2. Caracterização do Objecto de Estudo
2.9. Os Compartimentos
2.9.1. A ORGANIZAÇÃO DOS COMPARTIMENTOS SEGUNDO A SUA HIERARQUIA
A organização da compartimentação interior é estabelecida segundo diversos critérios de hierarquia:
1. A relação com a envolvente exterior;
2. A obtenção de ventilação e iluminação naturais;
3. A relação e complementaridade dos espaços pertencentes às diferentes zonas da casa.
A valorização e reconhecimento da vista sobre a rua relacionando o fogo com a envolvente exterior (1.), promove os espaços junto à fachada principal virados sobre a rua, sendo que nos casos em que o edifício se implanta num gaveto, os espaços mais valorizados se posicionam junto à fachada virada para a artéria com maior destaque urbano. Os espaços habitualmente posicionados junto à fachada principal são portanto os compartimentos pertencentes à zona social: as Salas, a Saleta, o Escritório, a Sala de Jantar e, em alguns casos, um Quarto (sendo este o Quarto Principal do fogo possivelmente destinado ao casal dono ou arrendatário da habitação), funcionando este também como mais uma Sala ou como Espaço de Recepção mais reservado.
Os compartimentos localizados à fachada tardoz valorizam-se, não pelo acesso à vista da rua e seu fervilhante ambiente urbano, mas pelo acesso às escadas de serviço/emergência comumente inseridas nas traseiras. É aqui que se situam os compartimentos de serviço e por vezes um espaço social, a Sala de Jantar que usufrui da proximidade da Cozinha.
Os compartimentos mais valorizados situam-se junto à fachada, não só como meio de relação com a envolvente exterior, mas também como meio de obtenção de ar e luz naturais (2.). Nas situações em que o lote é profundo e os vãos abertos nas fachadas se apresentam insuficientes para a admissão de iluminação e ventilação naturais, o projectista recorre a soluções de saguão ou criação de mais uma frente livre (criando uma faixa do lote livre de construção). Os espaços localizados junto a estas “frentes livres” (Fontoura, 2008) são geralmente os espaços da zona íntima e privada da família, os Quartos e as Toilettes e, em certas ocasiões, um espaço de serviço como uma Instalação Sanitária ou uma Copa nos casos de maior proximidade com a fachada tardoz. Em redor dos saguões dispõem-se espaços privados da família de menor relevância, os WCs e as Salas de Banho e/ou os Quartos dos Criados.
Consequentemente, os compartimentos menos valorizados tais como os espaços de serviço com menor permanência, os Quartos de Armários, as Arrecadações e as Despensas ou os compartimentos ligados a actividades exclusivamente nocturnas dos Quartos dos Criados situam-se nos espaços interiores (em que não é possível a abertura de vãos).
A complementaridade dos espaços e respectiva natureza das actividades que neles decorrem (3.) (maior ou menor importância, zona social ou zona de serviço, uso diurno ou uso nocturno, maior ou menor permanência) são também responsáveis pela sua distribuição na compartimentação interior. Os espaços mais valorizados hierarquicamente são os compartimentos da zona social, tais como: a Sala, a Saleta, o Escritório, e a Sala de Jantar. Seguem-se os compartimentos da zona privada da família, tais como, o Quarto Principal e os outros Quartos da Família e posteriormente os espaços de serviço como o WC a Sala de Banho. Como divisões menos privilegiadas apresentam-se os Quartos dos Criados e os espaços de arrumação como as Arrecadações e as Despensas. A valorização dos espaços sociais no interior do fogo é também ilustrada pela vontade de ocultação dos espaços de serviço; em que estes são geralmente separados por um corredor ou por uma antecâmara.
Os compartimentos destinados a actividades complementares localizam-se em proximidade, como nos seguintes conjuntos funcionais:
Quarto e Toilette;
Sala e Saleta;
Sala, Saleta e Escritório.
2.9.2. ORGANIZAÇÃO DOS COMPARTIMENTOS POR SEGMENTOS
Os espaços de habitação no âmbito deste estudo organizam-se internamente por partes:
1. Fogos Bipartidos;
2. Fogos Tripartidos.
Os fogos bipartidos (1.), de forma de divisão mais elementar, reflectem-se pela disposição de um grupo de compartimentos junto à fachada principal e outro junto à fachada tardoz divididos por um corredor de circulação, geralmente paralelo à rua, entre ambos complementado por vezes por um ou mais saguões. O eixo de circulação e iluminação “parte” e/ou segrega os espaços da casa, na medida em que os compartimentos mais públicos se posicionam mais perto da entrada do fogo e os mais íntimos mais longe.
