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C IDADES DA BELEZA E DO CAOS : OS EQUIPAMENTOS CULTURAIS NA GEOGRAFIA DO CENTRO

37 Convento de Santo Antonio Rio de Janeiro.

O desenvolvimento paulatino do projeto do Corredor Cultural através de ações pontuais lhe garantiu, em conseqüência, uma duração indefinida que o mantém ativo até hoje, após quase três décadas de seu surgimento. As intervenções que se seguiram ao exemplo carioca foram mais radicais e já delineadas para uma visão cenográfica de requalificação, como o sucedido com o Pelourinho, em Salvador, e o Recife Antigo. A composição cênica de espaços urbanos, no entanto, nunca deixou de ser prerrogativa do Corredor Cultural, haja vista o destaque dado ao Convento de Santo Antonio no Largo da Carioca. Aliadas à diretriz de valorização cultural, outras duas se faziam ainda mais urgentes, quais sejam a de reverter o processo de esvaziamento do centro e recuperar o controle social da região, então em franco processo de anomia, como já visto, a ponto de o então Prefeito Marcelo Alencar (1989-1992) apelidar o Largo da Carioca de “Vietnã

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Conforme processo nº. 1.213-T-86 e inscrições, datadas de 14 de março de 1990, de nº. 106, nas folhas 63/65 do Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; nº. 531, nas folhas 15/16, do Livro do

Carioca”, em face dos furtos constantes, da falta de asseio e da desorganização de barracas e da massa humana que tomava de assalto as calçadas da região, sob os protestos da mídia e dos comerciantes locais.

Desses três vetores de ação, propriamente dito, o de maior sucesso foi, sem dúvida, a valorização das atividades culturais do centro, com o aproveitamento de edifícios históricos antes mal utilizados ou ociosos em espaços de entretenimento. A iniciativa pioneira da prefeitura carioca inseria o Rio de Janeiro e, por tabela, o Brasil, na tendência mundial de intervenções urbanas ancoradas em grandes projetos de centros culturais ou de museus. A transformação do Paço Imperial em espaço de exposições, inaugurado em 1985, dava início ao processo de instalação de equipamentos culturais de porte nos antigos prédios da região, com o lançamento, em seqüência, do CCBB (1989), da Casa França- Brasil (1990), do Espaço Cultural dos Correios (1993), do Centro Cultural Light (1994), do Centro de Artes Hélio Oiticica (1996), do Espaço Cultural da Marinha (1998), do novo Cine Odeon (2000) – reformado e enobrecido como sala de projeção – e do Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia (MAGALHÃES, op. cit.).

De todos esses novos espaços, o CCBB foi, inquestionavelmente, o de maior repercussão, não somente pela monumentalidade do edifício e localização privilegiada, mas pela injeção de recursos que o tornava centro de referência para receber as mega- exposições de artes plásticas e dinamizar a produção cultural da cidade.

O sucesso do resgate da Praça XV e redondezas como área de circulação de um público cultivado, consumidor de atividades culturais e cioso da importância do patrimônio histórico animou a adoção de medidas semelhantes em direção à Lapa, Largo da Carioca, Rua Uruguaiana e redondezas. Em pouco tempo, outras novas regiões eram incorporadas aos planos de renovação urbana, com a criação das áreas municipais de preservação ambiental da Saúde, Santo Cristo e Gamboa (1988), Cruz Vermelha (1992) e Rua Teófilo Otoni (1997) (MAGALHÃES, op. cit.).

Essa primeira fase de intervenção urbana na cidade do Rio de Janeiro correspondeu ao período de redemocratização do Estado brasileiro até o final do governo Collor (1990- 1992) e início do governo Itamar Franco (1992-1995), aproximadamente. As ações até então eram engendradas sob a perspectiva mais pontual de “pôr a casa em ordem”, o que lhes dava um caráter de experimentação, de planejamento feito às pressas com as motivações da ocasião. A falência da Prefeitura do Rio de Janeiro, no entanto, declarada ao

final da administração Saturnino Braga (1985-1988), lançou a necessidade de se desenvolver uma planificação mais estruturada das medidas intervencionistas na cidade. O passo à frente só viria a ser dado a partir do sucesso da Conferência Internacional das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, a ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, quando a parceria desenvolvida com o Governo Federal para a promoção do evento carreou para o município recursos públicos para melhoria da infra-estrutura urbana, possibilitando a construção da Linha Vermelha. A projeção e os ganhos decorrentes do evento alçavam o planejamento urbano a um nível mais profissionalizante, voltado para a busca e criação de oportunidades que dessem retorno ao município, com a desejada internação de recursos e realização de investimentos. O horizonte financeiro e mercadológico na validação de decisões a serem tomadas marcava a emergência da segunda fase do urbanismo carioca recente, a partir daquele momento mais ajustado ao ideário monetarista dominante, ou seja, à primazia do econômico que fundamentava as ações de city marketing, medidas valorizadoras do parque urbano construído para assegurar a competitividade da cidade no conjunto das cidades globais.

