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Matéria como classe natural e sua formalidade

Capítulo 5: Matéria como hábitos inveterados

5.3 Matéria como classe natural e sua formalidade

Resta considerar as relações físicas de ideias gerais. Pode ser bom aqui refletir que, se matéria não tem existência senão como especialização da mente, segue que o que quer que afete matéria de acordo com leis regulares é a própria matéria. Mas toda mente está direta ou indiretamente conectada com toda matéria, e age de modo mais ou menos regular; de modo que toda mente mais ou menos participa da natureza da matéria. Portanto, seria um erro conceber os aspectos psíquicos e físicos da matéria como dois aspectos absolutamente distintos. Olhando uma coisa de fora, considerando suas relações de ação e reação com outras coisas, ela aparece como matéria. Olhando-a por dentro, visualizando-a por meio de ser caráter imediato como sentimento, ela aparece como consciência. Essas duas maneiras de ver são combinadas quando nós lembramos que leis mecânicas não são nada além de hábitos adquiridos, como todas as regularidades da mente, incluindo a tendência de adquirir hábitos, ela mesma; e que esta ação de hábito não é nada além de generalização, e generalização não é nada além de propagação de sentimentos366.

No estudo das causas finais, apresentamos algumas descrições realizadas por Hulswit (2002). Na ocasião, explicitamos que a constituição lógica, que é a parte interna de uma classe, é resultado de um processo inteligente de causa final que constitui o ser. Essa constituição lógica nada mais é do que certa estrutura geral, que pode ser “visualizada” por meio de diagramas; como geral, ela é contínua e nenhum grupo possível de indivíduos pode alcançar a completude de seu ser lógico.

No entanto, quando falamos em matéria, parece que o processo não é o mesmo, uma vez que nos remetemos a um individual, singular, relativo à segunda categoria e à causa eficiente, talvez por herança de uma concepção substancial aristotélica. Como então explicitar a matéria como produto que emerge dessa dinâmica informacional dos signos configurados por meio de causa final?

366 It remains to consider the physical relations of general ideas. It may be well here to reflect that if matter has no

existence except as a specialization of mind, it follows that whatever affects matter according to regular laws is itself matter. But all mind is directly or indirectly connected with all matter, and acts in a more or less regular way; so that all mind more or less partakes of the nature of matter. Hence, it would be a mistake to conceive of the psychical and the physical aspects of matter as two aspects absolutely distinct. Viewing a thing from the outside, considering its relations of action and reaction with other things, it appears as matter. Viewing it from the inside, looking at its immediate character as feeling, it appears as consciousness. These two views are combined when we remember that mechanical laws are nothing but acquired habits, like all the regularities of mind, including the tendency to take habits, itself; and that this action of habit is nothing but generalization, and generalization is nothing but the spreading of feelings.

Segundo Hulswit (2002, p. 123), para Peirce a constituição dos elementos químicos não se dá de maneira hierárquica, como algumas outras classes naturais, como as espécies, estudadas pela biologia. Nesse último caso, a hierarquia se dá por meio de certa dependência entre os indivíduos que se desenvolvem por meio de outros e, consequentemente, por formas que se desenvolvem por meio de outras, constituindo uma cadeia hierárquica. No caso da química, os elementos parecem ser independentes entre si, indicando que o tipo de agrupamento é periódico. Esse fato leva Peirce à conclusão de que os elementos químicos não se originaram por meio de outras formas anteriores no sentido hierárquico.

Como vimos, as classificações naturais ocorrem de acordo com a estrutura. Quando pensamos nos elementos da tabela periódica, se estamos considerando a física anterior às descobertas quânticas, então parece que os elementos não têm estrutura interna. Tal constatação conduziu Peirce à consideração de que somente as estruturas externas devem ser levadas em consideração, ou seja, as estruturas formadas a partir das relações estabelecidas entre os elementos químicos. Na época, Peirce definiu estrutura externa como sendo “[...] a estrutura de suas possíveis composições”367 (CP, 1.289, 1905, tradução nossa; ver também Huslwit, 2002,

p. 124). Ora, como sabemos, a estrutura externa entre os elementos químicos era constituída pelas suas valências.

No entanto, a não decomposição dos elementos químicos foi refutada no século passado. Consciente disso, no entanto, Hulswit (2002, p. 124, tradução nossa) vem nos dizer:

Mas, de certo modo, a ideia de que os elementos possuem uma estrutura interna que determina sua valência e comportamento, apenas confirma a consistência da visão de Peirce de que (a) a classificação natural é a classificação de acordo com a causa final dos objetos classificados, e que (b) classificação natural é a classificação de acordo com a estrutura. Uma estrutura externa dificilmente é uma causa final dos objetos classificados, porque depende da existência desses objetos368.

