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Corpos em Devir ­‐ as estações do ano e mudanças de

5.4.   Corpos-­‐sujeitos na sociedade, cultura e meio ambiente 182

5.4.2.   Corpos em Devir ­‐ as estações do ano e mudanças de

Além da importância das cidades como lugares por onde se dão as negociações para se auto subjetivarem, as diferenças causadas nos corpos pelas estações do ano são também um fator a ser pontuado na Europa. Ao contrário do Brasil, onde as diferenças climáticas variam pouco, o verão na Alemanha pode chegar a 35 graus e onde o inverno chega a mínima de -17º C e a máxima de -1ºC. Alternâncias de tempera- tura que produzem diferentes ambientes, paisagens e relações sociais, possibilitando a produção diferenciada de corpos no decorrer do ano, nos treinos, eventos e festivais.

O entendimento do corpo como não biologicamente definido pode ser visto como um ponto de partida para se pensar em como as diferenças climáticas vão produzindo toda sorte de mudanças como postura, sentidos e humor. Ao percebermos o corpo como produto e produtor de sentidos e de novas experiências socioculturais (MALUF, 2002), se faz necessário levar-se em conta as muitas vezes abruptas diferenças climáticas como um importante elemento promotor de dife- renças.

Os corpos mais alegres, dispostos e disponíveis dos eventos e treinos outdoor do verão se distinguem sobremaneira dos distantes,

técnicos e preguiçosos corpos dos eventos e treinos indoor do inverno. O clima provoca mudanças de postura e da própria percepção de corpo, influenciando também os treinos quando, por exemplo no inverno, se é necessário um cuidado maior com o momento de aquecimento e alon- gamento antes de iniciar os treinos. São geradas portanto novas deman- das a cada novas estação do ano que chega, uma clara sensação de devir de que um outro momento vem chegando, nos convidando em cada ciclo climático a sermos diferentes, corpos vestidos, desnudos, intros- pectivos ou mais sociais. A cada temporada dos eventos de capoeira novas perspectivas são criadas, novas redes sociais se formam provo- cando mudanças que interferem nos modos de significar o que lhes vai acontecendo.

No que se refere as diferenças entre os eventos sazonais de ca- poeira, os de verão ocorrem na maior parte durante as férias escolares, a mais prolongada das férias anuais, quando a maioria se deslocam para lugares mais distantes de suas residências afim de aproveitar o verão para estar com amigos e parentes. Momento de maior circulação, utili- zando o longo recesso e o clima quente também para conhecer lugares novos e explorar a natureza. As pessoas estão nas praças, nos verdes parques acumulando-se nas beiras dos rios e lagos. Os treinos, eventos e workshops são de grande alcance, contando com capoeiristas vindos de lugares mais distantes aproveitando-se deste momento. Podemos encon- trar portanto nos eventos uma grande diversidade de grupos e estilos vindos de diferentes cantos da Europa.

Por outro lado, nos eventos de inverno se instaura um estado de melancolia, de introspecção e pouca disponibilidade dos corpos. Luvas, camisas longas, chalés e gorros dão outros contornos aos corpos. Mo- mento de resguardo, de curtos feriados de final de ano provocando even- tos de menor alcance, mais intimistas onde somente os grupos aos arre- dores se fazem presentes. Período utilizado normalmente para renovar os laços mais próximos e cotidianos dos “chegados”. Para evitar a gran- de concorrência dos eventos de verão, alguns eventos começam a surgir também durante o outono, criando redes alternativas que abrem novas oportunidades de articulação entre grupos e mestres que tem suas agen- das normalmente cheias durante o período de verão.

5.4.3. O ciberespaço e das redes sociotécnicas na construção do corpo- sujeito capoeira

Ainda dentro do tema sobre a influência dos contextos para a adaptação e construção de si chegamos a um dos principais veículos de comunicação utilizados atualmente pelos capoeiristas. As redes sociais do ciberespaço representam uma dimensão da capoeiragem que já vem sendo problematizada por alguns pesquisadores a partir do século XXI como em Muleka (2005) e Taylor (2007). No entanto, este tópico terá um teor ensaísticos e de abertura para novas abordagens que tenham o entendimento da capoeira no contemporâneo com seu tema central.

