4 PROFISSÃO JORNALISTA NO FEMININO: PRÁTICAS
4.1 CONTEXTO INTERNACIONAL DO AUMENTO DA POPULAÇÃO
Pesquisas internacionais feitas nos anos 1990 já apontavam para o crescimento do número de mulheres empregadas como jornalistas em veículos de comunicação e de que forma elas se encaixavam na escala hierárquica (GARCIA, 2009; SUBTIL, 2009, GMMP, 2015; IWMF, 2011). As mais recentes denotam uma relação de contínuo crescimento na força de trabalho e na escala hierárquica, porém, com proporções diferentes.
Como em tantos outros aspectos da vida social, cultural e econômica no século XXI, o número em cargos de tomada de decisão das mulheres que trabalham nas indústrias mediáticas é baixo, quando comparado com a sua proporção na força de trabalho do setor [...] a maioria das investigações sugere que elas ficam presas nos quadros médios de gestão (ROSS, 2017, p. 66).
O GMMP (2015) identificou que 27% dos cargos de chefia nas empresas jornalísticas são ocupados por mulheres, enquanto que em cargos de execução (repórteres, em geral), elas são 35%. Nas televisões, contudo, o número de mulheres repórteres é maior. Na Europa, são 48%. Na América Latina, 50%. Nos Estados Unidos, a proporção de mulheres atuando como jornalistas cresceu de 20% nos anos 1970 para 34% na década seguinte. Um salto que chama atenção. Entretanto, a partir dos anos 1980, percebe-se um movimento de estagnação, uma vez que os números de 2015 mostram que as mulheres são 37% da força de trabalho no jornalismo. Na TV, seguem o mesmo patamar, com 36% de participação entre os repórteres. Ou seja, os números recentes assemelham-se muito aos dos anos 1980 (GMMP, 2015).
Ainda conforme o GMMP (2015), numa avaliação global, considerando que entre 2005 e 2015 o quadro de repórteres em jornais impressos, televisão e rádio ficou estagnado em 37% de participação feminina, o estudo conclui que o teto de vidro76 perdura na maioria dos países. Importante ressaltar, contudo, que a América Latina é a região onde a diferença entre homens
76 A expressão teto (ou telhado) de vidro é usada em várias partes do mundo para se referir a uma espécie de barreira invisível, porém real, que as mulheres encontram no ambiente de trabalho. Ou seja, o termo teto de vidro trata de preconceitos de gênero muitas vezes velados que ocorrem na vida organizacional (IWMF, 2011, p. 27).
e mulheres mais encolheu – em 2005, 27% dos profissionais eram mulheres; em 2015, o percentual saltou para 41%. O continente igualmente desponta em participação de jornalistas mulheres em coberturas como política e polícia. Na região latino-americana, 41% e 38% desses temas são cobertos por mulheres jornalistas, respectivamente. Porém, nas demais regiões do globo, elas tratam de no máximo 31% (em política) e 28% (na cobertura de crimes e violência).
A título de exemplo, Cuba, nosso vizinho de América Latina, revela número de mulheres atuando no mercado de trabalho equivalente ao de homens, incluindo aí funções de chefia nas redações. Guerra (2014), citada por Rocha e Dancosky (2016), aponta que dos 4.148 jornalistas afiliados à Unión de Periodistas de Cuba, 2.064 são mulheres e são o grupo que passou a assumir os principais cargos de direção nos meios locais, regionais e nacionais.
Outro estudo, o Global Report on the Status of Women in the News Media, publicado em 2011 pela International Women’s Media Foundation (IWMF), com base em pesquisa realizada entre 2008 e 2010, em 522 empresas de 59 países, com 170 mil profissionais de veículos de comunicação, dá conta de que: (1) as mulheres representam 33% da força de trabalho jornalístico em escala mundial; (2) em cargos de gerência elas são 27%; (3) na Europa Oriental e na Nórdica observaram-se os maiores percentuais de mulheres em cargos de governança e alta administração, em empresas de mídia (com percentuais que variam entre 33% e 46%).
Números que se aproximam dos levantados por Neveu (2006), que cita a Finlândia e a Nova Zelândia como países com concentração de mais de 45% de mulheres no mercado de trabalho jornalístico. De seu país de origem, a França, Neveu aponta que, apesar de a participação feminina estar em uma crescente, a ocupação é diferenciada dependendo do veículo de comunicação. Elas são “52% nas revistas, 42% nos semanários informativos, 39% na imprensa cotidiana nacional [francesa], 39% nas televisões nacionais e 26% nos diários regionais” (NEVEU, 2006, p. 44).
