2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.6 O PROGRAMA DE INCENTIVO ACADÊMICO – PROGRAMA BIA: O OBJETO
2.6.2 O contexto de implantação na UFPE
A implantação do Programa de Incentivo Acadêmico- BIA pela FACEPE e SEDUC ocorreu no contexto das discussões sobre as políticas afirmativas e de consolidação do acesso predominantes na área da educação superior, tendo como referência estudos e pesquisas (ANDIFES, 1997, 2004 e 2010) que apontavam que a falta de condições financeiras de alunos oriundos de classes menos favorecidas, especialmente os de escolas públicas contribuem para seu afastamento do curso superior.
A regulamentação normativa do Programa foi definida no Termo de Convênio de Cooperação Técnica, Administrativa e Financeira (TC no. 07/2004), celebrado entre o Secretário da SEDUC e o Presidente da FACEPE em 11 de março de 2004.
Não houve um plano de implementação previamente discutido e coletivamente elaborado entre os partícipes e executores do Programa. Suas diretrizes, critérios e procedimentos de funcionamento foram descritas num plano de trabalho, instrumento integrante do convênio, onde constavam os demais partícipes da gestão do Programa: FADE / COVEST, UFPE, UFRPE e UPE.
A definição de papéis e atribuições dos órgãos partícipes da execução não foi devidamente explicitada no TC e no plano de trabalho, documentos que se constituíram nos instrumentos de normatização do programa. Apenas a FACEPE e a SEDUC tinham responsabilidades de coordenação, financiamento e gestão, definidas no citado instrumento.
Para suprir essa lacuna na formulação do Programa, a PROEXT, unidade institucional da UFPE a quem o Programa ficou vinculado, elaborou um “kit informativo” composto de orientações básicas de funcionamento do programa, como folder, formulário de cadastro modelos de planos de trabalho e de relatórios.
Segundo os fundamentos teóricos da GESPÚBLICA20 e de estudiosos do tema o modelo de excelência em gestão pública contemporânea recomenda que o estilo de gestão a ser adotada para desempenho eficaz dos programas de natureza pública deve ser a participativa, associando a dimensão política da tomada de decisões às de natureza técnica, responsáveis pela operacionalização e alcance dos objetivos e metas.
20 GESPÚBLICA é um programa coordenado pelo Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão, que tem o
A formulação e o desenho de um programa devem, portanto, envolver em sua concepção e planejamento todos os órgãos participantes de sua operacionalização, de forma a compatibilizar decisões políticas com medidas operacionais que garantam êxito à ação.
Conforme também já mencionamos neste capítulo, o processo de elaboração de políticas e programas públicos e a definição de sua estrutura normativa e procedimental pode acontecer simultaneamente à fase de implementação, fato que constatamos em relação ao Programa BIA.
Assim sendo, mesmo não tendo sido diretamente envolvida nas fases de formulação e elaboração, a UFPE atendeu à convocação da FACEPE e da SEDUC e aderiu ao Programa BIA.
Este programa foi concebido na perspectiva de apoiar financeiramente os melhores alunos da rede pública de ensino, classificados no vestibular das universidades públicas de Pernambuco, por meio da concessão de uma bolsa de incentivo acadêmico, para suprir despesas no cotidiano da vida universitária pelo período de até um ano.
Ao distinguir-se pela concessão de uma bolsa, o programa passou a ser chamado pelos gestores, estudantes, professores e equipe de execução operacional - de Programa BIA e bolsa BIA - denominação também adotada e reconhecida pela administração central da UFPE e pela comunidade acadêmica em geral.
A bolsa concedida aos estudantes selecionados, quando implantada em 2004, no valor de R$ 180,00 (cento e oitenta reais), mostrava-se com valor inferior às demais bolsas vigentes na universidade; e, como critério de contrapartida, na perspectiva de ampliar a articulação entre as universidades e as escolas da rede pública básica de ensino, os formuladores do Programa decidiram pela execução de um projeto acadêmico, por parte do bolsista, sob a supervisão de um professor orientador, em uma escola da rede pública, preferencialmente a escola onde o mesmo tivesse concluído seu ensino médio.
Esta prática, em tese, serviria de estímulo aos demais alunos da rede pública a dar continuidade aos estudos após a conclusão do ensino médio, influenciando positivamente em suas expectativas de cursar o ensino superior.
Em posição contrária a essa estratégia adotada pelas autoridades decisórias, encontramos em Gurgel (1986) referências a estudos de Bernheim (1978) que afirmam que, em nome do compromisso social da universidade muitas crenças foram apregoadas, inclusive a de proporcionar aos estudantes oportunidades de “familiarizar-se com os problemas de seu meio e de entrar em contato com o povo”, e de “devolver, em forma de serviços, parte do benefício que significa pertencer a uma minoria privilegiada, que tem acesso a uma educação
superior, em última instância paga pelo esforço de toda a comunidade” (GURGEL, 1986 p.37).
Este modelo de atuação foi adotado no período 2004 a 2007, e no âmbito da UFPE, o Programa ficou sob a coordenação da PROEXT, e contou em algumas etapas de operacionalização (convocação e cadastro) com a parceria da Pró-Reitoria de Assuntos Acadêmicos (PROACAD), que assumia na época as funções da assistência estudantil.
Uma avaliação do processo de implementação do Programa BIA na UFPE, no período 2004-2006, foi nosso objeto de estudo, sistematizado em monografia de conclusão do curso de especialização latu sensu em Gestão Pública, elaborada com o propósito de identificar os pontos críticos de sua execução, e a partir daí, gerar informações gerenciais úteis à tomada de decisões no sentido de seu aperfeiçoamento.
A síntese dos resultados obtidos nesse estudo, apresentado em 2008, está resumidamente descrita nas seções subsequentes.
2.6.3 Síntese dos resultados do estudo anterior: da implementação à visão dos