As medidas preliminares adotadas sob aquela perspectiva ocorreram ao final da segunda administração Marcelo Alencar (1989-1992), em projetos que buscaram as áreas de maior visibilidade da cidade, como o Rio-Orla42, e as intervenções em zonas potencialmente lucrativas para a atividade econômica, como a Avenida Chile, experiências que logo sustentariam o lançamento de programas mais audaciosos, como o Rio-Cidade, iniciado em 1993 com o objetivo de resgatar as principais vias da cidade por meio intervenções urbanísticas voltadas para as melhorias sociais, econômicas e culturais de cada bairro.

O período que se seguiu, correspondente às administrações César Maia (1993- 1996) e Luis Paulo Conde (1997-2000), delineava um cenário mundial de intensa atividade econômica especulativa, a atormentar os países mais vulneráveis economicamente pela fuga de capitais. As metrópoles de posição estratégica regional e/ou global realizavam intensas reformas no seu tecido urbano, com requalificação de áreas portuárias e empreendimentos de lucratividade segura, voltados para a moradia, negócios e diversão

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Projeto lançado em 1990, com o objetivo de dotar as praias de infra-estrutura para atender seus

freqüentadores e acolher de forma condizente o turismo receptivo. As intervenções realizadas organizaram as atividades de comércio e lazer da orla, com a reforma e/ou construção de calçadão para pedestres e pistas

das camadas sociais mais abastadas. No Rio de Janeiro, as políticas urbanas então empreendidas pretenderam organizar a malha urbana da cidade para torna-la viável como pólo cultural e econômico, capaz de responder às exigências contemporâneas de tecnologia e funcionalidade. A ordenação do espaço público tornou-se prioritária numa escala mais profissional, com a adoção de projetos de apelo regulador da ordem social, como o Rio- Cidade e Favela-Bairro (1994), e do planejamento estratégico da cidade (1995), realizado por consultoria técnica catalã. A política da prefeitura de Nova York sob a gestão de Rudolph Giuliani, famosa pela implementação do programa de tolerância zero no combate ao crime e infrações, era o modelo exaltado, à época, pela administração César Maia, para a valorização do espaço público. Sob esse prisma, a constatação do IplanRio43 de que na

Região Metropolitana do Rio de Janeiro os deslocamentos a pé (19,7%) são superiores ao do automóvel (11,5%) provocou uma nova abordagem do urbanismo carioca no centro, uma vez que a importância dada aos veículos agendava o desenvolvimento de planos e intervenções urbanísticas. O novo paradigma passou a priorizar, em conseqüência, a circulação dos cerca de dois milhões diários de pedestres no centro do Rio de Janeiro e a manutenção da ordem urbana. Com esse foco, as recuperações planejadas em vias públicas tiveram o rumo alterado, como observado na Rua do Lavradio – onde se previa inicialmente expandir o terminal de ônibus ali existente e assentar novas barracas de ambulantes – e na Rua do Carmo – também destinada a receber ambulantes (MAGALHÃES, op. cit.). Ambas tiveram a programação urbanística revertida para receber praças e tratamento paisagístico condizentes à circulação de um público mais abonado, com a retirada das linhas de ônibus e o incentivo ao comércio de antiquários, caso da Rua do Lavradio, e o gradeamento e a segurança privada, em convênio com a Seguradora Nova América, para transformar a Rua do Carmo em via enobrecida para restaurantes e lojas.