Essa parece ser a resposta, ou pelo menos o início dela, a respeito da questão levantada na introdução concernente ao realismo estrutural epistemológico e às relações entre objeto e estrutura. Nesse momento do texto, Hulswit (2002, p. 124-126, tradução nossa) tenta explicitar “[...] que a estrutura interna pode ser tal causa final [dos elementos químicos]369”. Vejamos.

367 […] the structure of its possible compounds.

368 But in a way, the idea that elements do have an internal structure which determines their valency and behavior,

only confirms the consistency of Peirce’s view that (a) natural classification is classification according to the final cause of the objects classified, and that (b) natural classification is classification according to structure. An external structure hardly be a final cause of the objects classified, because it depends itself upon the existence of these objects.

O autor começa explicitando porque estruturas internas não podem ser nunca consideradas causas eficientes: (i) “enquanto causas eficientes são sempre eventos concretos ou fatos, estruturas internas são sempre gerais, pois elas são manifestadas em uma multitude de eventos”370. Ora, se a causa final compõe a estrutura interna dos elementos químicos, então a

configuração lógica que constitui tais elementos é geral, o que torna a matéria um geral para os propósitos deste texto – a função de onda é um ‘geral’; (ii) “porque causação eficiente não é direcionada a um fim em qualquer modo, ela não pode explicar porque estruturas atômicas são responsáveis pela tendência dos átomos a se comportar de uma maneira regular”371 ; (iii)

“enquanto causas eficientes somente induzem uma ou mais linhas de causação mecânica em um momento singular, a estrutura atômica continuamente induz eventos a se conformam a um padrão definido”372. Ora, dirá o autor, uma vez que Peirce só reconheceu duas causas, segue

que “na medida em que a estrutura interna tem algum tipo de influência causal, ela deve necessariamente ser uma causa teleológica.” Assim, conclui: “De fato, a estrutura interna tem todas as características da causa final: (a) é geral, (b) explica uma tendência a se comportar de maneira regular e (c) induz continuamente processos de causas a se ajustarem a um padrão definido”373 (ibidem, p. 125, tradução nossa).

O autor (ibidem, p. 126, tradução nossa) então resume:

[…] Os elementos químicos e os compostos químicos são classificados, respectivamente, de acordo com suas estruturas atômicas e moleculares. Como Peirce definiu classificações naturais como aquelas que foram feitas de acordo com a causa final a que os membros da classe devem sua existência, pode-se concluir que ele pensou que a causa final do átomo ou da molécula fosse expressa em sua estrutura interna. Na medida em que essas estruturas são expressas em entidades individuais, elas não são universais nem particulares. Mas como estruturas, elas são universais. Segundo Peirce, as estruturas químicas são causas finais, porque (a) são gerais (e, portanto, possibilidades, não realidades) e porque (b) explicam as tendências de comportamento de acordo com padrões definidos374.

370 [...] whereas efficient causes are always concrete events or facts, internal structure are always general, for they

are displayed in a multitude of events.

371 [...] because efficient causation is not directed toward an end in any way, it cannot explain that atomic structures

are responsible for the atom’s tendency to behave in a resulgar way.

372 [...] whereas efficient causes only induce one or more lines of mechanical causation at one singular moment,

the atomic structure continually induces events to conform to a definite pattern.

373 “inasmuch as the internal structure has some kind of causal influence, it must necessarily be teleological

causation. Indeed, the internal structure has all the characteristics of final causation: (a) it is general, (b) it explains a tendency to behave in a regular way, and (c) it continuously induces processes of causations to conform to a definite pattern.”

374 […] the chemical elements and the chemical compounds are classified, respectively, according to their atomic

and their molecular structures. Because Peirce defined natural classifications as those that were made according to the final cause to which the members of the class owe their existence, it may be concluded that he thought the final cause of the atom or the molecule to be expressed in their internal structure. Inasmuch as these structures are expressed in individual entities, they are neither universal nor particular. But qua structures, they are universal.

O papel executado pela terceira categoria é crucial para determinar a natureza formal da matéria. O vocabulário relativo à causa final pode ser relacionado com o recurso de insights semióticos de Peirce levando em consideração a distinção type/token/tone e o princípio geral de replicação de legisignos em sinsignos que os instanciam. Hulswit refere-se aos últimos ao distinguir estruturas expressas em entidades individuais de estruturas em geral. Ele vê tais estruturas como “universais”, mas é um recurso não necessário quando estamos considerando tendencialidades que são evolucionárias. Como sabemos, gerais são legisignos simbólicos. Símbolos minimamente combinam qualisignos icônicos a sinsignos indiciais. Quando um geral é replicado, ele se instancia justamente em tal conjunção, que, por sua vez, atualiza o possível que caracteriza esse geral. Como isso se aplica à concepção atômica atual é objeto da próxima seção375 . Por ora, respondemos parte da questão sobre a natureza formal da matéria,

concebendo-a como uma estrutura lógica, classe natural, que constitui os elementos químicos, resultantes de uma causalidade final – estrutura interna – na qual o crescimento de informação se faz elemento necessário.

