B ANCO DO B RASIL E AS CONDIÇÕES DE EMERGÊNCIA DO C ENTRO C ULTURAL Cada vez que se diz é natural, há manipulação, dominação.
16 Moeda comemorativa dos 100 anos de funcionamento
do Banco do Brasil, em 1954.
Os eventos de auto-sugestão histórica celebrados na ocasião consistiram no lançamento, em 1954, de medalha de ouro comemorativa do centenário de funcionamento da Instituição, com a imagem do Visconde de Itaboraí no reverso, e a exposição bibliográfica, iconográfica e numismática realizada na Biblioteca Nacional, trabalho preparatório para a inauguração, em 28 de janeiro de 1955, do Museu e Arquivo Histórico
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A narrativa de origem e os vínculos a fatos históricos do País continuam a ser temas privilegiados nas peças institucionais do Banco do Brasil, a exemplo do Relatório Anual 2004, composto e ilustrado com base no passado histórico da Empresa, e da proposta de tema para o Relatório de 2005, a comemoração do
nas dependências do Edifício Visconde de Itaboraí, construído no Rio de Janeiro em 1938, na esquina das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, sob o espírito modernista do Estado Novo19.
Sob a mesma lógica, mas em escala inferior ao que sucederia trinta e quatro anos depois, com a criação do CCBB carioca, a iniciativa de instalação do “setor cultural” coincidia com um período de debate sobre os destinos do sistema financeiro nacional e se vinculava a uma celebração de justificativa duvidosa, com uma “linha de tempo” irregular e vazada, mas defendida sob o argumento de coerência e unidade, conforme ressalva de Fernando Monteiro (1985, p. 105), funcionário idealizador do museu de numismática e responsável pelas homenagens, à época, do “centenário” de fundação: “Historicamente e de fato, porém, a instituição é a mesma que o Visconde de Itaboraí fundou, criada pela Lei nº. 683, de 5 de julho de 1853 (...)”.
A iniciativa, no entanto, teve um caráter episódico, uma vez que lhe faltou a característica básica da “invenção das tradições”: a repetição. O contexto da época era outro, o keynesianismo vigia em pleno vigor e o sucesso da economia mista impedia um discurso unilateral de verdade, fosse à esquerda, fosse à direita. Com as condições favoráveis às atribuições do Banco do Brasil, as homenagens então prestadas tiveram o efeito de reforçar o apelo institucional e o poder de uma empresa tutelada pelo Estado. Além disso, o aspecto histórico se restringiu à comemoração da data em si, sem a tangibilidade e visibilidade de um passado expresso arquitetonicamente, haja vista que o “setor cultural” então inaugurado fora localizado longe do público, ocultado em andares de um prédio que se inseria na arquitetura moderna da primeira metade do século XX, respaldada por uma lei que permitia terem os prédios da Avenida Presidente Vargas apenas 22 andares erguidos sobre pilotis.
O resgate histórico não era preocupação da Empresa e, sim, de parcela de seus funcionários, imbuídos do espírito público que as ações do Banco do Brasil em prol do desenvolvimento fomentavam. As especulações sobre o destino do antigo edifício do Convento do Carmo, adquirido antes do seu tombamento, ilustram bem a questão:
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Idealizado para funcionar inicialmente como hotel voltado aos parlamentares da então Capital Federal, o prédio, ao não concretizar a sua destinação, foi posteriormente utilizado pelo Banco do Brasil para abrigar a Carteira de Comércio Exterior – CACEX e o “setor cultural”, representado pela biblioteca e pelo museu de
O edifício do antigo Convento do Carmo, na atual Praça Quinze de Novembro, foi adquirido da Mitra Arquiepiscopal pelo Banco do Brasil, entre outros bens, por escritura de 28 de setembro de 1950. Pretendia o Banco do Brasil demolir os imóveis adquiridos, inclusive o do Convento do Carmo, para construção de monumental prédio projetado pelo arquiteto Ari Garcia Rosa, plano que foi adiado e depois abandonado com a transferência para Brasília da sede social do Banco. Alertada por especialistas e amantes das tradições da cidade, entre os quais Raimundo de Castro Maio, reviu a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional sua anterior posição e, afinal, em 1963, resolveu inscrever o imóvel no Livro do Tombo, salvando-o da demolição inevitável. Tombado o prédio, chegou a ser intenção do Banco restaura-lo, a exemplo do que fora feito, com tanto êxito, com o do Arco do Teles, na mesma praça. E nele instalaria seu Museu, Arquivo Histórico e Biblioteca. Desistindo dessa linda idéia, o Banco do Brasil, por escritura de 8 de fevereiro de 1973, transferiu a propriedade do imóvel à Sociedade Brasileira de Instrução, entidade que fundou a extinta Academia de Comércio e continua mantendo unidades de ensino superior desde muitos anos instaladas no famoso casarão – solitário testemunho da época em que a cidade, ainda concentrada no morro do Castelo, começava a fixar-se na várzea – onde até 1913 esteve também alojado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (MONTEIRO, op. cit., 11).
