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C IDADES DA BELEZA E DO CAOS : OS EQUIPAMENTOS CULTURAIS NA GEOGRAFIA DO CENTRO

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a descentralização das atividades com a construção de um Central Business District em Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro (MAGALHÃES, 2002). A idéia não foi à frente, ainda que Lúcio Costa, já na década de 1970, tentasse retomar o tema ao propor a criação de um novo Centro Metropolitano em Jacarepaguá, também na zona oeste. Naquele período, o centro do Rio, assim como os bairros mais dinâmicos da cidade, ainda era lugar privilegiado de investimentos, principalmente na construção civil, em razão da grande excitação proporcionada pelo milagre econômico brasileiro. A demolição de edifícios remanescentes do “francesismo” carioca para o levantamento de espigões acarretaria, no entanto, a revolta de segmentos esclarecidos diante da desfiguração de pontos tradicionais da cidade, lançando o gérmen para a criação do Corredor Cultural no Governo Israel Klabin (1979-1980). Apesar de idealizado antes da redemocratização do País, o projeto do Corredor Cultural se consolidou na vigência de governos de tendência socialista – Governo Brizola no Estado do Rio (1983-1987) e Marcelo Alencar (1983-1986) e Saturnino Braga (1986-1988) na prefeitura – que proporcionaram o ambiente favorável para o Município legitimar em lei o projeto já em curso e sob diretrizes como a do planejamento participativo com as comunidades envolvidas.

A essa altura, transição para a década de 1980, a instalação da realidade econômica centro carioca, agravada com a eleição de um governo estadual socialista temido pelos investidores. A concorrência de bairros mais afluentes, como a Barra da Tijuca, e da cidade de São Paulo, com sua elite mais afinada à ordem econômica internacional, comprometia a sustentabilidade da região, em prejuízo do setor financeiro local, que perdeu a maior parte das sedes de bancos e de recessiva dava início a nova etapa do esvaziamento do

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empresas de grande porte para a praça paulistana. A transferência do pregão da Bolsa carioca para a de São Paulo, no ano 2000, foi a condição natural do processo de concentração econômica naquela capital.

Os efeitos perversos da fuga de agentes econômicos e do quadro de estagnação que arrolava o País em pouco tempo estariam visíveis nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, com as levas de desempregados e miseráveis a disputarem a sobrevivência nas calçadas. A inoperância em lidar com uma crise social num mundo em mudanças de difícil identificação, à época, fomentava a adoção de medidas paliativas, ora populistas, no tratamento da questão urbana, situação que contribuía para o alastramento do já crescente mercado informal. O relaxamento da fiscalização sobre o comércio ambulante, por sua vez, longe do alento pretendido, contribuía para a devastação do mobiliário urbano, com a obstrução de ruas, destruição de mudas de árvores, quebra do calçamento e aniquilação dos demais artefatos de natureza utilitária e urbanística (bancos, abrigos, caixas de correio, cercas, lixeiras, postes de iluminação) na sua fase mais crítica (início do governo municipal de César Maia – 1993/1996). A concorrência desleal com o comércio instituído legalmente dava margem a reações ainda mais desagregadoras da ordem social, com os comerciantes a levarem para o asfalto filiais de suas lojas, com exposição de mercadorias em lona, no chão, e pregão em voz alta (MAGALHÃES, op. cit.). A miséria fazia das praças e largos o abrigo de famílias inteiras, a viver de esmolas e biscates e a pernoitar nas ruas em razão do custo de transporte.

O cenário caótico instalado no Rio de Janeiro, espelho ampliado das dificuldades que abalavam a maioria das metrópoles brasileiras, ao tempo que legitimava as ações do Corredor Cultural, expunha as dificuldades do seu urbanismo “pé no chão”. Em outras palavras, carecia de um plano estratégico mais determinado, dada a abrangência com que fora elaborado no sentido de conter os processos de especialização econômica que limitavam o uso do centro e a perda de atividades tanto geradoras, em sua maior parte, de emprego para a classe média carioca quanto garantidoras da vitalidade econômica e cultural da área.

Sob esse aspecto, conforme observa Roberto Magalhães (op. cit.), o projeto do Corredor Cultural constituiu o seu objetivo de forma difusa, dado o uso indiscriminado dos conceitos de revitalização e requalificação urbana.

A disseminação da idéia de revitalização do centro transcorreu, segundo o autor, muito em função da mídia, que sempre valorizou as iniciativas do Corredor Cultural, ao veicular sistematicamente matérias sobre a recuperação da parte antiga da cidade em consonância à opinião generalizada de formadores de opinião e políticos, que assumiam como revitalização qualquer medida de recuperação urbana. Formado o consenso e o seu elo com o Corredor Cultural, o projeto logo virou sinônimo de recuperação de áreas históricas e a ser referido nos contextos mais diversos, inclusive aqueles fora do centro e mesmo da cidade do Rio de Janeiro.

O uso amplo do termo para ações mais condizentes de requalificação denotava, assim, ainda de acordo com Magalhães, o pouco desenvolvimento da discussão sobre a recuperação do centro carioca. O coração da cidade, apesar de tudo, mantinha-se relativamente vital, sem os bairros operários empobrecidos e os espaços industriais ociosos característicos dos ambientes comumente objeto dos planos de revitalização urbana, como a zona portuária do Rio de Janeiro e as áreas periféricas ao centro. Diferentemente da idéia de estruturação econômica e sociocultural de áreas inativas, o conceito de requalificação pressupõe o princípio de otimizar o uso do espaço:

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