• Nenhum resultado encontrado

B ANCO DO B RASIL E AS CONDIÇÕES DE EMERGÊNCIA DO C ENTRO C ULTURAL Cada vez que se diz é natural, há manipulação, dominação.

4 Moeda de ouro cunhada no reinado de D Pedro III e

de D. Maria I (1777 - 1799) para circular apenas no Brasil.

9

D. Rodrigo ainda foi secretário de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos de 1796 a 1801, presidente do Real Erário de 1801 até 1803, e ministro da Guerra e Negócios Estrangeiros de 1808 a 1812, sendo que

meio circulante e prover o Estado de recursos extra fiscais (Müller e Lima, 2002). A decisão real leva a crer que os gastos públicos pareciam não justificar o empreendimento, fato que em si demonstrava a política fiscal mais ortodoxa de Portugal em relação à iniciativa de outras nações à época, como a Inglaterra, que recorriam freqüentemente à emissão de papel-moeda para conseguir os recursos necessários para o financiamento de déficits orçamentários ou mesmo guerras.

A necessidade, no entanto, de financiar as despesas governamentais de uma Corte desterrada e carente de uma infra-estrutura adequada de acomodação trouxe a lume a urgência de se criar um banco emissor, iniciativa de que se incumbiu o príncipe regente D. João, ao assinar o Alvará de 12 de outubro de 1808 que instituiu o primeiro o Banco do Brasil, que também era o primeiro banco criado nos domínios portugueses e o quarto, no mundo, na qualidade de emissor de papel-moeda. Antes de sua criação, somente a Suécia, a França e a Inglaterra possuíam bancos emissores.

Apesar de o Alvará de 12 de outubro ressaltar o caráter público da instituição e a sua função econômica de impulsionar a economia através da indústria e do comércio com a oferta de crédito, o Banco do Brasil contava com a captação de recursos privados para poder iniciar as suas atividades. A condição de emissor, por sua vez, com a qual o estabelecimento se vinculava à Coroa, se justificava mais pela necessidade financeira de atender às elevadas despesas da Corte. A ambivalência de funções, portanto, já estava presente na origem do primeiro Banco do Brasil, conforme os termos do seu documento fundador:

Eu, o príncipe regente, faço saber aos que este meu alvará com força de lei virem: que atendendo a não permitirem as atuais circunstâncias do Estado, que o meu Real Erário possa realizar os fundos, de que depende a manutenção da Monarquia e o bem comum dos meus fiéis vassalos, sem as delongas que as diferentes partes, em que se acham, fazem necessárias para a sua efetiva entrada; (...)

Sou servido ordenar que nesta capital se estabeleça um Banco Público, que na forma dos Estatutos, que este baixam, assinados por Dom Fernando José de Portugal, do meu Conselho de Estado, Ministro Assistente ao Despacho do Português, D. Rodrigo recorre às novas idéias ilustradas para propor novas soluções, entretanto, devido à mentalidade tradicional existente na sociedade portuguesa de então, ele encontra vários obstáculos. Busca aliviar várias medidas da metrópole pesadas para as colônias, em especial no que diz respeito ao Brasil, e é defensor da concepção de um império luso-brasileiro. Tem papel atuante na transferência da Corte para o Rio de Janeiro e na assinatura dos tratados de 1810, sendo que a última medida demonstra a opção pelo Brasil como sede do império português. Vem a falecer em 1812 na cidade do Rio de Janeiro. (VAINFAS apud. FERREIRA, 2003).

Gabinete, Presidente do Real Erário e Secretário de Estado dos Negócios do Brasil, ponha em ação os cômputos estagnados, assim em gêneros comerciais, como em espécies cunhadas; promova a indústria nacional pelo giro, e combinação dos capitais isolados, e facilite juntamente aos meios, e aos recursos, de que as minhas rendas reais e as públicas necessitarem para ocorrer às despesas do Estado (BANCO DO BRASIL, op. cit., p. 16).