Os fogos tripartidos (2.) são segmentados baseados no carácter funcional dos seus compartimentos: espaços sociais, espaços privados e espaços de serviço. Constituem-se por três conjuntos de espaços: uma parte que se relaciona com a fachada principal, outra parte de proximidade à fachada tardoz e uma terceira parte que se desenvolve em profundidade entre as duas fracções anteriores. A terceira fracção não se encontra em contiguidade com nenhuma fachada, pelo que o projectista recorre a soluções de saguão e/ou pátio para a admissão de iluminação e ventilação naturais. A circulação interior principal destes fogos faz-se perpendicularmente ao plano da fachada principal, interligando os três segmentos de compartimentos.
2.9.3. A ORGANIZAÇÃO DOS COMPARTIMENTOS SEGUNDO A SUA FUNCIONALIDADE
Os fogos que constituem o objecto de estudo, enquanto espaço privado da família que o habita, retratam os códigos da vida social e familiar da transição do século XIX para o século XX. A compartimentação interna, a sua organização e lógicas de hierarquização traduzem as actividades quotidianas familiares e sociais que ocorrem nos espaços da casa. As tarefas quotidianas praticadas nas habitações apresentam-se ligadas às necessidades básicas humanas:
comer, estar, dormir, assim como às funções domésticas de manutenção da casa: limpeza e arrumos.
Dado o avanço tecnológico e a utilização de novos materiais, sem esquecer as novas exigências elementares de salubridade e higiene, os residentes deste período lisboeta reclamam conforto e rapidez na execução das tarefas domésticas. Para tal, são criadas novas peças de mobiliário e equipamento fixo. A hierarquia e organização espacial destas habitações constituem-se também como fruto dos renovados requisitos. Existem compartimentos específicos nos fogos, ainda que de diferente ordem de acordo com o posicionamento social da família, que estão destinados ao desempenho de actividades adequadas ao quotidiano familiar e residencial.
Podem-se distinguir três áreas específicas:
A zona social (A.) inclui espaços ligados a diferentes rituais e códigos de saber estar e receber (Fontoura, 2008). Este é um período na história da cidade em que as famílias se reúnem à noite para conversar, convidando habitualmente outros familiares e amigos para jantar e socializar.
A zona privada (B.), onde se encontram os espaços de estar e dormir dos diferentes elementos constituintes da família.
A zona de serviço (C.), onde se desenrolam as actividades domésticas de manutenção e limpeza da casa.
Quanto à disposição da compartimentação, os espaços organizam-se segundo o princípio regularizador em que os espaços sociais se encontram junto à fachada principal virada para a rua, os espaços privados e de serviço junto ao saguão e os restantes espaços de serviço como Cozinha e a Sala de Jantar junto à fachada tardoz.
2.9.3.1. OS ESPAÇOS SOCIAIS
Os compartimentos dos fogos que são destinados a funções e práticas sociais, os Espaços Sociais, são constituídos por:
1. A Antecâmara, Hall ou Vestíbulo;
3. A Sala de Jantar;
4. O Escritório e o Gabinete;
5. A Sala de Bilhar;
6. O Boudoir;
7. e o Quarto junto à Fachada Principal com Comunicação Directa com uma Sala.
Os Espaços Sociais são os compartimentos nos quais se realizam encontros e actividades sociais entre os vários membros da família residente, e entre a família e seus convidados e amigos. São espaços de cariz essencialmente burguês e albergam os jantares familiares e sociais, assim como as festas, elaboradas cerimónias de receber e estar tão características deste extracto social e desta época. Ilustrando o culto das aparências burguês, o projectista e/ou família residente procuram afirmar a posição e estatuto social através destes compartimentos. Apresentando-se no topo da hierarquia da compartimentação do fogos (essencialmente junto à fachada principal), atribui-se a estes espaços um maior cuidado ao nível dos seus materiais de revestimento (recorrendo a materiais nobres como a madeira e a pedra) e decoração, dado que são a imagem da casa, aquilo que os proprietários e/ou arrendatários apresentam aos seus convidados e à sociedade.
