1. Contextualização do Objecto de Estudo
1.4. Contexto Regulamentar da Edificação
Tendo em vista a leitura e compreensão dos objectos abrangidos pela área de estudo, torna-se fundamental a análise da legislação relativa à edificação, responsável por determinados aspectos formais e construtivos das obras da época. Evidencia a evolução das exigências programáticas, funcionais e higiénicas, com implicações nos edifícios habitacionais, desde a sua estruturação e organização até à configuração dos fogos, passando pela sua própria imagem. Dadas as preocupações higienistas, assim como a própria evolução do papel do Estado (a administração local e a central), surgem os primeiros regulamentos destinados a normalizar e regulamentar as construções urbanas e substituir a insuficiente regulamentação dos Códigos Civis e das posturas municipais.
A partir de 2 de Outubro de 1845, a edificação é condicionada à apresentação de "prospectos" (Henriques da Silva, 1997).
Em 31 de Dezembro de 1864 foi publicado o decreto responsável pela elaboração do primeiro Plano Geral de Melhoramentos da Capital. Este documento introduz a obrigação da edificação à apresentação o projecto de obra ao Ministério das Obras Públicas, mas será todavia revogado pelo Regulamento de Construções Civis, aprovado por decreto de 6 de Junho de 1895, que atribuiu às Câmaras Municipais de Lisboa e do Porto a responsabilidade pela aprovação dos projectos de obra. O referido Plano Geral de Melhoramentos da Capital estabelece que a altura dos edifícios em ruas de largura superior a 18 metros não devem exceder os 19 metros medidos da "calçada ou passeio até à parte superior da cornija".
O Decreto de 2 de Julho de 1867 tira a exigência desta relação, passando a permitir-se uma altura até 20 metros em arruamentos com largura superior a 7 metros. É também estabelecida uma altura mínima “de qualquer pavimento” de 3 metros.
Em 1903 é publicado o Regulamento de Salubridade das Edificações Urbanas, no qual se incluem as primeiras “Condições hygienicas a adoptar na construção dos prédios”. Este influencia directamente a volumetria e a configuração geral dos prédios de rendimento. A altura máxima de 20 metros torna-se permitida apenas em arruamentos de largura superior a 18 metros, sendo no entanto permitida a construção de um andar recuado acima do plano de fachada. Estabelecem-se pés direitos mínimos (3,25 m para o piso térreo e primeiro piso, 2,75 para quartos e quinto andares e 3 metros em cave), assim como a imposição da
com uma altura mínima de 60 cm. Os tradicionais pátios e saguões também conhecem regras de salubridade: a área mínima para os pátios deverá ser 30 ou 40 m2 em edifícios com altura igual ou superior a 18 metros e a área mínima de 4m2 para os saguões destinados a iluminar vestíbulos, antecâmeras ou escadas ou de 9m2 para os saguões destinados a iluminar e arejar cozinhas. Quantos aos espaços interiores, estes também são abrangidos pelas preocupações ”higienistas”: no caso das zonas comuns, passam a ser obrigatórias a iluminação e ventilação da caixa de escadas e passa a ser exigida a instalação de uma latrina e uma pia de despejo independentes, no exterior ou em locais ventilados. A área mínima das janelas ficou fixada em 1/10 da área do compartimento, estipulando o mínimo em 0,8m2 nos quartos, cuja dimensão mínima obriga aos 25m3/pessoa (9m2x2,75m). Esta legislação obriga ˋa apresentação de plantas, alçados, cortes e demais elementos necessários à verificação do disposto pelo diploma de 1864.
