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Sentimentos vivos propagados: a formação do hábito

Capítulo 1: A origem do sistema: a gênese do hábito

1.3 Sentimentos vivos propagados: a formação do hábito

Até o momento, apresentamos uma hipótese lógica sobre como teria o cosmos vindo a ser. De uma explicitação geral sobre o surgimento das qualidades procedentes de um nada absoluto e, a partir dessas, toda a realidade, algumas perguntas mais específicas ainda são pertinentes. A descrição sobre a gênese do hábito ainda apresenta lacunas em relação à maneira como o processo possa ter se dado. Como é possível que o aparecimento de qualidades se mantivesse insistente por um tempo se não havia, do ponto de vista lógico, a plena constituição do tempo? Na tentativa de explicitar como a matéria pode ser vista de um ponto de vista interno, isto é, por meio das relações lógico-formais que a constituem, seus hábitos característicos, a pergunta sobre a gênese e funcionamento desses hábitos é imperativa. As respostas a perguntas desse tipo direcionam nossa atenção à noção de acaso e de hábito (de sua gênese e evolução).

83 Let me say, by the way, that there is in the logical law this difference between the absolutely first antecedent and

the absolutely last consequent, both of which are unattainable limits. The last consequent is the very reality itself. That is our very conception of reality, the essence of the word, namely, what we should believe if investigation was carried to its furthest limit where no change of belief further was possible. That is of the nature of an infinite, a true singularity of the logical continuum differing toto caelo from every intermediate step however near to it. I mean that it thus differs, not merely in its logical relations as leading to no consequent other than itself, but also and more particularly, as being a radically different kind of consciousness, a consciousness which is the very reality itself and no mere image seen per speculum in aenigmate. But the absolutely first antecedent is simply the blank ignorance, the zero of knowledge, although in its logical relations it is singular in leading to nothing, as a needle precisely balanced on its point will never fall, yet as a state of mind it differs indefinitely little from other states near it. Hence, though a limit as to the advance of logical development, it is not so as a mode of consciousness.

Inicialmente, convém retomarmos alguns pontos relevantes para os propósitos que se seguem: (i) do que foi apresentado sobre a gênese do cosmos, lembremos que o continuum de qualidades se “espalhou” em um caos de sentimentos “[...] em reação um com o outro, e assim em um tipo de existência”84 (CP, 6.199, 1898, tradução nossa); (ii) no que diz respeito

especificamente à sua natureza, lembremos que, segundo Peirce (CP, 1.306, 1905, tradução nossa), sentimento é “[...] aquele tipo de consciência que não envolve análise, comparação ou qualquer outro processo, nem consiste no todo ou em parte de qualquer ato pelo qual uma extensão de consciência é distinguida de outra”85; (iii) na medida em que os sentimentos são

generalizados, sua intensidade vai se perdendo numa névoa obscura que caracteriza a abstração como praticamente oposta à intensidade relativa ao aparecimento da qualidade por meio do sentimento; (iv) o item anterior significa que a qualidade pode ser representada em um processo contínuo, no qual faz-se necessária a consideração da generalidade como possibilidade e como consequência desse mesmo continuum lógico representativo.

Essas foram algumas das explicitações gerais apresentadas na seção anterior, quando da consideração da origem da realidade, tal qual concebida por Peirce. Porém, como esses sentimentos, em estado ainda caótico, poderiam ter se relacionado? Como se dá a relação entre essas consciências? Como elas reagem umas às outras? É possível a sua generalização? Como essa generalização se efetua, de fato?

No que concerne à resposta a essa última pergunta, na ocasião dissemos: “a origem do funcionamento de tal tendência generalizadora é pergunta necessária. Como vimos, de uma potencialidade absoluta resultou arbitrariamente uma potencialidade qualitativa ilimitada, estado de determinação em relação ao anterior. Ora, na medida em que, por força do acaso, de uma potencialidade qualitativa, que formava um contínuo homogêneo, gerou-se um caos de sentimentos (qualidades), essas qualidades começaram a se chocar e a reagir umas em relação às outras, gerando a existência: a partir da tendência natural de obedecer a regras, tais qualidades em conflito continuaram por algum tempo nesse estado de relação, gerando hábitos”. Isso significa que, até o presente momento, concluímos que a tendência à generalização estava inscrita na natureza da potencialidade qualitativa e a resposta à última pergunta é, então, justamente esta: a partir da tendência natural de obedecer a regras. A partir de agora verificaremos a sua suficiência.