As comemorações de 1954 e 1988, no entanto, se caracterizavam, além do ritual de origem, pela evocação do nacionalismo. Nesse particular, para Hobsbawm, a invenção das tradições tem muito a dizer sobre a idéia de Nação como a entendemos hoje, ou seja, como um agrupamento político autônomo e uniforme pelos vínculos culturais e pelo conjunto de preceitos, normas e símbolos comuns. Longe, no entanto, de ser o resultado de tempos imemoriais, o tecido tramado pelas raízes populares, o conceito hodierno de Nação se constituiu no início do século XIX, quando a propagação da Revolução Industrial impulsionou o desenvolvimento capitalista e o surgimento do Estado moderno. O termo Nação, segundo Hobsbawm (apud FITZ, 2005, p. 13), se disseminou por volta de 1830, período que corresponde às políticas fiscais e militares fomentadas sob uma perspectiva nacionalista para efeito de atenuar as diferenças e os conflitos internos dos habitantes de um mesmo território e assim obter a aquiescência velada para as medidas adotadas pelo poder vigente. Antes do século XIX, o vocábulo “nação”, derivado da palavra latina natio
– a ninhada parida pela fêmea de um animal –, era empregado, por associação, como
designação dos habitantes de uma mesma região, via de regra sob o olhar da diferença, para não se confundir com o povo. Roma assim se referia às “nações dos bárbaros” e os colonizadores cristãos às “nações indígenas” da América. O termo “povo”, populus, era empregado pelos romanos para diferenciar os plebeus livres da classe dos nobres, os patrícios, palavra por sua vez derivada de pater, o pai no sentido mais social e religioso para contrastar com genitor ou parens, a paternidade biológica. Pátria, palavra também
senatorial romano se associava, assim, ao sentido de “pais da pátria”, à semelhança de
patrimonium, o conjunto de bens pertencentes ao pater. Em contrapartida, a plebe era vista
como “protegida pela pátria”. Alicerces conceituais do Antigo Regime, da monarquia como forma divina (pela autoridade do Pai = Deus) e natural de governo, tais concepções passaram a ser combatidas a partir das revoluções americana e francesa, quando o Iluminismo se apropriou da terminologia para secularizar o poder e instaurar uma concepção política emanada do e a ser exercida para o povo, doravante organizado sob a forma de um Estado independente, a pátria (FITZ, op. cit., p. 12-13), palavra de significado distinto ao de país, termo derivado do latim tardio pagensis (habitante de uma aldeia, aldeão) e do seu sucedâneo francês, pays (região, país) e que está vinculado à noção de terra como lugar de origem (HOUAISS, 2001). Estado, por fim, palavra também de origem latina, já era utilizada por Cícero, na Roma antiga, na acepção política, status romanus, como o conjunto das instituições que controlam e administram um determinado território. Weber (2003, p. 60) atualiza o conceito de Estado ao assinalar que “nos dias de hoje devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território – a noção de território corresponde a um dos elementos essenciais do Estado – reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física”.
Os conceitos, portanto, de nação, nacionalidade e nacionalismo, são relativamente recentes, do século XIX, e expressam, em sua origem, a necessidade de coesão social para a proteção das economias capitalistas. A aderência, por outro lado, ao imaginário popular constituído pelos traços comuns manifestos em termos culturais e lingüísticos proporcionou a evocação de ritos de origem, processos simbólicos suscetíveis de estabelecer e desenvolver costumes. Para Anderson (1989), tais conceitos são “artefatos culturais”, de definição e análise controversas, sem o rigor científico. Nação, para o autor, é “uma comunidade política imaginada – e imaginada como implicitamente limitada e soberana”:
É imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas (...), embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão. (...) A nação é imaginada como limitada, porque até mesmo a maior delas (...) possui fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das quais encontram-se outras nações. (...) É imaginada como soberana, porque o conceito nasceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico, divinamente instituído. (...) Finalmente, a nação é imaginada como comunidade
porque, sem considerar a desigualdade e exploração que atualmente prevalecem em todas elas, a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo e horizontal" (ANDERSON, 1989, p. 14-16).
