B ANCO DO B RASIL E AS CONDIÇÕES DE EMERGÊNCIA DO C ENTRO C ULTURAL Cada vez que se diz é natural, há manipulação, dominação.
6 Moeda do reinado de D Pedro, cunhada na Casa da
Moeda do Rio de Janeiro, 1840.
O dinamismo do quadro econômico-financeiro proporcionado pela cultura e exportação de café abriu o leque de oportunidades negociais e de investimentos que caracte
nda longa” do capitalismo
De acordo com
capitalista pode ser demarcado em três etapas evolutivas – Capitalismo de livre concor
como a necessi
a baixo preço, sua incorporação ao process
rizaram a passagem para a segunda metade do século XIX, reveladas nos empreendimentos do principal empresário brasileiro do período, Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá. Suas realizações pioneiras introduziram o Brasil na dinâmica capitalista moderna, incorporando-o à primeira grande transformação tecnológica pós- revolução industrial, correspondente ao domínio da máquina à vapor de fabrico mecânico, cuja periodização define a segunda curva de desenvolvimento da evolução sistêmica do capitalismo, consoante a teoria das ondas longas.
O caso Mauá: o Brasil na segunda “o
Mandel (1982), o conjunto de leis do movimento e da reprodução
rência, Imperialismo e Capitalismo tardio –, caracterizadas por momentos de crise cujos fatores de superação levam o capitalismo a se reestruturar em novos níveis.
O processo de aprofundamento das relações capitalistas na escala global está condicionado, nesse sentido, à busca de superlucros, que podem ser entendidos
dade de remuneração crescente do capital a partir da produção de mercadorias com rentabilidade acima da taxa média de lucros. A redução dos custos de produção torna-se inevitável, exigindo investimentos em máquinas e equipamentos mais eficazes e, conseqüentemente, maior alocação de recursos para tal fim. O aumento da produtividade decorre, portanto, da articulação entre a expansão da massa de capital e a redução do preço de custo das mercadorias, obtida por intermédio de máquinas tecnologicamente superiores e pela elevação da composição orgânica de capital (a relação entre o capital fixo, “máquinas”, e o capital variável, “mão-de-obra”).
O avanço tecnológico não foi, contudo, o único fator de superlucros na história do capitalismo: “a descoberta da força de trabalho
o de trabalho capitalista e a produção de matérias primas baratas também serviram a esse objetivo” (MANDEL, op. cit., 58). As três fontes básicas de superlucro – tecnologia, mão de obra e matérias primas – demarcam, conforme a proeminência de uma sobre a outra, a sucessão de etapas do capitalismo.
Na era do Capitalismo de Livre Concorrência, os primeiros países a se industrializarem contavam com mão-de-obra barata e um exército industrial de reserva (contin
rocesso de organização institucional do ope
dial, considerada a relação de depend
e lhe é mais favorável, ou seja, onde o
dos em geral na posição de produtores de matéria-prima, atrelados a uma econom
gente de desempregados) suficiente para conter, no longo prazo, o aumento de salários reais; além disso, a expansão de ferrovias e o próprio processo de industrialização favoreceram amplas oportunidades de investimento.
Esses fatores, todavia, perderam a atratividade na era do Imperialismo. A elevada emigração de europeus para a América do Norte; o p
rariado; a elevação do preço de matérias-primas importantes12; e a industrialização intensa da Europa ocidental inverteram os índices anteriormente favoráveis ao capital, no que diz respeito à massa de população desempregada, ao nível dos salários reais e aos novos campos de investimento. Com esse novo cenário, o capital passou a ser exportado intensamente, já por volta de 1880, para áreas economicamente atrasadas do planeta, onde, entre outras oportunidades, condicionaram a produção, a baixo custo, dos setores da agricultura e da mineração aos interesses metropolitanos.
A acumulação acelerada do período, obtida em função do fluxo internacional de investimentos, teve o efeito de unificar o mercado mun
ência que as novas regiões geográficas passaram a ter com a associação de suas economias ao desenvolvimento dos países industrializados. O intercâmbio econômico generalizado entre as regiões subdesenvolvidas e as desenvolvidas não significou a homogeneização da economia mundial. A relação econômica assimétrica entre os países impediu a universalização da produção de mercadorias. Consentiu, apenas, com a circulação, incondicional e generalizada, das mercadorias.
Visto que é da natureza do capital se movimentar de acordo com a diferença no nível de lucro, o processo de acumulação se concentra ond
nível de produtividade for maior. Isso implica o desenvolvimento desigual em várias escalas.
No plano internacional, compreende a relação entre os países industrializados e os atrasados, manti
ia pré-capitalista retardaria e de inovação técnica incipiente, em virtude de não conseguirem acompanhar a corrida tecnológica.
