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CONVERSA COM OS FILHOS

No documento Quem Ama Educa (páginas 100-102)

A separação de um casal sem filhos em geral é tão simples como o fim de um noivado ou de um namoro. O casal sofre, mas não envolve muito outras pessoas. E a separação de bens quase sempre já está prevista no contrato de casamento.

Quando o casal tem filhos a situação se complica. É preciso, ao conversar com eles sobre a separação, seguir algumas regras claras e sensatas em relação às questões básicas:

• Explicar o motivo da separação (sem entrar em muitos detalhes nem em questões subjetivas).

1 Informar quando e como será (informações práticas).

• Explicar o que acontecerá com eles (sem responsabilizá los nem envolvê-los, estando porém abertos a ouvir seus desejos).

• Dar guarida a todos os sentimentos.

• Responder a todas as perguntas pertinentes.

1 Reforçar o fato de que não serão ex-pai nem ex-mãe.

O melhor momento para falar da separação com os filhos é depois de ela ser decidida e assumida pelo casal. Não é o que costuma acontecer. Geralmente um dos cônjuges está secretamente envolvido com outra pessoa e vai saindo de casa aos poucos. Talvez o outro tenha percebido há tempos, mas, para não prejudicar os filhos, sofre calado. Contudo há situações em que toda a família é surpreendida.

Não há motivo para conversar com os filhos a cada momento sobre tudo o que acontece com o casal: se saíram juntos, se brigaram, se estão pensando em se separar etc. Mesmo que sejam afetados, os filhos não devem viver a si tuação conjugal. É preciso poupá-los sobretudo dos sinais amarelos, sejam congelantes, sejam explosivos, que ora abrem para o verde, ora para o vermelho.

A melhor conversa é a do casal com todos os filhos, pois evita que cada um receba a mesma notícia de maneira diferente, não só porque os pais falam de conteúdos e formas distintas mas também pelas diferenças de idade entre eles, que levam a divagações sofridas e desnecessárias.

Nem sempre essa solução é possível, pois é difícil juntar pais já separados, sobretudo quando restam conflitos conjugais que não foram resolvidos. Se resolverem conversar separadamente com os filhos, devem tomar cuidado para não deixá-los na posição de

árbitro ou de prêmio, sem acusar o cônjuge ausente, que não tem como se defender, nem mobilizar os filhos contra ele à medida que manifestam seus sofrimentos, maximizados ou não...

Convém lembrar sempre que o filho não vai ser fortalecido se um dos pais for massacrado justa ou injustamente, pelo outro.

O melhor lugar para ter essa conversa é a própria casa, sem interrupções de qualquer natureza. É importante reservar bastante tempo, para que todos os filhos sejam ouvidos. Não se deve interromper o fluxo das emoções — raiva, culpa, lágrimas ou agressividade têm de ser expressas. Os pais devem responder de forma exata, mas não fria, às perguntas, com o cuidado de delimitar o que é problema conjugal e o

Leia mais sobre o assunto no capítulo “Pais separados”, de meu livro Seja feliz, filho! (Editora Gente).

QUEM AMA, EDUCA!

que diz respeito ao relacionamento entre pai e filhos e mãe e filhos. Teoricamente, os dois últimos não deveriam mudar. Por isso é preciso que todos se manifestem se forem atingidos de forma indevida.

A idéia de conversar fora de casa pode ser boa, contu do em ambientes estranhos os filhos tendem a ficar pouco a vontade para expor seus sentimentos, pensamentos e sensações, ainda mais se for um lugar público. Em restaurante nem pensar, pois existem muitos outros afazeres que concorrem com a conversa, os garçons estão sempre em volta e o tempo é determinado pela duração da refeição...

Às vezes, ao receber a notícia da separação, os filhos a aceitam sem reação, isto é,

“engolem o sapo Digerido ou não, com o tempo o sapo terá de ser eliminado. Então podem surgir reações aparentemente inesperadas, através de comportamentos que escapam ao controle, como queda no rendimento escolar, grande apatia, insônia, isolamento e até mesmo somatizações como dores de cabeça, estômago e mau funcionamento intestinal. Tudo pode doer. É o corpo chorando as lágrimas que os olhos contiveram.

Distúrbios fisiológicos e psicológicos dos filhos podem ser lágrimas do corpo que os olhos não puderam chorar.

Durante a conversa, pai e mãe precisam ficar atentos para não responsabilizar os filhos nem arrancar promessas de ninguém, evitando ao máximo acusações e cobranças mútuas.

Deixar bem claro que os filhos não têm culpa nem poder de separar ou unir o casal e que a responsabilidade de pai e mãe e essa relação afetiva não se desfazem jamais. Contudo, como ex-cônjuges, eles terão de fazer modificações que afetarão a vida da família. É comum as crianças pequenas pensarem que os pais resolveram separar-se por causa de algo errado que elas fizeram: “Eu não vou bem na escola”, “Papai está bravo comigo, por isso vai emboraA criança pode se culpar e se responsabilizar pela separação por ter sentido ódio do pai ou da mãe por qualquer razão e desejo de não vê-lo mais pela frente. Isso é natural, pois as crianças pequenas vêem o mundo de forma egocêntrica.

Cada filho tem uma capacidade de compreensão e de absorção. Os pais precisam encontrar estratégias que tragam menos sofrimento à família, lembrando que a criança sente, pensa, age e existe de maneira muito diferente do adolescente.

Não é possível evitar o sofrimento dos filhos com a se paração. Mas há separações

obrigatórias para que eles sejam preservados, caso das famílias muito desestruturadas, com pai (ou mãe) drogado, desequilibrado, violento, que grita e bate em todo mundo ou assedia sexual e moralmente os filhos. Nesse caso, a separação é solução. Traz alívio para todos. Quando os casais decidem separar-se, fazem uma tentativa de melhorar suas vidas, mas podem piorá-las se, mesmo separados, continuarem brigando. Então tu do se complica. Há ex-cônjuges que não se falam. Quando se encontram, é só briga. Ambos tumultuam a vida dos filhos porque os utilizam descaradamente para descarregar emoções e conflitos irresolvidos. O melhor a fazer nesses casos é assumir a incapacidade de resolver a situação e delegar poderes a pessoas capacitadas, como advogados e representantes apropriados, pertencentes ou não às famílias dos querelantes, mas de absoluta confiança de ambas as partes.

eas gerações passadas os filhos de pais separados eram considerados problemáticos e até segregados de forma preconceituosa. Hoje sabemos que os problemas dos filhos surgem em função dos desajustes dos pais, sejam ou não separados. Geralmente uma boa separação ajuda muito mais os filhos quea conservação de um mau casamento.

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No documento Quem Ama Educa (páginas 100-102)