3.1 Gênero e sexualidade: o debate Teórico
3.1.2 Sexualidade e poder
Tentaremos agora trazer um breve apanhado dalgumas palavras-chave das ideias e obras de Foucault que interessam ao nosso trabalho: sexualidade e poder.
Para Foucault, muito mais que uma mera “conduta”, a sexualidade – termo que surge no século XIX – parece algo muito mais complexo: envolve toda uma rede de saberes e conhecimentos apoiados por normas, sejam religiosas, jurídicas, médicas ou pedagógicas, que normalizam as condutas sexuais, os desejos, os prazeres e os sentimentos dos indivíduos. Diz ele, sobre a sexualidade:
Não se deve concebê-la como uma espécie de dado da natureza que o poder é tentado a pôr em xeque, ou como um domínio obscuro que o saber o tentaria, pouco a pouco, desvelar. A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder (FOUCAULT, 2012a, p. 116-117)
Seguimos Foucault ao dizer da sexualidade como dispositivo histórico4constituída dum conjunto de práticas – discursivas ou não – e de relações de poder marcados por uma dada época, numa determinada cultura.
Foucault em seus estudos vai mostrar que a partir do século XVII constrói-se uma produção de discursos sobre o sexo - possibilitada pela técnica da confissão - que o constitui como um objeto de verdade; passam-se a produzir discursos verdadeiros sobre ele e, a partir dessa produção, surge algo como a sexualidade: um tipo de verdade do sexo, dos seus prazeres. E nesse jogo de produção de verdades, constrói-se um saber específico e este, por sua vez, constrói sujeitos.
Por volta do século XVIII, o sexo ganha uma dimensão política, econômica e técnica, sob uma forma de análise, contabilidade, classificação e especificação, através de pesquisas quantitativas e casuais (FOUCAULT, 2012a, p. 30). O sexo passa a assumir uma dimensão não apenas moral, mas, também, racional. Vê-se a necessidade de se falar do sexo, sem simplesmente condená-lo ou tolerá-lo, mas gerindo-o, regulando-o, administrando-o a um padrão ótimo. O sexo vira uma questão do poder público, deve ser regulado, através da razão, para o bem comum.
Observamos que Foucault aponta para uma racionalização, em detrimento de apenas uma moralização: ele observa um acontecimento discursivo; uma descontinuidade que surge num período determinado: anteriormente o sexo, na Europa Ocidental, era lidado sobretudo pela moral; por um discurso predominantemente religioso em que se ditavam as regras de conduta e dos bons costumes, mas, após toda uma série de acontecimentos discursivos alavancados após o fim da Idade Média e com o surgimento das ciências humanas na modernidade, Foucault observa que o sexo é falado de forma diferente e identifica toda uma série de discursos e subjetividades, a partir desse período, que apontam para um modo racional e único de lidar com ele.
Razão e Moral elementos constituintes do dispositivo da sexualidade na análise de Foucault. Parece haver um duplo, não-dicotômico, em que se ancora uma diversa produção discursiva sobre o sexo após a modernidade; toda uma rede de discursos – sejam eles do campo econômico, pedagógico, médico, psicanalítico – aparentam caminhar numa direção racional e moral; na modernidade pretende-se
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Para Foucault, entendido como um conjunto heterogêneo; uma rede em que os discursos, as instituições, as decisões regulamentares, leis, enunciados científicos, proposições filosóficas etc se relacionam.
dar um efeito de impessoalidade ao se falar de sexo; ele vira objeto da Ciência: através duma assimilação de dispositivos da confissão religiosa, cria-se todo um aparato de captação de verdade, moldando diversos saberes e institucionalizando diversas verdades. Agora ele não é mais do campo, apenas, da sensação e do prazer; da lei ou da interdição; mas também da verdade e falsidade: o sexo agora é objeto da verdade; da discursividade científica; Sexualidade: uma espécie de verdadeiro do sexo e de seus prazeres.
