Foucault, em sua história da sexualidade, apesar de fazer apenas uma rápida explanação dos temas que poderiam ser pesquisados a partir das suas afirmações sobre a sexualidade, é cirúrgico ao falar do como a sexualidade infantil é tratada na modernidade: ao mesmo tempo como algo natural e contra-natureza. É uma sexualidade que contém riscos físicos e morais; cheia de dubiedade.
Vimos, durante o texto, a construção dum discurso que evidencia o trabalho da sexualidade em sala de aula, como algo complicado; um “tabu”. Existe um discurso que, ancorado naquele que Foucault evidenciou, reage às propostas de inserção de gênero e sexualidade na escola e, mesmo quando acha que este deve estar presente, dá-lhe o título de algo complicado, algo que ainda não é bem resolvido em nossa sociedade.
É tanto que essa temática, durante a história do Brasil – como vimos –, ora é inserida, ora retirada do currículo, e hoje mais uma vez, após várias lutas dos movimentos sociais e intelectuais que defendem a inserção desse tema na escola, ela é, num movimento reacionário que o Brasil vem enfrentando nos últimos tempos, retirado do Plano Nacional de Ensino, com várias alegações: desde que as pessoas do Brasil ainda não estão preparadas para que esse tema seja algo a se discutir no ambiente escolar, a não haver necessidade para tal tema ser abordado.
Esse movimento, longe de responder às necessidades correntes das sociedade, apenas evidencia o como esse tema ainda é tratado como uma questão “delicada”; como esse tema, ainda que tão natural, adquire contornos contra- natureza, contornos que evidenciam a necessidade de se discutir muito mais tal temática.
No contexto anterior, quando ainda poderiam ser discutidas as questões de gênero e sexualidade em sala de aula, diversas soluções, empecilhos e in-soluções foram encontradas para o trabalho efetivo na escola.
Todo tipo de solução foi proposta, ora aceita, ou recusada – nessa temática parece nunca haver consenso –, e aquelas soluções que aparentavam ter mais sucesso nas mais diversas esferas sociais, eram aquelas que davam à sexualidade a sua “delicadeza necessária”.
Numa reportagem realizada pela Folha de São Paulo em 200121, sobre uma cartilha realizada pela Prefeitura de Curitiba de educação sexual, “Eu, Adolescente de bem com a vida”, se fala duma polêmica causada: especialistas da área aprovaram, enquanto sofre críticas da Igreja Católica. No corpo da reportagem, numa seção específica intitulada “Linguagem” é realizada uma entrevista com o Bispo auxiliar de Curitiba que rebate “uma cartilha com uma linguagem dessas não é muito pedagógica”.
Primeiro é importante atentarmos para a importância que é dada ao discurso religioso. Como ele ainda está presente e legitima as posições tradicionais e conservadoras da nossa sociedade: o repórter querendo buscar embasamento para fundamentar a “polêmica”, vai entrevistar dum lado o Bispo, doutro, técnicos da Secretaria de Saúde. E fundamenta as críticas negativas ao material com a posição de entidades religiosas que não concordam com esse tipo de material.
Segundo e mais importante: a linguagem. O quanto a linguagem é importante para nossa sociedade. É criada uma seção específica na reportagem que é o lugar da crítica do Bispo. E ele faz sua maior crítica justamente ao tipo de linguagem empregada na cartilha.
É nesse movimento que a coleção “Explorando o Ensino: Literatura” parece seguir quando fala que “Por meio da literatura infantil é possível tratar desses assuntos com a delicadeza necessária” (BRASIL, 2010, p. 49-50): parece haver uma necessidade de não se aplicar à sexualidade uma linguagem direta quando esta é destinada ao público infantil no meio escolar. E mais: a literatura infantil aparece como uma possível solução para isso; pois é literatura e esta, em teoria, possui uma linguagem indireta, metafórica.
Parece que esse movimento de valorizar a literatura infantil para se trabalhar a sexualidade nas escolas entende que a literatura, assim como a sexualidade da criança, é ambígua, indefinida - metafórica.
E esse movimento evidencia, basicamente, que a linguagem mais adequada, para se falar de sexualidade, parece deixar de ser a acadêmica, formal e imparcial; a linguagem da ciência: os lugares legitimados na modernidade para se falar da sexualidade humana deixam de ser a Igreja para se tornarem o divã do psicanalista,
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SOARES, Reginaldo. Texto escolar "moderno" causa polêmica. acessado em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0504200131.htm, 20/10/2015 às 15h.
a mesa do médico: a ciência (FOUCAULT, 2012a). A sexualidade passa a ser impregnada de termos técnicos e linguagem acadêmica.
Parece que, numa pós modernidade e no contexto do ensino de gênero e sexualidade, há um deslocamento com relação à melhor linguagem a ser empregada: agora seria a linguagem literária; a linguagem metafórica.
Pensando a partir dessa hipótese, poderíamos afirmar que, hoje, se aponta para uma mudança em que se valoriza uma estetização do sexo à sua racionalização – pelo menos no contexto escolar. Não poderíamos afirmar que se trata realmente dum “novo” modo de se lidar com a sexualidade, porque esse parece ser ancorado, também, em discursos religiosos que não querem que a sexualidade seja tratada “às abertas”.
