando que sob determinadas ações resultantes da determinação de objetos, o que se espera são resultados de ordem geral. O que a lei determina pode ser também de natureza geral, mas que serão significados por meio de réplicas, individuais sob as garras da lei.

Gostaríamos de deixar a discussão do hábito para posterior colocação da hipótese principal deste texto: a de que a matéria é classe natural resultado de um processo informacional. Por isso, o hábito foi considerado, quando da consideração dos aspectos ontológicos da realidade, como rede lógica cuja natureza possui identidade com a natureza da lei. O que

247 […] the problem of what the "meaning" of an intellectual concept is can only be solved by the study of the

interpretants, or proper significate effects, of signs. These we find to be of three general classes with some important subdivisions. The first proper significate effect of a sign is a feeling produced by it. There is almost always a feeling which we come to interpret as evidence that we comprehend the proper effect of the sign, although the foundation of truth in this is frequently very slight. This "emotional interpretant," as I call it, may amount to much more than that feeling of recognition; and in some cases, it is the only proper significate effect that the sign produces. Thus, the performance of a piece of concerted music is a sign. It conveys, and is intended to convey, the composer's musical ideas; but these usually consist merely in a series of feelings. If a sign produces any further proper significate effect, it will do so through the mediation of the emotional interpretant, and such further effect will always involve an effort. I call it the energetic interpretant. The effort may be a muscular one, as it is in the case of the command to ground arms; but it is much more usually an exertion upon the Inner World, a mental effort. It never can be the meaning of an intellectual concept, since it is a single act, [while] such a concept is of a general nature. But what further kind of effect can there be?

248 In advance of ascertaining the nature of this effect, it will be convenient to adopt a designation for it, and I will

call it the logical interpretant, without as yet determining whether this term shall extend to anything beside the meaning of a general concept, though certainly closely related to that, or not. Shall we say that this effect may be a thought, that is to say, a mental sign? No doubt, it may be so; only, if this sign be of an intellectual kind -- as it would have to be -- it must itself have a logical interpretant; so that it cannot be the ultimate logical interpretant of the concept. It can be proved that the only mental effect that can be so produced and that is not a sign but is of a general application is a habit-change; meaning by a habit-change a modification of a person's tendencies toward action, resulting from previous experiences or from previous exertions of his will or acts, or from a complexus of both kinds of cause.

importa, no momento, para compreensão do interpretante lógico, é que o hábito, como regra adquirida evolutivamente, é um padrão de ação, que será repetido no futuro quando certas condições o chamarem. Isso implica dizer que o hábito é uma ação possível e, como tal, uma lei: os interpretantes energéticos e emocionais têm um fim estabelecido, mas os lógicos são potencialmente repetíveis, cuja terminação é indeterminada, o que não significa que não poderá acontecer. Exemplo típico seria a da extinção de uma espécie, com a destruição da forma.

Terminemos esse capítulo com a consideração de três interpretantes lógicos, cuja discussão deixamos em aberto para compreensão da mudança do hábito e do processo de evolução da forma.

Primeiro: conjecturas construídas por desempenhos voluntários do mundo interior, imaginando-se diferentes situações e linhas de conduta alternativas. Modificando-se levemente as conjecturas, elas serão mais cuidadosamente definidas e, nesse processo, atingimos o segundo interpretante lógico de nível inferior. Notando-se certas relações entre as conjeturas modificadas “somos levados a generalizações e a abstrair as formas das conjeturas as quais constituirão O segundo interpretante lógico de nível superior” (MS 318, pp. 169-70). Este interpretante constitui “o último efeito mental próprio e normal do signo tomado em si mesmo” (p. 171). Ele é identificado com o significado que é descrito como um “hábito de ação interior imaginativa”250.

O Interpretante lógico último seria a efetiva mudança de hábito.