No entanto, dissemos que a matéria é uma classe natural indiscriminadamente. Pensemos sobre o que ocorria na época de Peirce: a classificação dos elementos, com o advento da tabela de Mandeleev (1869). Peirce ficou intrigado com os padrões distintos dentro daquela classificação (MS, 1039) e as iconicidades dos comportamentos entre as combinações distintas de elementos que possuíam estruturas formais similares. Por isso, importante é ter em mente a analogia crucial que Peirce faz entre a valência dos elementos químicos e a valência dos elementos do Phaneron (EP2: 362-365, 1906, tradução e grifos nossas):

Como, de uma maneira geral, o Diagrama dos Grafos Existenciais [376 ]

representa o modo de estrutura do Phaneron? [...] Representa a estrutura do Phaneron como a de um composto químico. Na representação imaginada do Phaneron [...], no lugar dos pontos ordinários, nos quais os grafos não estão representados como compostos, teremos Instâncias dos Elementos

According to Peirce, chemical structures are final causes, because (a) they are general (and therefore possibilities, not actualities), and because (b) they explain the tendencies to behave according to definite patterns.

375 Seção que aludimos a teoria de Peirce como uma filosofia capaz de interpretar os dados atuais de mecânica

quântica. Para um melhor aprofundamento nas diferentes interpretações atuais, sugerimos o livro Conceitos de física quântica (Pessoa Jr., 2006).

376 Peirce refere-se aos Grafos existenciais. Para uma melhor compreensão do diagrama desses grafos, sugerimos

o texto Grafos existenciais e Topologia (Pires e Silveira, 2014), apresentado nos seminários do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), no grupo sobre Auto-organização, disponível em https://www.cle.unicamp.br/index.php/sites/default/files/Paper_Lauro&Jorge.pdf, acesso 08/07/2020. Diz os autores: “Os recursos fundamentais para a construção de um sistema formal com tal potencialidade encontram-se disponível na obra de Charles S. Peirce, quando a partir das partes Alfa (α) e Beta (β) de sua teoria dos Grafos Existenciais (GEs), com as quais já se tornara possível a boa formação de uma Lógica das Proposições, dos Predicados e dos Relativos, com a devida quantificação do Universo dos sujeitos de predicação, e na parte Gama (γ) de sua teoria, trabalhando com Modalizadores, torna-se possível ao sistema formal (a rigor, pré-lógico e, mais propriamente, “tonal” (cf. CP. 4.5371 )) construir diagramas e neles deduzir possibilidades formais aplicáveis semioticamente ao domínio fenomenológico das meras qualidades de sentimento (qualities of feeling).”

absolutamente Indecomponíveis do Phaneron (supondo que ele tenha algum constituinte último, que, é claro, continua a ser visto, até chegarmos à questão de sua matéria; e enquanto estivermos, atualmente, discursando apenas sobre suas formas possíveis, seus seres podem ser presumidos), que [são] análogos próximos o suficiente dos átomos no gráfico químico da "Fórmula Racional". Cada grafo elementar, como cada elemento químico, tem sua valência definida - número de ligações [pegs] na periferia de sua instância - e as linhas de identidade (que nunca se ramificam) serão bastante análogas às ligações químicas. Isso é semelhança suficiente. É verdade que nos Grafos Existenciais temos os Cortes, aos quais nada no Grafo químico corresponde. Ainda não, pelo menos. Agora estamos apenas começando a rasgar o véu que até então envolvia a constituição dos corpos proteicos; mas o que quer que eu possa conjecturar sobre essas vastas supermoléculas, algumas contendo quinze mil moléculas, se parece provável por razões químicas ou não, elas contêm grupos de polaridade oposta aos resíduos fora desses grupos e se aparecem ou não submoléculas polares semelhantes dentro dos complexos ácidos inorgânicos, é certamente muito cedo para levar em consideração aqueles que ajudam na exposição da constituição do Phaneron. Se tais ideias forem sólidas como são, de fato, vaporosas, devem ser deixadas de lado até que tenhamos aprendido exaustivamente todas as lições dessa analogia entre a constituição do Phaneron e a dos corpos químicos que consiste tanto em um quanto em outro sendo composto por elementos de valência definida377.

Voltaremos neste tópico para mostrar como as relações entre o número de ligações na periferia ou valência na instância dos elementos químicos se efetuam de maneira icônica e indicial. Para isso, convém, antes, tratar da matéria a partir da terceira categoria e de sua instanciação.