84 […] in reaction upon one another, and thus into a kind of existence.

85 […] that kind of consciousness which involves no analysis, comparison or any process whatsoever, nor consists

No texto The law of mind, Peirce apresenta o funcionamento do cosmos, dando ênfase a seu aspecto lógico-formal e é justamente a partir deste caráter lógico da realidade que significaremos a palavra mente, sem com isso atribuí-la exclusivamente à humana: mente é, assim, todo processo com capacidade de mudança. Nesse texto, Peirce faz uma análise para mostrar o que a lei da mente é, explicitando como ideias (desde sentimentos, consciências primeiras, até mesmo às ideias mais abstratas presentes nas teorias científico-filosóficas) tendem a se propagar em um continuum e a afetar umas às outras que estão entre si ligadas por uma relação característica de afetibilidade.

Convém sugerir alguns apontamentos sobre o que significa aparecimento momentâneo de uma qualidade: a consciência imediata se faz presente em um intervalo de tempo infinitesimal. Em relação a uma consciência posterior, aquela somente pode ser infinitesimalmente passada, significando que seu passado é menos passado que qualquer instante passado que a ela possa ser atribuído. Portanto, diz Peirce, o presente é conectado com o passado por uma série de passos infinitesimalmente reais. Assim, o sentimento é consciência imediata a partir de um intervalo de tempo infinitesimal. Neste caso, o conteúdo da consciência identifica-se com a própria consciência.

Já sabemos o que significa estar presente em forma de sentimento. Imagine-se então um caos desses sentimentos infinitesimalmente presentes - uma analogia pode ser feita com o que hoje concebemos como flutuações quânticas (criações espontâneas e aniquilações de partículas virtuais a partir da energia do vácuo [quântico]”)86, como diz Fernández (2014, p. 87, tradução

nossa). Mas há, além disso, uma percepção direta da sequência temporal desse intervalo infinitesimal, não em forma de reconhecimento, diz Peirce, mas na forma de sentimento imediato. Assim, dados dois intervalos subsequentes, o começo do segundo intervalo é o meio do primeiro e o fim do primeiro é o meio do segundo. Em outras palavras, há uma espécie de “fusão” das duas consciências imediatamente presentes, na medida em que a junção de dois intervalos infinitesimais é um intervalo infinitesimal e, portanto, pode-se ter uma percepção imediata dele. Mas, além disso, essa fusão que emerge desses aparecimentos momentâneos identifica-se com uma percepção mediata ou, como diz Peirce, inferencial, da relação dos quatro instantes. Essa percepção mediata está objetivamente propagada sobre os quatro instantes e subjetivamente – isto é, ela mesma como sujeito de duração – completamente compreendida no segundo momento. Utilizando as palavras de Peirce: ela é imediatamente

86 “We can [...] identify quantum fluctuations (the spontaneous creations and annihilations of “virtual particles”

out of vacuum energy) with the randomly created “flashes” that Peirce envisioned as randomly emerging from the primeval vacuum.”

percebida em todo o intervalo, porque infinitesimal, mas mediatamente percebida nos dois últimos terços dele.

Nesse sentido, o presente não é senão em função do passado e do futuro: o presente é metade passado e metade do que está para vir e, como tal, um fluxo contínuo. Essa conclusão nos permite aludir àquela característica intrínseca da lei da mente: a irreversibilidade do tempo, definido do passado para o futuro. Além disso, em relação a qualquer sentimento individual, pode-se dizer que ou ele é afetado por outro a ele anterior ou é ele mesmo aquele que tem a tendência de outro afetar, significando, portanto, que o presente é afetado pelo passado, mas não pelo futuro.