No que se refere a minha pesquisa, farei com brevidade algu- mas reflexões sobre esta ferramenta conceitual que permite instaurar uma lógica diferente de redes sociais utilizando-me das abordagens sociotécnicas defendidas por Latour (2005). Para o autor as redes socio- técnicas na Internet nos leva a transcender aspectos geográficos, como em nosso caso transcender aspectos nacionais. A ideia que Latour de- fende para termo seria, conforme Segata (2007; p.)

(para Latour) essas redes não são superfícies, mais sim linhas conectadas, que mesmo amplas (glo- bais), continuam sendo locais em todos os seus pontos. Essa relativização do global e do local, pa- rece se tornar mais claro se tomarmos cada parti- cipante como um desses pontos que ajuda a tornar a rede local. Neste sentido, para que a rede tenha continuidade, é preciso que um ponto se ligue a outro ponto, fazendo a rede formar novas cone- xões que atravessam outros lugares. Nesse caso, cada participante se ligaria a outros tantos partici- pantes, mais ou menos próximos, ampliando cada vez mais a rede, sem perder a localidade dela. Assim as redes sociotécnicas nos possibilitaria pensar em uma dimensão onde as conexões não precisam estar conectadas apenas as- pectos geopolíticos criando condições de possibilidade para uma intensi- ficação da transnacionalização da capoeiragem. No que diz respeito à pesquisa apresentada, elas foram determinantes já que algumas das en- trevistas, dos agendamentos e informações adicionais sobre eventos de capoeira só foram possíveis através de salas de bate papo, ferramentas de videoconferência e e-mails.

Percebemos no decorrer da pesquisa como a criação e manuten- ção das redes sociotécnicas através das redes sociais virtuais revelam uma outra faceta do jogo de imagens da capoeiragem como um todo. Um meio de promoção de uma autoimagem, assim como criação e ma- nutenção de uma rede de contatos e parcerias entre professores e mes- tres, estabelecendo, configurando e reconfigurando circuitos que se concretizam através dos eventos e festivais de capoeira.

No que se refere a construção de um corpo virtual, as imagens, fotos e vídeos postados com grande frequência demonstram a preocupa- ção de criar uma imagem de si com atitudes, movimentações, participa- ções em eventos pelo mundo entre outros. Forma-se assim todo um discurso sobre si apresentado através de imagens que mostram todas suas facetas e proezas possíveis. São registros publicados em redes soci- ais de momentos, viagens, participação em eventos e jogos de capoeira, que promovem suas habilidades e potencialidades corporais.

O ciberespaço é uma ferramenta também importante no estabe- lecimento e manutenção das redes sociais e circuitos de eventos de ca- poeiras. Por meio delas se consegue estabelecer um contato frequente entre sujeitos-capoeiras residentes em cidades, estados, países ou conti- nentes diferentes. No caso de Momitto, além de ficar a par das novida- des de seu grupo e mestre no Brasil, mantém contatos com outros capo- eiristas de toda a Alemanha mas também da França e Croácia.

Nestes sentido, as redes sociotécnicas são o principal mecanis- mo de divulgação dos eventos, treinos e workshops. Através delas são disponibilizados todas as informações sobre o evento, organizando os lugares para hospedagem dos convidados entre outros. Seria algo im- pensável o alcance e articulação que são feitas em alguns eventos sem a utilização do Face Book, Whatsapp, Skype ou outros sistemas de redes sociais virtuais. A facilidade oportunizada pelas tecnologias de informa- ção tornaram possíveis o estabelecimento de amplas redes de conexões fundamentais para o formato dos mais diferentes circuitos de eventos anuais de capoeira.

Por fim, a utilização de registros textuais sobre si. A preocupa- ção com a auto construção enquanto um sujeito com um passado digno de ser registrado e divulgado através de textos publicados em mídias eletrônicas, livros e livretos autobiográficos. O livreto “Baú do Angolei- ro” que fala sobre a experiência de Mestre Rogério com a capoeira é um bom exemplo. Graças ao livreto consegui algumas informações a mais sobre o mestre que não havia conseguido na escarças possibilidade que tive de encontra-lo. Todavia são livretos distribuídos de maneira bastan- te seleta. Informações circuladas em meios restritos que tive a sorte de,

nem que por alguns momentos, adentrar. Ainda em fase de projeto, Mestre Paulo Siqueira também pretende escrever um livro sobre a histó- ria da capoeira na Europa.

5.5. Experiências de Deslocamentos - a capoeiragem na Alemanha como