No caso brasileiro, a necessidade de se construir uma “consciência nacional” remonta ao império, quando o Estado brasileiro recém-fundado incentivou a formação do seu corpo de mitos e tradições. Tendo a França como modelo, então a fonte cultural hegemônica da época, diversas medidas foram implementadas com a finalidade de se criar uma historiografia do Brasil e desenvolver a construção da identidade nacional, a exemplo da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB, em 21 de outubro de 1838, com subvenção do governo imperial e baseado no Institut Historique, criado em Paris, em 1834. A narrativa de origem que prevaleceu, instituída por concurso do IHGB e vencida pelo naturalista alemão Karl Friedrich Philipp Von Martius em 1847, com o texto “Como se deve escrever a história do Brasil”, recomendava a continuidade da obra civilizadora européia ao tempo que defendia “o aperfeiçoamento das três raças humanas que nesse país são colocadas uma ao lado da outra” (VON MARTIUS apud FITZ, op. cit., p. 21). A orientação de Von Martius, no entanto, passava ao largo da equanimidade e privilegiava a herança colonial portuguesa, a qual deveriam se subordinar as raças “India e Ethiopica”. A saga brasileira se iniciava, assim, com a vinda dos portugueses e a partir da “certidão de batismo” que a carta de Pero Vaz de Caminha instituía ao descrever a terra recém descoberta, onde tudo se dá.
Desconhecida por mais de trezentos anos, a carta só viria a ser publicada, assim mesmo sob censura das partes do texto consideradas impudicas, em 1817, na “Corografia Brasílica”, obra do padre Aires de Casal (PEREIRA, 2000). O apelo visual da descrição de Caminha logo serviu de apoio para a imagem simbólica de terra provedora, o mito de origem a ser celebrado anualmente. A ação a ser efetivada para esse fim antecipava a orientação de Von Martius, consoante iniciativa da Assembléia Constituinte de 1823 (FITZ, op. cit., p. 20) de estabelecer a data comemorativa do descobrimento em 3 de maio – dia em que teria sido criada a cruz de Cristo –, de modo a também celebrar, por inferência, a expansão do cristianismo e a herança civilizadora européia20. A publicação
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Nada obstante a primeira missa no Brasil ter sido rezada no dia 26 de abril de 1500, num banco de coral na praia da Coroa Vermelha, no litoral sul da Bahia, e a segunda em primeiro de maio de 1500, conforme carta de Pero Vaz de Caminha, o jesuíta baiano Frei Vicente do Salvador, autor da primeira obra denominada História do Brasil, de 1627, assinalava em seu livro que “O dia em que o capitão-mor Pedro Álvares Cabral
integral da carta de Caminha só se efetiva no Segundo Reinado, em 1877, por obra de Varnhagen21. À época, sob os auspícios do governo imperial, o IHGB implementava diversas medidas no sentido de produzir os fatos e vultos nacionais que corroborariam a história do Brasil que então se escrevia para efeito de consolidar a idéia de Nação. Ainda assim, mesmo com o evento da República, a data do descobrimento do Brasil só vem a ser alterada em 1946, quando o 22 de abril se estabelece como o dia em que os portugueses chegaram à costa brasileira.
As ações e práticas desenvolvidas no Segundo Reinado em termos de projeto nacional, com o IHGB à frente, correspondiam ao contexto da época, marcado pelo declínio das monarquias e o fortalecimento das nações. A França, via de regra, mantinha-se como fonte de inspiração às medidas a serem adotadas, o que alçava a política da Terceira República francesa (1871-1940) a modelo a ser seguido.