Ora, mas se entre dois estados há um estado que sempre é afetado por um e afeta o outro, então há, como na densidade e completude dos números reais, uma série inumerável de estados afetando um ao outro. E se entre um estado inicial e qualquer outro estado dado (segundo estado) que pode ser alcançado inserindo-se estados entre eles, esses estados não imediatamente afetando ou sendo afetados pelos estados extremos, então o segundo estado é afetado pelo primeiro, no sentido que nele o outro está ipso facto presente, embora em grau reduzido. Mas se é assim, então todo estado de sentimento é afetável por todo estado anterior.

Aí reside uma das respostas, inclusive, para explicitação do surgimento do tempo como terceiridade real. A continuidade temporal necessariamente pressupõe uma continuidade que não é a dele mesmo: sendo a universal forma de mudança, para usarmos os termos de Peirce, tempo não pode ser real a menos que exista algo que sofre mudança. Eis a resposta de Peirce: para sofrer mudança contínua no tempo deve haver uma continuidade de qualidades mutáveis. Sobre essas qualidades, no entanto, diz Peirce (CP, 6.132, 1892, tradução nossa):

Da continuidade de qualidades de sentimento intrínsecas, podemos agora formar somente uma concepção fraca. O desenvolvimento da mente humana praticamente extinguiu todos sentimentos, exceto alguns tipos esporádicos, som, cores, cheiros, calor etc., que agora parecem estar desconectados e desiguais. No caso das cores, há uma propagação tridimensional de sentimentos. Originalmente, todos sentimentos podem ter sido conectados da mesma forma, e a hipótese é que o número de dimensões era infinito. Pois desenvolvimento essencialmente envolve uma limitação de possibilidades, mas dado um número de dimensões de sentimento, todas as variedades possíveis são obtiveis variando as intensidades de diferentes elementos. Portanto, tempo supõe logicamente uma faixa contínua de intensidade no sentimento. Segue, então, da definição de continuidade, que quando qualquer tipo particular de sentimento está presente, um continuum infinitesimal de todos sentimentos que diferem infinitesimalmente daquele está presente87.

87 Of the continuity of intrinsic qualities of feeling we can now form but a feeble conception. The development of

the human mind has practically extinguished all feelings, except a few sporadic kinds, sound, colors, smells, warmth, etc., which now appear to be disconnected and disparate. In the case of colors, there is a tridimensional spread of feelings. Originally, all feelings may have been connected in the same way, and the presumption is that

Há alguns pontos importantes de serem discutidos. Primeiro, nossa hipótese geral sobre a tendência à aquisição de hábitos estar inscrita na natureza da qualidade é aí confirmada, já que é a continuidade necessária à própria continuidade temporal, pressupondo uma possibilidade de inteligibilidade intrínseca do sentimento. Segundo, reside aí a resposta à pergunta da sequência lógica anterior à sequência temporal, nem tão facilmente compreendida: como dissemos acima, ao apresentar as considerações de Hookway a respeito da ordem lógica, a aquisição de hábito (o tempo é um hábito) é uma forma de inferência [...]. Acabamos de mostrar em que sentido da fusão de dois sentimentos infinitesimalmente presentes emerge uma consciência mediata ou inferência que faz uma síntese daqueles sentimentos. O tempo é resultado de uma síntese infinitesimal entre sentimentos imediatamente presentes que guardavam, em sua própria natureza, um gérmen de continuidade e abertura à generalização. Terceiro, tomemos a frase peirceana: na natureza desenvolvimento essencialmente envolve uma limitação de qualidades. Eis o sentido do termo determinação de Peirce, embora esteja este termo longe de qualquer concepção de um processo meramente mecânico que possa seguir consequentemente de seu significado. Quarto, a gênese da intersecção de qualidades que constituirão os objetos da experiência perceptível é aí colocada indiretamente: mas dado um número de dimensões de sentimento, todas as variedades possíveis são obtiveis variando as intensidades de diferentes elementos. Quinto, e mais importante, tempo pressupõe logicamente a continuidade da intensidade do sentimento. Assim, quando um sentimento se faz presente, há outros sentimentos infinitesimalmente presentes que diferem infinitesimalmente daquele; e esse fato se segue diretamente da definição de continuidade. Assim, pode-se dizer que sentimento possui continuidade intensiva.