38 Paisagem da Gamboa. Rio de Janeiro.

Com a mudança de orientação no tratamento urbanístico do centro do Rio de Janeiro, as áreas de menor potencial comercial e ainda de características residenciais, como

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a região da Praça Cruz Vermelha, permaneceram à margem das atenções das políticas municipais, sem deslanchar de forma efetiva os projetos de que foram objeto. Os esforços da prefeitura eram direcionados preferencialmente para os trechos economicamente dinâmicos da cidade, que, a partir dos investimentos recebidos, tornaram-se novamente atrativos para o comércio mais sofisticado das lojas de grife e para novos nichos de atividade, com a instalação de filiais de conceituadas instituições de ensino superior. A segunda etapa de intervenções no centro do Rio de Janeiro se alinhava, portanto, à perspectiva de enobrecimento urbanístico que atingia as principais metrópoles do globo e que logo se caracterizaria no modelo adotado pelas demais capitais brasileiras, padrão esse sobejamente conhecido da elite nacional desde as primeiras décadas do século XX, com a abertura da Avenida Central, conforme observa Magalhães:

O processo de requalificação do centro do Rio de Janeiro pode ser visto, dentre outras formas, como um processo de reafirmação do domínio do espaço do Centro pelas camadas de mais alta renda, numa disputa de projetos simbólicos e econômicos para aquele mesmo espaço. Tal disputa, já ocorrida no início do século com a Reforma Passos, envolve, necessariamente, processos de elitização (MAGALHÃES, op.cit.).

O que poderia ser tratado como vanguarda da experiência brasileira no desenvolvimento de um urbanismo enobrecedor parece revelar, no entanto, o diferencial que separa o caso brasileiro dos hodiernos programas de reurbanização europeus e norte- americanos: a realidade social. Embora o contexto do capitalismo tardio seja o mesmo em todo o globo, a requalificação urbana processada para a circulação de segmentos sociais cultivados e de maior poder aquisitivo nos centros das metrópoles brasileiras pouco realizaram em termos de apropriação de espaço para moradia daquele público. No caso do Rio de Janeiro, mesmo com a revogação, por lei de 1994, da proibição de uso residencial no núcleo central da cidade, objeto do decreto 322/1976, as iniciativas ficaram concentradas na área comercial e economicamente ativa do centro, sem elevar as regiões da Cruz Vermelha, do Bairro de Fátima, do Morro da Conceição, da Saúde ou da Gamboa, ainda residenciais, a lugares concorridos para moradia da classe média. Santa Teresa, inclusive, com o ar pitoresco de suas curvas, arquitetura e história, que a tornava atraente como local de novos valores culturais e de proximidade do trabalho para a nova classe social privilegiada de jovens executivos em meados da década de 1980, deixou de levar avante o apelo conquistado diante do crescimento da violência e das favelas em seu entorno. Os casos do Pelourinho, em Salvador, e do Recife Antigo, igualmente refletem

essa característica nacional, qual seja, a de serem zonas de turismo e/ou de entretenimento e trânsito de camadas mais privilegiadas socialmente, mas não de moradia. O processo da capital baiana é exemplar dessa situação.

A cidade partida

Com a inscrição do Pelourinho, em 1985, como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, o projeto de reabilitação do centro histórico encomendado pela prefeitura à arquiteta italiana Lina Bó Bardi, que mantinha vínculos afetivos com Salvador desde o tempo em que ali morara, na década de 1950, previa a manutenção dos vínculos sociais e da cultura popular da área, com acomodação da população de baixa renda local. Diversas intervenções foram realizadas com esse foco, conforme o projeto piloto da Ladeira da Misericórdia, que recuperou casarões deteriorados para uso residencial e comercial, no pavimento térreo, das camadas populares locais. A retomada do processo pelo Governo Estadual da Bahia, a partir de 1991, mudou, no entanto, a orientação das medidas intervencionistas, diante do potencial turístico e, conseqüentemente, econômico da região. Os usos culturais e de entretenimento da massa construída, em conjunto com o programa de restauração dos monumentos históricos, tornaram-se o motivo principal dos investimentos realizados, com o aporte de mais de US$ 76 milhões no período de 1992 a 1999 (NOBRE, 2003). Os reflexos não tardaram a aparecer: a dinamização do turismo em Salvador aumentou a taxa de ocupação dos hotéis em 62% no intervalo de 1981 a 1997, além de triplicar a participação de hóspedes estrangeiros. O fluxo de passageiros no aeroporto internacional soteropolitano praticamente dobrou de 1984 a 1995, ao aumentar de 500 mil para 945 mil.