12
Em termos regionais, significa o desnivelamento econômico entre as áreas de um mesmo território, de modo que as regiões subdesenvolvidas internas fiquem relegadas ao papel
nos competitivos para as mais fortes, resultante do afluxo de investi
cros, que por sua vez são determinados em função de inovações técnicas e do aumen
vestimento até que surja um novo período de expans
a periodi
de mercado consumidor, para o escoamento de mercadorias, e de fonte de suprimento de matérias primas e força de trabalho a baixo custo. Vários são os exemplos, quer nos países centrais, quer nos periféricos: caso da região do Mississipi em relação ao noroeste norte-americano; o sul da Itália frente ao norte industrializado; o nordeste do Brasil face ao sudeste.
Com respeito à questão urbana, representa a transferência de mais-valia das firmas e ramos industriais me
mentos para os segmentos de maior lucratividade, o que afeta as cidades em si e entre si.
O desenvolvimento desigual está na lógica do capitalismo e evolui segundo a busca de superlu
to da composição orgânica do capital.
Em linhas gerais, os ciclos econômicos obedecem a fases de acumulação acelerada, de superprodução, de desaceleração e de subin
ão, via de regra, pela renovação do capital fixo. Esse trajeto, em termos estritamente econômicos, implica uma regularidade correspondente em média a um período de sete a 10 anos, o tempo de rotação necessário para substituir o maquinário por equipamentos tecnologicamente superiores para aumentar a produtividade (MANDEL, op. cit., p. 76).
Acontecimentos históricos, sociais e políticos, no entanto, confluem para problematizar e enriquecer a história do capitalismo, de modo a evidenciar um
zação maior dos movimentos cíclicos. O conceito de “ondas longas”, também denominadas de “curvas de desenvolvimento capitalista” (BALANCO, 2002, p. 39), propõe assim uma evolução sistêmica em termos de períodos mais extensos, em torno de 50 anos. Essa teoria já fora esboçada no século XIX, em percepções como a do teórico marxista russo Alexander Helphand (Parvus), e foi se consolidando no decorrer dos estudos de Kondratieff, Trotsky, Schumpeter, entre outros. A contribuição de Mandel, conforme própria ressalva, foi a de relacionar no processo de acumulação a longo prazo os mecanismos possíveis de influenciar a taxa de lucros, o que inclui guerras e revoluções na combinação de fatores.
Com essa perspectiva, o autor estabelece uma sucessão de quatro períodos: o primeiro diz respeito à Revolução Industrial propriamente dita, a época de paulatina difusão
ríodo inicial, de ascensão, se
disting revolução
ent ele
e n
apitalismo em formação, iniciativa que foi da máquina a vapor, que vai do final do século XVIII até a crise de 1847; o segundo corresponde à onda longa da primeira revolução tecnológica, o intervalo de 1847 à década de 1890 em que a máquina a vapor de fabrico mecânico se dissemina como a principal máquina motriz; o terceiro se reporta à onda da segunda revolução tecnológica de 1890 até a Segunda Guerra Mundial, na qual os motores elétricos e à combustão abrangem a totalidade da indústria; e, por fim, o quarto período, correspondente à onda longa da terceira revolução tecnológica, manifesta no “longo período iniciado na América do Norte em 1940 e nos outros países imperialistas em 1945/48, caracterizado pelo controle generalizado das máquinas por meio de aparelhagem eletrônica (bem como pela gradual introdução da energia nuclear)” (MANDEL, op. cit., p. 84).
Essas curvas de desenvolvimento representam duas fases distintas de um mesmo processo. Conforme expresso no esquema mandeliano, o pe
ue por uma tecnológica e a
assimilação de novos bens de produção que tem o
efeito de gerar novos espaços de produção,
elevar a taxa de lucro, promover a acumulação e
o crescim o ac rado, fazer expandir o capital
então ocioso e desvalorizar o capital
anterior investido em maquinário obsoleto. Com
a absorção da nova tecnologia, a fase de
descenso se impõe pela generalização dos novos
meios d produção o conjunto da economia, o
que resulta na eliminação dos diferenciais
competitivos que antes sustentavam os saltos de
crescimento. A situação se reverte em termos de oportunidades para o capital, que observa o declínio dos lucros, a desaceleração econômica e o surgimento de dificuldades para valorizar o total acumulado.
Em termos de Brasil, a era do Barão de Mauá corresponde ao período áureo da incursão das forças produtivas brasileiras no c
7 Irineu Evangelista de Souza, Barão de Mauá.
abortad
e canhões para as marinhas mercante e de guerra brasileiras, além d
a ao padrão
tímulo às atividades mercantis, introdu
a reorganização do Estado
a pela longa duração da economia escravista, estrutura dominante avessa ao desenvolvimento capitalista.