Regista-se a presença, nos fogos mais abastados, de uma maior quantidade destes compartimentos, através da qual se verifica a possibilidade da produção de divisões consoante os vários níveis de sociabilidade, os vários níveis de intimidade na socialização e os diferentes tipos de actividades. Esta diversificação justifica os espaços de Salas de diferentes áreas e/ou funções específicas como a Sala de Bilhar ou a Sala do Fumo.
Os diversos compartimentos deste grupo posicionam-se em proximidade, existindo muitas vezes ligações directas entre os seus espaços, através da abertura de vãos nas paredes divisórias. Estas uniões promovem uma maior amplitude e continuidade espaciais e criam comunicações entre os diversos espaços, assumindo-se como uma herança das habitações anteriores ao século XX, em que se circulava através dos compartimentos para chegar a outros na ausência do espaço de corredor.
2.9.3.1.1. A ANTECÂMARA, HALL OU VESTÍBULO
Os espaços da Antecâmara, Hall ou Vestíbulo (1.) são inerentes ao momento de entrada e recepção no fogo e existem essencialmente em casas mais abastadas nas artérias mais
importantes em que se procura a afirmação do estatuto social da família residente através da sua qualificação. Para além da função de recepção, funciona também como um espaço distributivo de ligação directa ou indirecta (através do corredor) aos outros compartimentos do fogo funcionando pontualmente como espaço de convívio.
2.9.3.1.2. A SALA E A SALETA
O compartimento da Sala (2.) é o espaço destinado por excelência ao encontro da família e recepção dos seus convidados. Aqui passam-se os serões em família, conversa-se, joga-se, lê- se. É a divisão mais importante da casa (em conjunto com a Sala de Jantar), e consequentemente, a divisão mais ampla, com melhor vista sobre a envolvente exterior estando localizada junto à fachada principal, com a decoração mais cuidada. Encontra-se geralmente anexa a um eventual Escritório, ou à Sala de Jantar, ou até mesmo a um Quarto (muitas vezes com ligações directas entre estes espaços).
Nas habitações das famílias mais endinheiradas, regista-se regularmente a existência de mais do que um compartimento contíguo denominado de Sala, ou Saleta se apresentar menor área, permitindo à família estar segundo várias ordens de intimidade, em que uma Sala pode ser do usufruto exclusivo dos seus elementos e a segunda ou terceiras Salas, normalmente em contiguidade entre si e possuindo necessariamente decoração de maior ostentação do que a primeira, são reservadas à recepção e/ou utilização por parte dos convidados.
Fig. 14: Fotografia de uma casa burguesa em que se observa a ligação entre dois espaços sociais da habitação. A união da Sala e a Sala de Jantar resulta da composição “à francesa”. Arquivo Fotográfico da CML
2.9.3.1.3. A SALA DE JANTAR
principais espaços da zona social da casa (normalmente em conjunto com a Sala, mas assumindo por vezes o protagonismo através da sua área, da situação de excepção em planta ou da qualificação dos seus revestimentos), a Sala de Jantar assume um carácter misto (acentuado nas habitações mais modestas pela sua utilização como Sala ou até Quarto em simultâneo – Eleb e Blanchard, 1995), na medida em que é palco não só de refeições rotineiras e privadas da família, mas também de recepções aos convidados em torno da mesa para o ritual da refeição “em que se recriam hábitos e em que se cumprem diversos códigos de saber estar e saber receber.” (Fontoura, 2008).
Ocupa uma das posições mais privilegiadas no fogo, localizando-se junto à fachada principal (anexa à Sala e à Saleta) ou junto à fachada tardoz tirando partido da proximidade do espaço da Cozinha, muitas vezes por intermédio de uma Copa.
2.9.3.1.4. O ESCRITÓRIO E O GABINETE
De carácter fundamentalmente masculino, o espaço do Escritório (4.) (ou do Gabinete quando este apresenta dimensões mais reduzidas) na habitação destina-se à actividade laboral do patriarca da família e/ou à reunião social de elementos masculinos com o fito de conversarem e/ou fumarem (havendo por vezes um espaço próprio para prática desta última esta actividade). Obtendo a independência do espaço da habitação, e como apoio à prática profissional liberal, este compartimento possui regularmente uma entrada directa através do patamar de acesso aos fogos (ver capítulo “As Entradas”).