Sob a ênfase da viabilidade econômica da região, as populações de baixa renda foram, como sempre, as mais prejudicadas na apropriação e consumo do espaço urbano, dada a pressão que as levaram a deixar o centro histórico. O Estado da Bahia tinha a posse e o usufruto de quase metade dos imóveis da região, o que possibilitou a implementação de políticas tanto de relocação em casas restauradas quanto de compensação financeira. Essa última opção foi a mais eficaz para os propósitos de elitização urbana do Governo, porquanto fez diminuir a participação local das camadas de baixa renda:

Em 1995, por volta de mil das famílias residentes, 85% do total, recebeu US$ 900 mil como compensação pela relocação, perfazendo uma média de US$ 900

é menos que US$ 100 por mês, não é surpreendente que a maioria das famílias decidiu se mudar (NOBRE, op. cit.)

A diminuição dos estratos sociais depauperados não foi, todavia, devidamente compensada pela incorporação de grupos de renda mais elevada. Embora a população residente no Pelourinho tenha sido reduzida drasticamente em 67% no período de 1980 a 2000, ao despencar de 9,8 mil habitantes para 3,2 mil, as iniciativas de renovação urbanística pouco afetaram a composição de renda da população residente, nada obstante o crescimento bastante relevante da participação de camadas sociais mais abonadas, que pulou de 2% para 6% (NOBRE, op. cit.). Os grupos de baixa renda continuaram a ser maioria absoluta na composição populacional local. Nos arredores do centro histórico, a população anteriormente assentada manteve-se homogênea, com pouca interferência na distribuição de faixas de renda e sem observar a expulsão que caracterizou a queda do número de residências no Pelourinho.

O sucesso da requalificação do perímetro urbano colonial de Salvador denota a particularidade do caso brasileiro, uma vez que preserva o espaço simbólico de circulação dos públicos mais cultivados, promove a dinamização econômica e a geração de empregos, sem ter, contudo, a capacidade de os integrarem a regiões ainda de posse ou fruição de camadas mais populares, mesmo com o investimento público na reforma e adaptação do casario histórico. Em síntese, ainda não conseguem gerar as ondas de especulação que transformam bairros centrais inteiros no lugar da moda para se morar; tampouco logram sucesso na valorização de construções antigas como espaços residenciais

possíveis de serem convertidos ao novo gosto e estilo de vida dos profissionais da economia pós-industrial, conforme a experiência soteropolitana demonstrou:

39 O apelo cenográfico do Pelourinho restaurado.

Por outro lado, somente 16% de casas restauradas são utilizadas para fins residenciais, enquanto que a maioria dos pisos superiores permanece vazia. Isso é um paradoxo numa cidade onde a maioria da população ganha menos de 5 salários mínimos (76% de acordo com o último censo do IBGE) e vive em condições precárias em favelas e cortiços (NOBRE, op. cit.).

As intervenções nos centros urbanos brasileiros se deparam com a complexidade da estrutura social de extremos da população, o que enseja lidar com um problema maior que a eventual vulnerabilidade de antigas comunidades legalmente residentes no local. A ausência de políticas públicas efetivas no enfrentamento dos problemas sociais brasileiros faz recair sobre as metrópoles o acúmulo de conseqüências de toda uma massa humana excluída dos direitos elementares de cidadania e mantidas apenas em condições de sobrevivência. A ocupação ilegal, em decorrência, das vias públicas como lugar de moradia e comércio provoca os estados de anomia motivadores da depredação e falta de asseio urbanos, a corroer, assim, o conjunto de condições e hábitos conquistados ao longo do processo civilizador em favor da afabilidade, bem-estar e saúde da sociedade. Sobre a questão, a crítica de Otília Arantes (op. cit., p. 234) à atual face higienizada do Pelourinho revela muito do desconforto das ciências sociais em lidar com a hodierna realidade da cidadania construída pelo consumo (CANCLINI, 1999), ambiente para o qual as políticas urbanas também encontram dificuldades em propor soluções. Nem por isso os processos de enobrecimento urbanístico em casos como o de Salvador devem ser desprezados, porquanto, do contrário, seria fazer tabula rasa do anterior abandono e descaso de um sítio histórico único, depauperado ao longo do século passado, com parte de seu casario em ruínas, e decaído pelas atividades ilícitas e criminosas, no comprometimento da própria massa edificada e da sustentabilidade econômica da região. As restrições inexoráveis provocadas pela desregulamentação econômica pouca margem de manobra oferece para a inserção das metrópoles na paisagem global da economia de serviços e informação, paisagem que cada vez mais se torna artificial e se constitui em mercadoria, apesar da valorização da cultura e da história na recuperação dos centros antigos das cidades. Se há opções para a constituição das paisagens no século XXI, essas serão provavelmente em torno da organização do consumo, conforme observa Sharon Zukin:

40 O casario colonial do Pelourinho