O novo Regulamento de Construções Civis, aprovado pelo Decreto de 6 de Maio de 1909, confere às repartições técnicas dos concelhos de 1ªclasse, a responsabilidade pela aprovação dos projectos de obra. É só nesta altura que se torna obrigatória a assinatura dos projectos "pelos indivíduos julgados hábeis para assumir a execução das obras" que não viria a ser aplicada. A 8 de Maio do mesmo ano, retomam-se algumas disposições do decreto anterior, designadamente em relação à apresentação dos projectos. exigem-se "inteligíveis, cotados minuciosamente" e deverão incluir elementos mais detalhados, tais como memória descritiva, , planta topográfica e pormenores dos "motivos mais importantes da construção".
A Lei nº1670 de 15 de setembro de 1924, obriga à assinatura do projecto de obras por parte de um técnico habilitado para a construção civil. Em 1930, a cidade de Lisboa conhece a publicação de uma legislação municipal: o Regulamento Geral da Construção Urbana para a Cidade de Lisboa. Este estabelece variadas disposições que introduzem diversas alterações no prédio de rendimento lisboeta. Para além da fixação de dimensões mínimas (como os anteriores regulamentos) são introduzidos padrões qualitativos diferenciados: a cidade apresenta-se dividida em 3 Zonas de Construção, com standards de exigência diferentes. A primeira zona é relativa às grandes artérias centrais (nesta zona é exigida a assinatura dos projectos de obras por engenheiros civis ou arquitectos), a segunda zona diz respeito à restante mancha construída ficando a periferia pobre e degradada relegada para a terceira zona do documento. Em função da sua localização, a distinção de zonas do presente regulamento irá necessariamente influenciar funcionalmente as edificações lisboetas.
A altura dos edifícios permanecem dependentes da largura dos arruamentos onde estes estão inseridos, só que com uma regra directa, a regra dos 45º (idêntica à do Regulamento Geral das Edificações Urbanas, ainda hoje em vigor que foi divulgado algumas décadas depois) mas com um máximo de 21 metros. Este regulamento generaliza os 3 m para os pés direitos exceptuando-se o piso térreo (com um mínimo de 3,25 m e, no caso de comercio, 3,5m), o primeiro piso (igualmente 3,25 m) e os referidos pisos acima da cornija (2,75 m).
Com o fito de elevar as condições de higiene e ventilação estabelece-se uma área mínima de fenestração em função da área da superfície dos compartimentos (1/8, com um mínimo de 1 m2).
À semelhança do regulamento anterior, são reguladas as dimensões dos pátios (diâmetro mínimo de metade da parede confinante mais alta) e saguões (nos que servem cozinhas e quartos de arrumações – um por fogo – diâmetro mínimo de um ¼ da parede confinante mais alta; nos que servem espaços destinados à higiene, distribuição ou arrumos, diâmetro mínimo de 1/6) para além da criação da regra para dimensionamento de passagens laterais (também em função da parede confinante mais elevada, numa proporção de ( 1/5).
Quanto aos espaços interiores é fixada uma área mínima de 9m2 em 2/3 dos compartimentos (excluindo os destinados as funções de higiene, distribuição ou arrumos), assim como a área mínima de 2m2 e diâmetro inscrito de 1,20m para o compartimento da casa de banho.
Nos logradouros impõem-se mínimos de profundidade (metade da altura do edifício e um terço em quarteirões parcialmente ocupados) e de área (30m2). Esta legislação, em conjunto com o Regulamento de Conselho de Arte e Arquitectura, publicado em 1929, são estipulados novos e mais exigentes requisitos que vão conduzir a uma definição de processo de projecto muito próxima da praticada até à década de sessenta (aquando da aprovação do Decreto nº 166/70) em que se torna obrigatória a entrega de declarações de conformidade dos projectos de obra.
Ao longo do processo de edificação estudado, nunca a Câmara Municipal, nem outras instâncias de poder alcançaram a imposição de normas regulamentadoras da qualidade estética ou tão meramente das volumetrias, embora tivessem surgido numerosas propostas nesse âmbito. Jamais se transpôs um estado de empirismo nas considerações sobre as tipologias arquitectónicas que mais se ajustavam às Avenidas Novas e à cidade resultando no evidente ecletismo existente.