Este compartimento de recolhimento apresenta-se em regra junto à fachada principal e em ligação, por vezes directa através de vãos nas paredes divisórias, aos espaços da Sala, Saleta e Sala de Jantar.
2.9.3.1.5. A SALA DE BILHAR
À semelhança do compartimento descrito no item anterior, o espaço da Sala de Bilhar (5.), característico das habitações mais endinheiradas, tem um cariz masculino sendo, no entanto, destinado exclusivamente ao convívio social entre homens e à prática do jogo de bilhar.Como espaço constituinte da zona social da casa, esta divisão localiza-se no conjunto junto à fachada principal constituído por Sala, Saleta, Sala de Jantar e Escritório, sendo normalmente associado a este último.
2.9.3.1.6. A SALA DO FUMO
A Sala do Fumo (6.) inclui-se nos sector dos compartimentos exclusivamente masculinos, e serve aos homens das habitações mais abastadas como acolhimento reservado ao acto de fumar acompanhado de reuniões sociais masculinas, rituais efectuados essencialmente no período após as refeições.
2.9.3.1.7. O BOUDOIR
Paralelamente aos espaços sociais masculinos, regista-se a existência do espaço do Boudoir (6.), um espaço herdado do movimento rococó, destinado ao convívio feminino mais reservado. Trata-se de uma divisão/sala pequena de decoração galantemente mobiliada (Pais da Silva e Calado, 1995), habitualmente localizada na transição entre a Sala e o Quarto, e é atribuída às habitações de luxo.
Fig. 15: Fotografia de um Boudoir em Sutton Park. In http://www.dave-ford.co.uk
2.9.3.1.8. O QUARTO JUNTO À FACHADA PRINCIPAL COM COMUNICAÇÃO DIRECTA PARA UMA SALA
Verifica-se frequentemente a designação de um compartimento junto à fachada principal e em comunicação directa com uma Sala, ou outro espaço social como Quarto (7.). Com efeito, esta divisão pode funcionar como mais uma Sala (quando esta possui ligação directa através de vãos nas paredes divisórias com o conjunto Sala, Saleta, Sala de Jantar, Escritório, etc.), ou como um Quarto, seguindo a nomenclatura presente nos Livros de Obra da época, eventualmente para o pernoitamento pontual de algum hóspede. Apesar da localização
que provêm da fachada principal, há o registo destas divisões que não detêm a supracitada união aos espaços sociais da casa, denotando uma preocupação por parte do projectista na criação de privacidade para além da intenção de organização funcional do fogo obrigando ao uso deste como Quarto enquanto espaço englobado na zona íntima família.
Este compartimento garante uma flexibilidade de negociação, na óptica do proprietário, ao possibilitar anunciar uma casa que detém mais ou menos um Quarto e mais ou menos uma Sala, conforme a procura existente.
2.9.3.2. OS ESPAÇOS PRIVADOS
Os compartimentos destinados às actividades diárias íntimas tais como estar, dormir e permanecer de forma reservada e/ou individual, desenrolam-se no segmento da casa que inclui os espaços privados da família. Este constitui-se por:
1. Os Quartos;
2. O Quarto Principal;
3. E a Toilette.
Neles desenvolvem-se actividades ligadas ao intelecto como a leitura, o estudo, ou a escrita; associadas ao sono onde os residentes dormem e pernoitam; ligadas à recepção privada de pessoas íntimas aos elementos da família ou ainda reservados às crianças e ao seu cuidado.
Observa-se a intenção por parte dos projectistas em concentrar estes espaços numa única zona do fogo, mais íntima reservada, e muitas vezes dotada de um corredor privado, que inclui os Quartos e os Toilettes, associados a outros espaços da zona de serviço da casa ligadas à higiene, tais como as Salas de Banho e os WCs, e ocasionalmente uma divisão destinada à armazenagem e tratamento da roupa.
