• Nenhum resultado encontrado

LÁGRIMAS DE CROCODILO

No documento Quem Ama Educa (páginas 78-80)

Há dois tipos de choro: o que expressa dor e o que busca poder. QUEM AMA, EDUCA!

Se o filho descobrir que pode usar o choro como fonte de poder, os pais estão perdidos. Nunca mais saberão dizer se ele chora por dor ou poder.

Uma novela mostrou muito bem esse artifício. A criança ficava vigiando a porta para perceber a hora em que o adulto entraria no quarto e então se punha a chorar. Um choro de poder. Necessita dos olhos e dos ouvidos de quem se quer dominar. É um choro alto, escandaloso a ponto de mobilizar o público-alvo.

Ingënua, a criança que usa o choro como poder pára imediatamente após conseguir o que quer. Daí a importância de os pais ficarem atentos para não ser manipulados.

Em Paris, no aeroporto Charles de Gaulle, notei um menino de cerca de 4 anos chorando escandalosamente ao lado da mãe. A irmã, de uns 3 anos, estava tranqüila, sentada sobre as malas no carrinho. O pai aguardava perto da esteira a chegada de mais bagagem. A mãe tirou a menina de cima das malas e pôs o menino no lugar dela. No mesmo instante, ele parou de chorar, enquanto ela abria o maior berreiro. Reparei que o menino olhava para a menina com um ar de vencedor, o que aumentava o choro dela

Quando o pai chegou, deu uma bronca nas duas crianças, mas nada mudou. A competição continuou até que a mãe pôs no chão as duas, que saíram do aeroporto chora mingando. Vejam só, uma cena ocorrida em outro país, na França, com pessoas de outro povo — pareciam argelinas —, mas o mecanismo choro/poder empregado por aquelas crianças é universal, poderia ter acontecido também em qualquer outra parte do mundo.

Içami Tiba

Esse tipo de choro apela para o lado “coitadinho”, inspira ternura. É o domínio pela chantagem afetiva.

É difícil neutralizar o uso do choro como arma. Pai e mãe têm de entender que um pouco de dor não matará a criança, assim como um pouco de poder não matará os pais. Só há um jeito de aprender a diferenciá-los: acertando e errando.

Os pais morrem de medo de errar. Preocupam-se muito, temendo que um erro deles traumatize a criança pelo resto da vida.

Grande parte dos pais tem mania de antever o futuro. Se em vez de uma letra A o filho escrever um número, eles já imaginam que terão na família um engenheiro. Pegam um sinal de hoje e o jogam para o futuro, ampliando-o ao máximo.

Se traumas infantis matassem, a humanidade estaria extinta. Não há filho que não tenha sido contrariado. A imensa maioria deles tem condições de agüentar contrariedades.

A insegurança paterna/materna faz com que os filhos sintam como se estivessem a bordo de um carro cujo motorista fica o tempo todo perguntando se a velocidade está boa, se deve virar à esquerda, à direita, se ultrapassa ou se deixa ultrapassar etc.

Pais extremamente solícitos acabam não traçando um bom e seguro trajeto pará seguir, e a criança fica insegura, pois perde a confiança neles.

Um erro cometido pelos pais desde que não seja baseado na violência, em surras, socos e pontapés, não traz problema nenhum. Atos como esses descarregam a raiva, mas não têm força educativa, pois violência só gera violência.

QUEM AMA, EDUCA! 8. PEGA NA MENTIRA

Quando parece que um filho começa a contar muita mentira, é preciso fazer uma acareação, um confronto com a realidade, interpretar o contexto em vez de logo anunciar: “Eu acredito em tudo o que meu filho diz’ Do contrário, ele vai ser estimulado a mentir ou a exagerar ainda mais.

Há mentiras que servem para a criança se safar de uma situação, para não ter que arcar com as conseqüências de seus atos. Outras fazem a criança se sentir grande, valorizada e

conseguir a atenção das pessoas.

Kmentira um recurso inteligente, mas antiético, de quem inventa histórias, saídas diferentes das reais.

A criança que esconde uma prova, um boletim escolar ou falsifica a assinatura do responsável (e isso em geral se dá a partir da terceira série ou um pouco antes) está contando uma mentira. Mas antes é preciso avaliar se de fato ela iria levar dos pais uma bronca tão grande ou violenta que a mentira só teve o objetivo de protegê-la de um medo real. Se for o caso, talvez os pais estejam exigindo o que o filho não pode dar ou então o filho pode ser mesmo um folgado.

Mãe e pai devem perguntar qual é o maior medo do filho e conversar com ele, mostrando que o caminho escolhi do foi ainda pior

Se ir mal nas provas já era um problema, a mentira acrescentou uma dificuldade, isto é, só acabou agravando o problema original.

No lugar de entrar em cena o castigo, o ideal seria buscar outra saída para enfrentar a situação sem que os pais nem os professores se sentissem enganados com a mentira. As conseqüências que a criança deveria assumir são: reconhecer que foi mal nas provas, estudar mais para a próxima, parar de mentir. Os pais devem ajudar o filho a se organizar

para todos os dias estudar um pouco. Depois, o filho deve dar aulas para a mãe ou o pai, reproduzindo para eles, com as próprias palavras, as lições aprendidas na escola naquele dia.

Usar as próprias palavras é essencial para o aprendizado. Decoreba é a indigestão do aprendizado. Quando o filho é obrigado a usar as próprias palavras, põe em ação seu conhecimento, o que o ajuda a memorizar com maior eficiência. Caso contrário, ele pode apenas fotografar as palavras e usá-las automaticamente sem ter incorporado nada ao conhecimento.

Os pais não devem aceitar uma mentira como verdade só para poupar o filho, pois intimamente ele sabe que mentiu. Esse tipo de proteção pode ter o intuito de privá-lo de sofrimentos, mas se os pais buscam a felicidade do filho de vem educá-lo para enfrentar adversidades. Mesmo que ele não as supere, de qualquer forma nunca seria uma pessoa feliz se continuasse mentindo.

161

No documento Quem Ama Educa (páginas 78-80)