Com efeito, no século XIX, uma nova tecnologia – não mais apoiada pela instituição eclesiástica – se desenvolve apoiada por três eixos: o da pedagogia, da medicina e da demografia. O sexo passa a ser negócio de estado; os corpos precisam estar saudáveis para a manutenção dum estado rentável; precisam ser administrados, fazê-los disciplinados, possibilita-se, assim, o exercício do micropoder. E regulando a população, a sexualidade é a chave que dá acesso à vida da espécie e do corpo, permitindo o exercício do biopoder.
Analisando essa singular forma de produção de verdade que é a sexualidade, Foucault trabalha o conceito de relações de poder que ele acredita ser o melhor modo de se entender a formação dos discursos verdadeiros. Esse poder não é firmado por leis, direitos e castigos, é um poder fino, exercido por uma técnica, por uma normalização, por um controle. Todas as relações para Foucault se estabelecem através duma relação de poder e este assume uma característica extremamente singular:
Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei nas hegemonias sociais (2012a, p. 102-103).
Indo de encontro a uma concepção marxista de poder, onde existe um binarismo opositivo de lugares, instituições e sujeitos detentores de poderes e outros não, Foucault vai apresentar uma concepção que considera não existir um ponto central, onde se irradia todo o poder da sociedade, ele é disforme, móvel e instável. O poder será Onipresente para Foucault, não por ter uma invencível unidade, mas
por ele estar em todos os lugares, irradiando de todos os pontos, produzindo-se a cada instante. Não é uma instituição, nem uma estrutura, é uma estratégia duma dada sociedade.
E assim, para Foucault, o poder é múltiplo, por se encontrar em diversos lugares irradiando de diversos pontos, é disforme porque não se exerce duma única forma, mas de modos variados; sempre se modificando e adaptando-se aos diversos contextos; de forma desigual. O poder também vem de baixo, pois não há binarismos, nem um princípio que rege as relações de poder; ou uma dualidade que que repercuta do alto para o baixo as estratégias de poder. E onde há poder há resistência, e esta não está numa situação exterior ao poder, pois para a existência dele é necessário que haja forças múltiplas de combate, numa rede de poderes: com múltiplos nós, todos eles ligados e interconectados.
Foucault evidencia em seus estudos sobre a sexualidade que os discursos sobre sexo, ao contrário da hipótese dominante, não sofreram uma repressão no sentido de uma censura. Para ele, os discursos sobre sexo foram multiplicados absurdamente, ou seja, a ideia de que houve apenas uma censura e repressão ao se falar do sexo na modernidade é equivocada: nela criaram-se diversos mecanismos, verdades e saberes.
Talvez tenha existido um filtro vocabular que especificava o como se falar; toda uma retórica, cheia de cuidados e metáforas; regras de decência, uma polícia de enunciados: um quando e como se podia dizer sobre; não era de qualquer modo que se podia falar, nem ouvir: existiam, talvez, lugares e sujeitos que podiam dizer em determinados contextos discursivos. Tudo isso talvez fosse um modo; um dispositivo secundário de torná-lo moralmente aceito e tecnicamente útil.
Assim, não era o tempo inteiro silenciado. Nos espaços permitidos o sexo nunca foi tão falado: nunca antes se escutou e se disse tanto sobre o sexo. Houve uma verdadeira explosão discursiva, em que se buscavam as verdades condicionantes e condicionadas pelas práticas sexuais dos indivíduos. Não houve uma condenação que fazia o sexo permanecer num lugar obscuro; muito pelo contrário, colocaram-no em evidência e o condenaram, na realidade, a ser falado sempre – incessantemente –, mas valorizando-o, apesar de tudo, como um segredo.
É importante o reconhecimento de que tais estudos potencializaram e potenciam diversos estudos sobre sexo, sobre gênero e sexualidade. O próprio acervo de Foucault sobre a temática indicou a necessidade de desenvolvimento de
outros estudos que têm fundamental importância para o debate atual. Temas como Socialização das condutas de procriação e a Psiquiatrização do prazer perverso, realizadas em lugares e tempos diferentes, levaram a resultados diversos.