O movimento de unificação que arrolava os territórios europeus, a dar origem a países como a Itália e Alemanha, demandava a popularização de um conjunto de valores morais e espirituais capazes de estabelecer o sentido de pertencimento necessário para a defesa das terras ocupadas e, por conseguinte, da monarquia ou grupo de poder dominante. Além da representação simbólica de “Itália”, era necessário desenvolver também a idéia de “italianos”. Sob esse prisma, a integridade da Terceira República deve muito, de acordo com Hobsbawm, às ações simbólicas desenvolvidas para mobilizar os diversos grupos sociais, à esquerda e à direita, em torno da idéia de comunidade. A apropriação dos valores da Revolução Francesa de 1789 proporcionou os mecanismos adequados para se manter uma relação direta com a coletividade, até às camadas mais humildes da população. A bem sucedida evocação de tradições “inventadas” se orientou, basicamente, por três importantes novidades deliberadamente introduzidas na sociedade da época: (I) a institucionalização de um ideal de “ser” francês, a partir de uma estrutura montada para conquistar corações e mentes por meio de manuais e da ação educativa desde o ensino primário, sob o imaginário dos apelos revolucionários e republicanos de 1789; (II) a invenção das cerimônias públicas para expressar a satisfação das massas perante o poder do Estado, com a criação e comemoração de datas nacionais como o Dia da Bastilha; e a produção em massa de morreu por nós, e por esta causa pôs o nome à terra que havia descoberto de Santa Cruz e por este nome foi conhecida muitos anos. (apud Carvalho, 2005).
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monumentos públicos (III), a chamada “estatuomania” (AGULHON apud. ENDERS, 1999).
No caso brasileiro, a invenção das tradições do Segundo Reinado se associava ao surto expansionista capitalista que caracterizou a era Mauá e à validação da monarquia como aspiração nacional e vínculo de origem cultural com a Europa, apesar da escravidão. A colonização portuguesa era elevada à condição de ação civilizadora européia, mas com foco na herança cultural e no progresso da França. O francesismo que passou a dominar o contexto sociocultural do período, a encobrir com platibandas os telhados coloniais brasileiros, legitimava a construção de um caráter nacional a partir de uma perspectiva européia, o que infligia um sentimento de atraso e a necessidade de compartilhar da evolução desenvolvimentista francesa.
A ação pedagógica do Segundo Reinado não chegou a provocar uma “estatuomania” por uma série de fatores, inclusive econômicos, dado o custo que a fundição de estátuas na Europa acarretava. Desenvolveu, contudo, a produção dos vultos nacionais que pontuariam a linha do tempo da história do Brasil. O conflito desde já colocado, em função da origem “não brasileira” de personagens a serem rememorados, se associaria a outro, o de conciliar o herói ou a heroína ao programa nacional e aos valores das elites imperiais. Como resultado, Pedro Álvares Cabral e Tiradentes foram rebaixados a figuras secundárias no panteão da historiografia imperial. O primeiro, “apenas onze dias brasileiro” (SOUSA SILVA apud ENDERS, op. cit.), por não estar à altura de um Colombo; o segundo, por ser um plebeu desajeitado em meio a nobres sonhadores e, consoante juízo de Joaquim Manuel de Macedo (apud ENDERS, op. cit.), com “todos os defeitos de suas qualidades”, ou seja, levar “a franqueza até a leviandade, a valentia e a coragem até a imprudência” e, assim, a comprometer “a si e aos outros com expansões inconvenientes”. O herói legítimo é o imperador, D. Pedro I, a merecer a estátua monumental na Praça da Constituição, prevista no projeto de historiadores do IHGB, liderados por Manoel de Araújo Porto Alegre e Joaquim Norberto de Souza Silva. Inaugurada a 30 de março de 1862, com o imperador representado na posição eqüestre dos monumentos reais e cercado pelas alegorias (índios e animais) representativas dos rios Amazonas, Paraná, São Francisco e Madeira, a obra, ao tempo que mostrava a supremacia da “ética monárquica” sobre a nova pedagogia de produção de vultos nacionais, tinha o
conteúdo simbólico de transmitir “a ideologia triunfante (...) transmitida pelo IHGB, a de uma monarquia criadora e unificadora da nação” (ENDERS, op. cit.).
Com o advento da República, novos nomes adentraram no Panteão nacional, outros foram sistematicamente desfalcados da importância anteriormente dada. A necessidade de ofuscar o simbolismo da monarquia elevara Tiradentes à figura de principal herói nacional, ora em ações mesmo de confronto, como a iniciativa de renomear a Praça da Constituição como Praça Tiradentes, ora em cerimônias institucionais, como o festejo dos cem anos da morte do mártir da Inconfidência Mineira, com a inauguração em 21 de abril de 1894 de estátua em sua memória na principal praça de Ouro Preto.
17 Estátua eqüestre de D. Pedro I, de