Anexo ao Alvará, o estatuto do novo estabelecimento lhe definia o nome, suas características e as prerrogativas de banqueiro do governo com que estava autorizado a funcionar pelo prazo de vinte anos, findos os quais se discutiria a continuidade da instituição ou simplesmente a sua extinção. As atividades do banco estavam condicionadas à captação de recursos privados, necessários para integralizar o capital inicial, fixado em 1.200 contos de réis e dividido em 1.200 ações de um conto de réis cada uma. O banco entraria em funcionamento tão logo fossem vendidas as primeiras 100 ações. Suas atribuições consistiam no desconto mercantil de letras de câmbio; na comissão das contas arrecadadas de particulares ou estabelecimentos públicos; no depósito de prata, ouro, diamantes ou dinheiro; na emissão de letras ou bilhetes pagáveis ao portador; no recebimento de qualquer soma oferecida à taxa de juros da lei; no comércio das espécies de ouro e prata; e na comissão que o monopólio de processar as vendas de diamantes, pau- brasil, marfim e urzela10 assegurava. O estatuto determinava ainda a formação de uma Assembléia Geral integrada por quarenta dos maiores acionistas, os quais deveriam ser todos portugueses. Qualquer dos quarenta membros, no entanto, poderia ser representado, por procuração, por não-portugueses, desde que estes fizessem parte do círculo dos acionistas majoritários. A administração do banco ficaria a cargo de uma junta, constituída por dez dos maiores acionistas, e por uma diretoria, integrada por quatro, sendo todos os quatorze membros remunerados pelo erário real. Anualmente, a assembléia deveria eleger cinco membros da junta e dois, da diretoria, sendo permitida a reeleição (BANCO DO BRASIL, op. cit., p. 17-18).

O capital mínimo exigido para funcionamento não foi, todavia, fácil de captar. Somente em 11 de dezembro de 1809, após 14 meses desde o seu alvará de criação, pode o Banco finalmente operar, mesmo assim na quantidade mínima de ações subscritas. Segundo Müller e Lima (2002), o insucesso da subscrição poderia ser explicado pela desconfiança do público e pela falta de conhecimento que o negócio “banco” ensejava diante de uma economia escravista-exportadora, habituada a investir seu capital na

produção de produtos agrícolas voltados para o mercado externo. A rentabilidade assegurada do grande comércio transatlântico teria desmotivado o interesse dos grandes comerciantes portugueses em aderir ao empreendimento. A escassez da moeda metálica poderia ter também contribuído para delongar a captação, já que a riqueza usualmente aferida em termos de terras e escravos não apresentava a liquidez necessária que permitisse obter recursos para subscrever as ações. Além disso, o temor de confisco das autoridades sobre a riqueza em forma de numerário não favorecia a poupança monetária, conforme fazia crer a falta de moedas nos bens arrolados em testamentos coloniais.

A dificuldade do Banco em integralizar seu capital ainda vigia em 1812, tendo em vista que, até então, somente 126 ações haviam sido adquiridas (SOUZA FRANCO, 1984, p. 16). Para reverter a situação e tornar as ações atrativas como negócio, a Coroa baixou o Alvará de 20 de outubro de 1812, por meio do qual o Real Erário passou a compor a base acionária da instituição, com o compromisso de lhe repassar recursos provenientes de arrecadação tributária pelo prazo de dez anos. O documento determinava, ainda, que nos primeiros cinco anos o erário abrisse mão dos dividendos a que faria jus, revertendo a sua parte em favor dos demais acionistas.

Concomitantemente a essa medida e aos impostos criados com aquela finalidade, a Coroa ainda incentivou a concessão de títulos nobiliárquicos e comendas para quem subscrevesse as ações do Banco. A estratégia logrou efeito e em 1815 o capital já correspondia a 581 contos de réis, embora, como negócio, continuasse muito aquém do potencial de mercado, uma vez que no mesmo ano foram abertas quatro companhias de seguros no Rio de Janeiro, cuja atratividade lhes garantiu a participação acionária de importantes capitalistas e a integralização do capital em 2.000 contos de réis (MÜLLER e LIMA, 2002).

5 Cédula do primeiro Banco do Brasil,