Os números da IWMF (2011) representam entre um terço e quase metade de participação feminina entre os cargos gerenciais das empresas de mídia, mas são reveladores também no sentido de que mostram um crescimento em relação a um estudo anterior envolvendo 239 nações (GALLAGHER, 1995), no qual se observou 12% de participação da mulher entre cargos gerenciais.
o Brasil está entre os 13 países pesquisados. Nos Estados Unidos, por exemplo, o estudo observou que menos de um quarto dos profissionais em postos de alta gerência são mulheres. E quando o posto envolve direção, elas são um terço. É lá também onde se observam muitos dos casos de telhados de vidro. No Brasil, o IWMF constatou que homens em cargo de decisão, nas empresas jornalísticas, têm salário maior do que as mulheres na mesma posição. No entanto, nos demais níveis hierárquicos, os salários se equiparam.
De todo modo, há um entendimento de que as vitórias feministas, somadas às mudanças no processo de profissionalização da carreira jornalística, representaram benefícios às mulheres, pois contribuíram para dar mais peso ao nível de preparo do candidato, no processo de seleção dos profissionais, e menos ao gênero, possibilitando, em alguma medida, a diminuição das desigualdades na competição dentro das redações (BOURDIEU, 1989; ROCHA, 2007, ROCHA; SOUSA, 2011; TRAVANCAS, [1993] 2011, LOPES, 2013, JORGE; RAMALHO; RIBEIRO, 2014).
Roseli Figaro dá um panorama global e atualizado dessas mudanças:
O perfil profissional no jornalismo em grande parte do mundo é feminino e jovem, com menor permanência de tempo na profissão. Pesquisas no Brasil (Figaro, 2013; Mick; Lima, 2013); na França (Damian-Gaillard, Frisque; Saïtta, 2010) e em Portugal (Silveirinha, 2004) mostram que as profissionais do jornalismo têm escolaridade de nível superior (mesmo quando não obrigatória e específica) e o perfil profissional tornou-se polivalente. Elas trabalham em diferentes tipos de veículos de mídia, com linguagens e tecnologias analógicas, digitais ou híbridas. Os motivos dessa mudança de perfil no jornalismo têm em comum a urbanização, o crescimento da população feminina, o aumento da formação profissional de nível superior entre as mulheres, a relevância da comunicação na sociedade contemporânea – sobretudo de veículos como a televisão – e o advento da internet (FIGARO, 2018, p. 578).
No entanto, estudos revelam também que, como consequência aos desafios impostos pela sociedade, algumas mulheres jornalistas adotam a cultura machista da redação como uma forma de avançar em suas carreiras (GMMP, 2015, p. 45). Cultura machista resultado de um histórico de esmagadora presença masculina nas redações. O que nos remete ao “biorritmo” da empresa jornalística, nas palavras de Traquina (2005) e à teoria organizacional, de Warren Breed (2016), segundo a qual as normas veladas da organização e absorvidas “por osmose” pelos jornalistas influenciam o trabalho jornalístico.
do jornalismo, conforme conclui Silva (2010). “Apesar da presença das mulheres a trabalhar dentro dos media ter aumentado em todas as regiões do mundo nas últimas duas décadas [fim do século XX], o verdadeiro poder é ainda um monopólio maioritariamente masculino” (GALLAGHER, 2004, p. 89). Em outras palavras, se o jornalismo traz em seu histórico uma profissão masculina, essa cultura que perdura e paira sobre as redações pode persistir a despeito das mudanças estruturais pelas quais a profissão vem passando, ao longo das últimas décadas. Essa “preservação do estado de coisas”, vigente no Brasil, na visão de Saffioti (1987), é um contributo do machismo, presente tanto na cabeça de homens quanto na de mulheres. A mais recente onda do feminismo, entretanto,
poderá colaborar com o cumprimento de funções intrínsecas ao jornalismo: ouvir uma pluralidade de fontes e de versões sobre um mesmo fato. E, com certeza, poderá favorecer ao exercício de uma comunicação que irá colocar homens e mulheres no centro de todos os acontecimentos, o que, fatalmente, implicará no maior desenvolvimento desse importante campo social (VELOSO, 2013, p. 293).
Já há jornalismo nessa direção. “Muitos produtores de mídia estão mais atentos ao pensamento feminista e ao desenvolvimento das sensibilidades feministas de suas audiências” (CARTER; STEINER, 2009, p. 29, tradução nossa77), o que não significa, entretanto, que o sexismo tenha sido eliminado da mídia. No Brasil, realidade a que nos deteremos a seguir, há iniciativas importantes nesse sentido por parte de quem faz jornalismo atualmente – que são, efetivamente, mulheres, em larga medida, tanto nas esferas de execução quanto de comando.