Mas sentimento também possui continuidade extensiva. Devido à continuidade intrínseca do espaço, deve haver, igualmente como no caso do tempo, uma vizinhança imediata de sentimento, na qual residem sentimentos infinitesimalmente próximos daquele. A esse respeito, dirá Peirce (CP, 6.134, 1892, tradução nossa) que “[...] sem isso, acredito que teria sido impossível que mentes externas umas às outras tivessem se coordenado [...]”88. E aí reside

uma das respostas à questão da afetibilidade espaço-temporal dos sentimentos e, sobretudo, a

the number of dimensions was endless. For development essentially involves a limitation of possibilities. But given a number of dimensions of feeling, all possible varieties are

obtainable by varying the intensities of the different elements. Accordingly, time logically supposes a continuous range of intensity in feeling. It follows, then, from the definition of continuity, that when any particular kind of feeling is present, an infinitesimal continuum of all feelings differing infinitesimally from that is present.

88 Without this, I believe it would have been impossible for minds external to one another ever to become

maneira como, naquele caos, os sentimentos reagiram entre si, coordenando-se. Espaço- temporal porque enfatizamos os aspectos que constituem os objetos existentes e, como consequência, a matéria, mas outras continuidades relativas ao sentimento poderiam ser objetos de análise.

Aquela consciência mediata, fusão inferencial de sentimentos imediatamente presentes, constituiu-se, segundo Peirce (CP, 6.135, 1892), por meio de três elementos. O primeiro é o próprio sentimento em si mesmo, em seu caráter contínuo; o segundo é a energia ou intensidade com a qual esse sentimento afeta outro que, segundo o autor, é infinita em relação à sensação imediata, mas finita e sempre relativa no que diz respeito ao seu caráter recente com o passado. O terceiro, é a tendência de um sentimento de trazer, com ele, outros sentimentos.

Assim, qualquer recorte de intervalo finito de tempo contém uma série inumerável de sentimentos imediatamente presentes. Ao fundirem-se em associação, por meio do processo de contínua propagação, o resultado é uma síntese que constitui uma ideia geral; aqui, pela primeira vez, aludimos à identidade dessa ideia geral com o hábito gerado por meio da propagação de sentimentos naquele caos de qualidades.

Essa ideia geral é, também, sentimento vivo, uma vez que, como consciência, é infinitesimal em duração, abrangendo partes inumeráveis e, assim, está imediatamente presente. Além disso, diz Peirce, no mesmo texto: “na falta de fronteira [clara], uma vaga possibilidade de mais do que está presente é diretamente sentida”. Esse aspecto nos mostra que, embora aquele sentimento, como atualização de uma qualidade, difira infinitesimalmente de outro, as fronteiras entre eles não são completamente rígidas, fechadas, mas logicamente abertas como possibilidades, como fluxos contínuos; este é um exemplo que justifica com clareza o motivo pelo qual a concepção de continuidade de Peirce divergiria necessariamente daquela de Cantor: ora, um ponto não é se não a atualização de um geral contínuo como possibilidade. É, também, por isso, que as leis que regem o conceito e hábito não podem se caracterizar pela coleção de individuais que estão sob o seu domínio.

Falemos um pouco sobre a insistência de uma ideia, uma vez que acreditamos não haver problemas com o fato de ideias afetarem umas às outras. Do conceito de continuidade segue que a insistência de uma ideia passada, em relação a uma ideia presente, será sempre uma quantidade que é cada vez menor quanto mais no passado a ideia está e sobe ao infinito conforme a ideia passada é trazida ao presente (CP, 6.140, 1892). Além disso, a ideia futura com relação à presente é também uma quantidade, mas agora considerada por meio do sinal de “menos”, uma vez que o futuro não afeta o presente.