Mas isso, de qualquer forma, sinaliza para uma certa concordância em ambas as partes: o discurso religioso cede dum lado já que se trata das questões de forma delicada e os discursos que querem essa temática em sala de aula se sentem satisfeitos com a presença de livros que abordam a temática a ser trabalhada na escola.
Meio termo justo que parece abrir uma margem de subversão.
Diante desse contexto discursivo, resolvemos analisar as obras propostas pela “Coleção Explorando o Ensino: Literatura”, com o objetivo de ver qual era o potencial dessas obras em tratar das questões de gênero e sexualidade; ver como são os discursos de gênero e sexualidade, se de fato cumprem com o prometido de tratar dos assuntos com a delicadeza necessária.
Como vimos, nos livros “Tem gente”, “Amor de Ganso” e “Para que serve uma barriga tão grande”, há uma representação da mulher extremamente característica duma sociedade patriarcalista: em todas as suas representações, as mulheres aparecem sorridentes quando estão acompanhadas da figura de um homem ou dum homem-criança. Se constrói uma imagem da mulher que apenas se sente feliz quando exerce ou sua função de mãe ou quando serve o marido. No livro “Tem Gente”, a mãe aparece sorrindo em todas as imagens; até depois do parto ela está sorrindo, enquanto que o menino esboça diversos semblantes, desde preocupação, raiva e felicidade. No livro “Pra que serve essa barriga tão grande”, a mãe também sorri em quase todas as imagens: ela está sempre cuidando de seus bezerros, fazendo comida etc.; o único momento em que ela parece não sorrir é quando está sozinha fazendo tricô. No livro “Amor de ganso”, a felicidade da galinha é totalmente
condicionada à presença ou não do ganso: quando no começo eles ainda não se conheciam, ela estava imbuída dum semblante triste, quando eles se conhecem e ele passa a proteger, ela passa a ficar feliz; quando os outros gansos levam seu amado: ela fica desesperada.
Visto isso, parece haver que a mulher apenas se completa “mulher” quando ou está exercendo a função de mãe, ou quando está acompanhada por um homem.
A mulher para ser mulher numa sociedade patriarcal, ela precisa ser mãe e estar casada com um homem. Em todos os livros, o foco narrativo é no homem: seja na figura duma criança do sexo masculino, ou na figura do homem adulto. No livro “Tem gente”, o protagonista é um menino e é explorada a sua relação com sua mãe. No livro “Amor de Ganso”, o foco narrativo mais uma vez é colocado sob o homem: o ganso e seu amor. O livro “Pra que serve uma barriga tão grande” conta a história dum bezerrinho lidando com a mãe grávida. O Homem, sempre o homem em relação com a mulher.
Nesses livros, a mulher nunca é provedora, nunca parece caminhar sob suas próprias pernas. A família é sempre nuclear, com o pai (ou o homem), responsável pelos proventos, sendo uma figura central, ainda que quase completamente ausente das questões que envolvem a criação de membros da família. Ele só se faz presente quando é retratada a necessidade de segurança, alimentação e proteção.
O livro “Menino nito” quebra com alguns estereótipos de masculinidade: “Homens podem chorar”, porém sob circunstâncias específicas e justas para que homens possam chorar. A mulher é tratada em segundo plano nesse livro, as representações de família continuam tradicionais como nos outros e o homem o único que provê o lar.
O livro “Emmanuela” é uma espécie de exceção aos demais: nele é retratado um arranjo familiar, uma mulher e um homem diferente: a família é sustentada pela mãe, o pai fica em casa para cuidar da casa e dos filhos, a mulher não segue aquele arquétipo de sexo frágil, que chora por qualquer motivo. A família parece haver muito mais cumplicidade; todos contribuem para o fomento do lar.
O discurso religioso está quase sempre presente nesses livros: seja no título da coleção, seja no esquema familiar retratado, seja em menções diretas. Parece ser um tipo de constante, para ser bem aceito socialmente, que se tenha nos livros essa presença do religioso católico-cristão.
Observamos, depois de realizadas as análises, que apesar de parecer um lugar privilegiado de enunciação, a literatura não é, necessariamente, uma solução. Nela pode haver discursos que legitimam relações desiguais de gênero e sexualidade; pode-se naturalizar certos arranjos sociais que estão fundamentados em preceitos machistas, patriarcalistas etc. São excluídos diversos arranjos familiares, diversas identidades de mulher e de homem.
É importante ainda mencionarmos o que não está presente: há livros de literatura infantil que já repensam as questões de gênero e sexualidade com mais profundidade dos que analisamos; que pensam famílias diferentes; com arranjos mais flexíveis. Livros como “Olívia tem dois pais”, “O livro de Pedro”, “Tango tem dois pais”, “Eu tenho duas mães”, entre outros.
Livros delicados: literatura. Porém se faz necessário um comprometimento maior com as questões sociais, pois nada parece fugir à materialidade discursiva, para que não se cometam as indelicadezas delicadas de naturalização de certos estereótipos de mulher e de homem, para que não se cometa a indelicadeza de não incluir certos arranjos familiares de tantas famílias brasileiras que não foram contempladas nesses livros.
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