As ações de Mauá inicialmente se voltaram para a construção de fundições e estaleiros, produzindo navios
e caldeiras, guindastes, prensas e outros equipamentos. Em seguida, expandiu suas atividades para a área de serviços públicos, quando, entre outras iniciativas, funda a companhia de gás para iluminação pública do Rio de Janeiro; instala empresas de navegação a vapor no Rio Grande do Sul e no Amazonas, a ligar de forma mais ágil os portos nacionais de norte a sul, assim como o Brasil à Europa; introduz as primeiras ferrovias do país; e inaugura a primeira linha telegráfica na cidade do Rio de Janeiro.
O surto expansionista do início da segunda metade do século XIX, particularmente os anos de 1851 a 1855, representou para Holanda (2002, p. 74) quase que uma ruptur
rural e patriarcal da economia brasileira, porquanto decorreu, em linha direta, da extinção do tráfico negreiro, promulgada pela Lei Eusébio de Queiroz de 1850. Pela primeira vez, os interesses de mercadores e especuladores urbanos se sobrepuseram aqueles orientados pelas mentalidades de raízes rurais.
A consolidação do Estado nacional coincidia com o processo de modernização da estrutura administrativa e dos mecanismos de es
zidos a partir de reformas jurídicas e de regulamentações econômico-financeiras, como a criação do Código Comercial de 1850, que assegurava a organização das sociedades comerciais e, em conseqüência, abria margem para incrementar o mercado acionário, ou seja, a bolsa de valores. Embora as atividades de corretor existissem desde o período colonial, a instalação da bolsa é admitida a partir do decreto imperial nº. 417, de 14 de junho de 1845, que regularizava a função do corretor. Em 1851, o decreto imperial nº. 806 aprovava o regimento dos corretores da praça do Rio de Janeiro.
As transformações que se iniciavam por volta de 1845 foram, nesse sentido, realmente pródigas na introdução de dispositivos da agenda liberal n
e da economia, conforme refletia a série de regulamentações voltadas para os interesses nacionais no que diz respeito ao trabalho livre, à propriedade privada, à atuação do Governo, à formação da burocracia, à constituição das forças militares e policial. Os indicadores econômicos favoráveis do período, observados no aumento da produção e na expansão do comércio, decorriam em grande medida dos investimentos realizados com
apoio do capital inglês, em virtude não somente dos interesses da presença inglesa no Brasil desde a chegada da família real, mas porque também a Inglaterra era, na época, a principal fonte de captação de recursos e empréstimos realizados no mercado externo (BENTIVOGLIO, 2003).
Os empreendimentos de Mauá deviam muito ao capital inglês, inclusive o projeto de desenvolver um grande banco no Rio de Janeiro. A disponibilidade de capitais ociosos pela qu
O banco privado de políticas públicas: o segundo Banco do Brasil
O Banco do Brasil organizado por Mauá, no en
de organizar as atividades financeiras e de se impor um controle efetivo à emissão de numerá
ado nacional, a partir de demonstrações sucessivas ral, não podia dispensar o controle monetário. Os banqueiros privados, entretanto, não estavam dispostos a se submeter facilmente ebra do comércio de escravos, sobre o qual haviam se constituídos sólidas fortunas, teria provavelmente atiçado, segundo Holanda (op. cit., p. 74), o espírito empreendedor de Mauá para a criação de um banco mais poderoso, capaz de ampliar as atividades financeiras para além das operações de câmbio que as limitadas casas bancárias existentes realizavam. Em 1851, junto a sócios, Mauá lançou a campanha de criação da instituição de crédito que denominou de Banco do Brasil, com capital inicial fixado em 10 mil contos, valor bastante elevado por comparação à produção exportável brasileira da época, que mal atingia 70 mil contos. Aprovado o estatuto da empresa pelo Governo imperial, o banco de Mauá passou a funcionar em agosto daquele mesmo ano (BANCO DO BRASIL, op. cit., p. 33-34).
tanto, teve vida curta. A necessidade
rio trouxe à tona a idéia de se criar novamente um banco sujeito à supervisão governamental. Ao contrário da posição de Souza Franco, que recomendava a coexistência de bancos emissores, constituídos em praças de circulação monetária regionais, o Governo defendia a sua prevalência como gestor da moeda, a ser efetivada através do monopólio de emissão consignado a uma instituição bancária. De acordo com Levy e Medeiros (2001), a corrente sustentada pelo Governo, sob o comando de José Joaquim Rodrigues, o Visconde de Itaboraí, então Ministro da Fazenda, decorria do processo de centralização do poder no Estado, que implicava o controle do crédito:
A formação gradativa do Est de força do poder cent
à centralização na sua área de atuação. Era fundamental que a fusão dos dois maiores bancos cariocas, o Comercial do Rio de Janeiro e o Banco do Brasil, de
Mauá, fosse promovida para criar o núcleo do novo Banco do Brasil (LEVY; MEDEIROS, op. cit.).
ntes emissoras, de
8 Verso da moeda comemorativa