O parágrafo acima apresentou a ideia da hipérbole equilátera e é precisamente nela que se compreende, ainda que não com acuidade matemática, a concepção peirceana de hábito. Quer dizer: sentimento ainda não atualizado já tem a possibilidade de ser afetado e, como tal, já é afetado. Diz Peirce que, “De fato, ele é um hábito, em virtude do qual uma ideia é trazida à consciência presente por um vínculo que já tinha sido estabelecido entre ela e outra ideia enquanto estava ainda in futuro.”

Consiste aí a construção da terceiridade por meio da primeiridade (e da segundidade). Dito de outro modo, expressa-se aí o surgimento do hábito, em gérmen ideia geral, por meio da continuidade da atualização de qualidades em forma de sentimentos. Assim como dissemos estar presente, na essência da qualidade, uma tendência à generalização, agora a associação entre sentimentos infinitesimalmente presentes justifica melhor como essa tendência é manifesta na realidade: pela possibilidade lógica que o sentimento possui em sua própria essência esperando por associação, já que a sua “fronteira” não é absolutamente determinada.

Ainda há mais alguns fatores a serem considerados. O primeiro refere-se ao fato de que a afetibilidade de uma ideia em outra, no sentido até agora considerado, pode ser analisada do ponto de vista lógico-semiótico: a ideia afetada está ligada como um predicado lógico à ideia afetante como sujeito. É por isso que, quando um sentimento emerge, ele sempre aparece como uma espécie de modificação de um objeto mais ou menos geral. A melhor compreensão desse fator será possibilitada por nossos estudos sobre os conceitos de representação e de informação nos próximos capítulos. Aí reside uma das respostas da origem do processo informacional e a anterioridade lógica da informação com relação à existência.

Segundo, a seguinte pergunta se faz imperativa: como o caos de sentimentos poderia ter gerado o cosmos? Peirce se propõe a discutir no texto, ainda que rapidamente, que não é possível negar que a infinita diversidade do universo possa aproximar ideias que não estão, a priori, associadas a ideias gerais. Na verdade, ele não só pode como muitas vezes o faz, diz o autor. Mas e, principalmente, “[...] a lei de contínua propagação produzirá uma associação mental. E eu suponho ser essa uma declaração resumida de como o universo tem evoluído” 89

(CP, 6.143, 1892, tradução nossa). Havendo essa continuidade entre as ideias, elas tornaram-se associadas em um sentimento vivo, constituindo o hábito que é a síntese desses particulares. Na medida em que estão conectadas, as ideias ou hábitos governam a conexão, sendo caracterizados por sentimentos vivos propagados. Isso é hábito para Peirce. Todo o mais decorre daí.

89 […] the law of continuous spreading will produce a mental association; and this I suppose is an abridged

Tentemos agora analisar a construção do hábito de um ponto de vista da inferência lógica, conforme faz Peirce em seu texto, mas utilizando aquelas ideias em função de nosso objetivo geral. Essas discussões nos permitirão compreender melhor outro aspecto do hábito, que será posteriormente apresentado na semiótica por meio da noção de instâncias. Diz Peirce (CP, 6.146, 1892, tradução nossa):

[...] por indução, um número de sensações seguidas por uma reação se torna unido sob uma ideia geral seguida pela mesma reação; enquanto pelo processo hipotético, um número de reações chamadas por uma ocasião une-se em uma ideia geral que é chamada pela mesma ocasião. Pela dedução, os hábitos cumprem sua função de chamar certas reações em certas ocasiões90.

Comecemos, diferentemente de Peirce, com a noção de indução. É através da indução que o hábito se estabelece e se modifica, havendo, assim, complexidade real com aumento de dimensionalidade intrínseca. Certos sentimentos são seguidos, cada um deles, por uma mesma reação. Um sentimento geral é estabelecido, seguindo-se dele a mesma reação que o gerou. A partir dessa ideia geral segue-se uniformemente aquela reação característica. Diz, então, Peirce (CP, 6.145, 1892, tradução nossa): “Hábito é aquela especialização da lei da mente através da qual uma ideia geral ganha o poder de excitar reações. Mas para que aquela ideia geral possa atingir toda a sua funcionalidade, é necessário, também, que ela deva tornar-se sugestível por