A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos – e o choque mundial frente ao acontecimento – foi significativa por um grande número de razões. É importante atentar para as consequências desta mudança uma vez que os posts analisados nesta pesquisa são de um período que concerne os anos 2016 e 2017 e envolvem um público diretamente afetado pelo clima político, como veremos a seguir. A vitória de Trump foi, em primeiro lugar, uma vitória do Colégio Eleitoral, uma vez que Hillary Clinton, a principal, rival de Trump, recebeu quase 3 milhões de votos populares a mais do que o seu oponente. Ainda assim, a vitória de Trump proclama um novo período na política estadunidense que contrasta fortemente com os anos de Obama. Com os republicanos no controle de tanto a presidência quanto o Congresso, tudo parecia apontar para uma longa fase de mudanças – e o assunto imigração é um dos grandes tópicos dessa agenda política (MCKAY, 2017).
Durante 2016, as categorias sociais que dividiam os Estados Unidos pareceram aumentar ainda mais. Por oito anos, durante a época da presidência de Barack Obama, a polarização que caracterizou a política estadunidense desde os anos 90 continuou: minorias sociais e étnicas, mulheres educadas e a população das grandes cidades costeiras continuaram a apoiar as propostas dos democratas, enquanto a classe branca trabalhadora, especialmente aqueles no sul, centro-oeste e áreas rurais, apoiavam os candidatos republicanos (MCKAY, 2017).
Quando nomeado oficialmente como candidato do partido republicano, Trump discursou sobre as suas propostas. A diferença mais importante do seu plano em relação ao dos seus oponentes, segundo Trump, era “colocar a América em primeiro lugar”. Americanismo, ao invés de globalismo, era a lei do partido. A imigração foi um dos temas recorrentes do discurso. Trump afirmou que o número de famílias imigrantes ilegais que cruzaram a fronteira excedeu o total desde 2015. Dezenas de milhares dessas pessoas vem sendo, segundo Trump, lançadas nas comunidades americanas, impactando de forma negativa a segurança e os recursos públicos. Para exemplificar a situação, Trump mencionou o caso de Sarah Root, uma jovem de 21 anos, recém-graduada, que morreu em um acidente de carro causado por um motorista ilegal73. A campanha de Donald Trump incluiu a polêmica proposta de construir um muro na fronteira com o México e barrar a entrada de muçulmanos no país74.
No dia 09 de novembro de 2016, Donald John Trump foi eleito o 45º presidente dos Estados Unidos. O resultado, considerado surpreendente por muitos, de acordo com o The New York Times, foio saldo de uma campanha explosiva, populista e polarizadora. O triunfo de Trump, um incorporador imobiliário transformado em uma estrela de reality show televisivo, sem experiência política alguma, foi uma rejeição das forças tradicionais do governo. Os resultados também demonstram repúdia não apenas a Hillary Clinton, mas ao presidente Obama, cuja promessa de tornar os Estados Unidos mais globalizado e multicultural não suprimiu as demandas internas americanas75.
Passando para a questão da imigração, o que pareceu receber pouca atenção da mídia e das pessoas é que Trump se valeu das ferramentas desenvolvidas pelas administrações de Bush e do próprio Obama para orquestrar deportações em massa. Desde 2000, o governo federal utilizou policiais e prisões locais como uma peça estratégica chave para o plano de deportações. No governo de Obama, o plano Priority Enforcement Program (Programa de Execução Prioritária, em tradução livre), outrora conhecido como Secure Communities (Comunidades Seguras, em tradução livre) chegou a remover 2,5 milhões de imigrantes do país76. Graças a um forte movimento pelos direitos dos imigrantes77, Obama limitou as
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Disponível em: <http://www.politico.com/story/2016/07/full-transcript-donald-trump-nomination-acceptance- speech-at-rnc-225974#ixzz4LSicfyx9>. Acesso em: 19 jan. 2018.
74
Disponível em: <http://fortune.com/2016/06/28/donald-trump-muslim-ban/>. Acesso em: 19 jan. 2018.
75
Disponível em: <https://www.nytimes.com/2016/11/09/us/politics/hillary-clinton-donald-trump- president.html>. Acesso em: 19 jan. 2018.
76
Disponível em: <https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/nov/21/obama-deportation-mcahine- damage-trump>. Acesso em: 19 jan. 2018.
77
Disponível em: <https://www.washingtontimes.com/news/2016/jun/23/immigrant-activists-demand-obama- stop-deportations/>. Acesso em: 19 jan. 2018.
imigrações em massa. Trump, em 2016, afirmou diversas vezes que iria se livrar de restrições e acatar o Priority Enforcement Program com braços abertos.
Em novembro de 2017, a administração de Trump anunciou a medida de expulsão de quase 60.000 haitianos, anunciando que não iria renovar a medida de Temporary Protected Status (Status de Proteção Temporária, tradução nossa), que permitiu que eles permanecessem no país durante sete anos. A medida foi tomada em 2010, após um terremoto catastrófico que afetou 3 milhões de haitianos. Segundo Trump, o programa foi tomado para proteger pessoas de uma situação extrema que, hoje, já está sob controle. De acordo com o jornal Washington Post, não existe uma real necessidade de expulsar pessoas comprometidas com a lei e que fizeram dos Estados Unidos o seu lar por sete anos. A única explicação para tal iniciativa é uma cega conduta anti-imigração. Ainda de acordo com o jornal, metade da população haitiana está localizada na Flórida, e nenhuma pesquisa mostra que estas pessoas estão tirando empregos de cidadãos estadunidenses. A falta de humanidade é evidente na iniciativa, que, levada a cabo, promete dividir famílias, desenraizar crianças que reconhecem os Estados Unidos como o seu lar, e transferir milhares de volta para um dos países mais pobre do mundo78.
Além dos imigrantes haitianos, no início de setembro de 2017, a administração de Trump anunciou que pretendia acabar com o DACA. Segundo o jornal The Guardian, o DACA pode ser definido como um programa federal norte-americano, criado em 2012 sob a permissão de Barack Obama, com o intuito de permitir que imigrantes nãodocumentados que chegaram aos Estados Unidos quando crianças fossem protegidas. Essa proteção é personificada através de direitos de viver, estudar – aplicar para universidades –, possuir uma carteira de motorista e trabalhar nos Estados Unidos. Com o anúncio da extinção do programa, quase 800.000 pessoas se viram em uma situação de medo e agitação. É importante notar que só são elegíveis para o DACA estudantes ou pessoas que já completaram o Ensino Básico ou que prestaram Serviço Militar. Os participantes do programa devem possuir uma ficha criminal limpa e não podem ser uma ameaça à segurança nacional. Aqueles que ganham a proteção do DACA são conhecidos como os Dreamers, ou Sonhadores. A maioria dos Sonhadores é do México, El Salvador, Guatemala e Honduras, têm entre 15 e 36 anos e vive na Califória, no Texas, na Flórida e em Nova York. Sob a administração de Trump, novos aplicantes para o DACA não serão aceitos. Para os que já estão inscritos no programa, o seu status legal e outras permissões (como trabalhar e estudar em uma universidade) começa a
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Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/blogs/right-turn/wp/2017/11/21/abject-cruelty-deporting- 60000-haitians/?utm_term=.8a1f29b819aa>. Acesso em: 19 jan. 2018.
expirar em 2018 – a menos que o Congresso aprove uma lei que encontre uma brecha no sistema, todos os Sonhadores perderão o seu status até março de 2020. Com a perda do DACA, estes jovens podem ser deportados e enviados de volta para países com os quais a maioria não possui familiaridade alguma79.