O debate acerca do papel dos governos no processo de internacionalização de empresas vem ganhado destaque na literatura (UNCTAD, 2006; BUCKLEY, 1998; WANG et al., 2013; GUEDES, 2006), particularmente os seus efeitos em potencializar ou inibir esse processo (LEMOS, 2013). Nesse contexto, uma questão proeminente é a do papel dos governos na internacionalização de empresas nacionais, por meio de seu incentivo, apoio e suporte via políticas públicas específicas para esses fins (UNCTAD, 2006; ALEM; CAVALCANTI, 2005; IPEA, 2012). O olhar a tais questões tem sido em grande parte motivado pelas decisões estratégicas tomadas e deliberadas pelos governos de importantes países emergentes, como Índia e China, os quais têm demonstrado adotar políticas públicas específicas como ações para incrementar a competitividade de suas empresas, apoiando os seus processos de internacionalização (UNCTAD, 2005; 2006; 2008; BARRAL, 2011; IPEA, 2012).
No contexto brasileiro, tais aspectos também são fortemente presentes, inaugurando novas frentes de interação entre a internacionalização de suas empresas e a participação do governo. Pelo lado da iniciativa privada, verifica-se que as empresas nacionais têm buscando a inserção internacional como estratégia para conquistar ganhos de produtividade, competitividade e lucratividade. Diversos estudos realizados no Brasil constatam essa movimentação (CYRINO; TANURE, 2009; FLEURY; FLEURY, 2009; CYRINO; OLIVEIRA JUNIOR; BARCELLOS, 2010; BORINI et al., 2010; VALOR, 2011), pela qual já se pode afirmar que
a internacionalização das empresas brasileiras e o seu crescimento deixaram de ser um fenômeno incipiente para se tornar um movimento organizado e estruturado (OLIVEIRA JUNIOR, 2009; 2010). Essa tendência tem promovido impactos positivos aos seus participantes, posto que vários deles “vêm mantendo taxas de crescimento acima da média em relação aos concorrentes domésticos e enfrentam com relativo sucesso os grandes players estabelecidos nos mercados internacionais em que atuam” (CYRINO; PENIDO, 2007, p.79). Inclusive, nota-se que mesmo com as empresas latino-americanas sendo consideradas entrantes tardias nos mercados internacionais, a velocidade das brasileiras em sua expansão internacional é marco histórico importante (MELO, 2009). Tal fato coloca o Brasil em posição relevante e destacada dentre os países emergentes no tema da formação de multinacionais, ao lado de Índia e China. Processo que, pelo lado governamental, acabou por supreender os formuladores de políticas (FLEURY; FLEURY, 2009), dadas as suas peculiares e ritmo. Em razão disso, o Brasil acompanha a agenda internacional e um amplo debate público, capitaneado em grande parte pelo governo, tem se colocado no País acerca da existência, formato e implementação de políticas governamentais de apoio à internacionalização das empresas nacionais.
Séries de sinais do governo brasileiro nos últimos anos têm indicado apoio cada vez maior à internacionalização de empresas nacionais (SENNES; MENDES, 2009), embora existam reações contrárias de alguns setores da sociedade política e civil (ILHA, 2011; DETAQ-CD, 2011). Por meio do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Ministério da Fazenda (MF), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) várias medidas de apoio à internacionalização foram anunciadas nos últimos tempos (SENNES; MENDES, 2009). A maioria delas proveniente e derivada das políticas comerciais de apoio às exportações e das políticas industriais e tecnológicas ora em curso. Os maiores marcos institucionais recentes dessas medidas foram o Termo de Referência: Internacionalização de Empresas Brasileiras, patrocinado e divulgado pela Secretaria-executiva da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), em 2009, e o Plano Brasil Maior 2011/2014, anunciado, em 2011, pela Presidência da República (PR).
A questão procede, pois a participação dos governos no âmbito dos negócios internacionais foi mundial e historicamente dada quase que em sua totalidade nos ganhos provenientes do comércio internacional, por meio de políticas comerciais de promoção das exportações pautadas pelas dinâmicas e padrões derivados das vantagens comparativas ricardianas. Até então, os governos estavam restritos ao desenho de políticas comerciais e industriais – horizontais e setoriais -, pelas quais suas intervenções tinham por objetivo incentivar padrões comerciais tidos como os mais interessantes ao bem-estar de suas populações, a partir da dotação de fatores e estrutura de produção e produtividade de suas economias.
Desde Adam Smith, em 1776, com a publicação de A Riqueza das Nações, o nível de análise para se pensar os ganhos econômicos do comércio internacional foram as diferenças das estruturas produtivas dos países. As explanações teóricas eram referentes às nações e nos porquês das vantagens das exportações e importações, não se levando em consideração as estruturas e estratégias das empresas, mas apenas a disponibilidade dos fatores de uma economia, e, destacadamente, a sua produtividade. Contudo, o processo de internacionalização das empresas extrapola essas determinantes e somente as características produtivas e dotação de fatores nacionais não se tornam mais suficientes para interpretação desse fenômeno. As atuais políticas governamentais de apoio à internacionalização, quando se trata de uma opção dos países, estão sendo formuladas além da exclusividade dada ao padrão determinístico das vantagens comparativas com base em produtividade e em dotações relativas de fatores, incorporando dimensões ao nível das empresas, por meio de instrumentos fiscais, creditícios, financeiros e de suporte informacional, assim como em recursos e competências que lhe são internas (UNCTAD, 2005; 2006; 2008; IPEA, 2012; WANG et al., 2012).