À semelhanças das ligações que se estabelecem entre os conjuntos de espaços sociais da casa, através de vãos existentes nas paredes divisórias entre os diversos compartimentos, registam- se também uniões que interligam os espaços íntimos da habitação. Verificam-se ligações de comunicação directa entre estes espaços, tais como entre dois Quartos (unindo por ex. o Quarto da mãe ao Quarto dos filhos), entre um Quarto e um Toilette, ou entre um Quarto e um compartimento de higiene como uma Sala de Banho, entre um Quarto e um espaço social mais reservado como uma Saleta ou entre um Quarto e um Escritório ou Gabinete.
2.9.3.2.1. OS QUARTOS
A vulgarização da presença de uma cama por cada elemento da família do princípio do século XX conduz à concepção dos espaços de Quarto (1.), enquanto divisão íntima destinada ao repouso e sono do cada um, transversais a todas as habitações. Como consequência das preocupações higienistas e de salubridade reguladoras do plano de Ressano Garcia (ver capítulo “Ressano Garcia e o Plano das Avenidas Novas”), os quartos são agora iluminados e ventilados naturalmente em substituição das extintas Alcovas, enquanto pequenos compartimentos interiores adjacentes a salas destinados a dormitório desprovidos de luz e ar natural. Como tal, estes espaços posicionam-se orientados para uma frente do edifício habitacional ou para um saguão ou pátio quando a primeira situação descrita não é possível e apresentam-se em termos hierárquicos, como os espaços mais importantes do segmento privado da casa e seguem-se aos espaços sociais relativamente à prioridade concedida na sua implantação. Na generalidade dos casos, existe mais do que um quarto por habitação, em que um assume o papel protagonista de quarto dos donos da casa, o Quarto Principal. A importância conferida pelo projectista a cada Quarto é auferida pelo seu posicionamento, mais ou menos importantes, e pelos espaços que lhe são anexos, em maior um menor quantidade.
2.9.3.2.2. O QUARTO PRINCIPAL
O uso dado ao Quarto Principal (2.) das habitações depende, efectivamente, da opulência e dimensão da casa e, previsivelmente, do grupo social a que a família residente pertence.
Nas casas mais abastadas e de maior área observa-se ainda a separação dos quartos, em continuidade com o passado, em que o Quarto Principal, de maior área, é destinado à mulher relegando o repouso do marido para outro quarto mais pequeno ou para uma cama no Escritório ou Gabinete. Esta separação é natural a uma sociedade em que o casamento não se baseia no amor, mas numa aliança entre famílias. Face aos outros quartos, este compartimento de maior área implanta-se numa localização de excepção ou numa zona privilegiada da casa, junto à fachada principal ou junto ao logradouro, e possui possíveis ligações com outros espaços da casa. A diminuição da área das casas no intervalo temporal em análise é responsável, no entanto, pelo surgimento do quarto conjugal, o compartimento reservado ao repouso do casal dono ou arrendatário da habitação que possui frequentemente uma ou duas camas para o sono das crianças.
2.9.3.2.3. O TOILETTE
O espaço do Toilette (3.), geralmente anexo ao Quarto Principal ou a um ou dois dos restantes Quartos, encontra-se essencialmente nas habitações mais fartas e é responsável pela atribuição à habitação de um estatuto mais elevado (Eleb e Blanchard, 1995). De natureza essencialmente feminina, o espaço do Toilette acolhe, para além do ritual de beleza das senhoras de “fazer a toilette” que consiste em vestir, calçar, pentear, maquilhar, etc., reuniões mais íntimas entre mulheres ou até mesmo o repouso da dona da casa.
2.9.3.3. OS ESPAÇOS DE SERVIÇO
O espírito que enquadra a burguesia lisboeta desta época, fundamentado pelo culto das aparências, propicia a procura de ambientes de encenação no acto de receber. A demanda constante pelo requinte e aspecto cuidado da casa e respectiva família impõe a estas habitações a necessidade da existência de espaços de serviço próprios, inacessíveis aos convidados, para a realização de tarefas diárias de apoio a estes rituais. Tarefas estas que se exigem rápidas e confortáveis conforme o avanço tecnológico o permite.
Os Espaços de Serviço da casa podem ser subdividos em quatro conjuntos (Fontoura, 2008) a considerar: o conjunto relativo à confecção e preparação dos alimentos e/ou refeições; o conjunto referente à higiene pessoal; e o conjunto concernente o tratamento e armazenagem