Portanto, na esteira desta reflexão, propõe-se nesta tese a investigação do papel dos governos na internacionalização de empresas nacionais, com objetivo de analisar até que ponto as suas intervenções de apoio e suporte podem ser consideradas, pela ótica dos executivos (policytakers), um recurso específico e relevante, característico da origem, no processo de inserção internacional empresarial. É proposto, desta maneira, uma interpretação e inferência sobre o impacto dessas políticas nas empresas por meio de um olhar ao nível estratégico das firmas, e não da dotação de fatores ou aspectos macroeconômicos do País, como normalmente aborda-se esse tema.
Para esta investigação, optou-se por observar a formulação das políticas governamentais específicas e direcionadas a apoiar à internacionalização das empresas brasileiras, escolhendo como setor de análise a indústria de bens de capital mecânicos, dado que se trata de um setor que é historicamente objeto de diversos incentivos governamentais, desde a Política de Substituição das Importações (PSI) até, recentemente, contemplado como complexo estratégico no Plano Brasil Maior para desenvolvimento e inserção internacional; além do fato de que já se organiza, inclusive, em torno do tema da internacionalização, por meio de projetos conjuntos com o governo brasileiro, como é o caso do Projeto Setorial (PS) Brazil Machinery Solutions, em parceria com a Apex-Brasil. Nessa leitura e perspectiva, o seguinte problema de pesquisa é proposto: o governo brasileiro pode ser considerado um recurso específico e relevante da internacionalização das empresas brasileiras de bens de capital mecânicos? Noutras palavras, os instrumentos governamentais desenvolvidos e disponibilizados para incentivar, apoiar e dar suporte à internacionalização de empresas nacionais podem ser considerados uma vantagem de localização, porque recursos relevantes para o resultado da inserção internacional daquelas que deles se utilizaram?
Nesses termos, o principal objetivo desta pesquisa, em caráter geral, é analisar se, como e quais são os instrumentos do governo brasileiro (policymaker) que, formulados com objetivos específicos de apoiar a internacionalização de empresas nacionais, se associam e interagem no processo de envolvimento internacional da indústria de bens de capital mecânicos do País a partir da perspectiva de seus executivos (policytakers) encarregados de formular e desencadear essa estratégia empresarial. Para consecução do objetivo geral, alguns específicos se fizeram pertinentes:
Desenvolver um framework de interpretação do fenômeno da internacionalização de empresas, o qual permita apreender as suas principais determinantes;
Desenvolver um referencial de análise de políticas governamentais específicas para internacionalização;
Identificar se existe uma política governamental específica de apoio à internacionalização em curso no Brasil e, em caso positivo, quais são os seus instrumentos;
Identificar, a partir do framework de interpretação da internacionalização, quais são as características da inserção internacional das empresas brasileiras de bens de capital, dadas as suas determinantes micro, macro e mesoeconômicas. Com destaque à
identificação de quais são as vantagens específicas das empresas e da origem (Brasil) que podem explicar o nível e tipo de inserção adotada pelo setor atualmente;
Inferir, estatisticamente, se os instrumentos governamentais brasileiros destinados à internacionalização interagem e se associam com a inserção internacional da indústria brasileira de bens de capital mecânicos ante a percepção de seus tomadores de decisão;
Inferir, estatisticamente, se e como o Projeto Brasil Machinery Solutions, entre Abimaq e Apex-Brasil, se associa com as vantagens e instrumentos públicos governamentais de apoio à internacionalização no processo de inserção internacional das empresas do setor.
A estratégia de investigação adotada para explorar o problema de pesquisa proposto, bem como atingir os objetivos pretendidos, é de natureza quantitativa, realizada por meio de um survey, que foi formulado para prospectar a percepção dos executivos tomadores de decisão do processo de internacionalização das empresas do setor. As técnicas de análise utilizadas foram a regressão logística, a regressão linear e o test-t. Com isso e ante o problema e os objetivos propostos, espera-se que a suas consecuções, tendo em vista a investigação guiada pela metodologia escolhida, apontem resultados que possam sugerir se os governos, por meio de instrumentos específicos ofertados a apoiar à internacionalização, se associam ou não, ou ainda, como se associam, na inserção internacional das empresas brasileiras de bens de capital mecânicos.
A partir da alegação de que empresas de países emergentes normalmente possuem baixas vantagens e competências expecíficas, como afirmam Wang et al. (2012), Child e Rodrigues (2005), Dunning e Lundan (2008) e Fleury e Fleury (2007), a sugestão que se coloca, a priori, é de que esses instrumentos governamentais possam (ou não) ser vislumbrados como um fator, na origem, indutor ou potencializador de vantagens que se somem às justificativas da internacionalização realizada pelas empresas dessa indústria. E, nesse toar, verificar se um projeto entre o setor privado e o governo, como no caso do Brazil Machinery Solutions, pode fazer alguma diferença na internacionalização de empresas e, em caso positivo, em qual intensidade e por quais motivos.