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Crescimento econômico e a voz dos emergentes

2 AS POLÍTICAS EXTERNAS BRASILEIRA E RUSSA FRENTE ÀS MUDANÇAS

2.1 A política internacional no pós-11 de setembro

2.1.2 Crescimento econômico e a voz dos emergentes

Do lado da economia, o aspecto principal a ser ressaltado é a intensificação das trocas internacionais e o aprofundamento do processo de globalização. As exportações entre os países tiveram sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) mundial aumentada de 15%

44 Ver também a notícia: “NATO presence in South Atlantic ‘inappropriate’ says Brazil.” Disponível em:

http://en.mercopress.com/2010/09/16/nato-presence-in-south-atlantic-inappropriate-says-brazil. Acesso em abril de 2014.

45 Ver notícia em: http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/09/17/em-primeira-reacao-

em 1990 para 25% às vésperas da crise financeira global.46 A crise financeira de 2008 abalou as estruturas das economias, notadamente as do centro, forçando os países a buscar novas formas de governança e, portanto, de regulação da economia – mormente do setor financeiro – mundial.

Por ter afetado, inicialmente, muito mais as economias do centro, a crise parecia trazer novas oportunidades para os países emergentes. De fato, no período imediatamente anterior à crise, esses países apresentaram ganhos de crescimento acima da média – em grande parte devido à pujança da economia chinesa, mas também em razão da valorização de commodities e do crescimento da demanda doméstica desses países. O gráfico abaixo demonstra a diferença entre o crescimento das chamadas economias avançadas e as emergentes, ao longo dos últimos 30 anos.

Figura 1- Gráfico Comparativo do crescimento (Produto Interno Bruto - PIB) em pontos percentuai, das economias emergentes e das avançadas:

Fonte: FMI (2013).

* A nomenclatura “emergente” é adotada segundo os critérios do FMI e engloba um grupo de 153 países.

Como se pode observar, ao longo dos anos 1980, a diferença de crescimento entre as economias emergentes e as avançadas era modesta. Nos anos 1990, houve um ganho de crescimento em favor dos emergentes, mas este não foi estável. O crescimento mais significativo para essas economias começa a ser delineado nos anos 2000: por um lado, o diferencial de crescimento no período se deve ao aumento do ritmo de crescimento, que chegou a 6,2% ao ano entre 2000 e 2012; por outro, há também a desaceleração do ritmo de crescimento das economias avançadas, que apresentam média de 1,8% no mesmo período (BUELENS, 2013).

Houve bastante euforia nos debates acerca do papel das economias emergentes no comércio internacional a partir dos anos 2000, com destaque para aqueles países que integram o acrônimo BRIC47 (Brasil, Rússia, Índia, China). Estes tiveram um aumento de sua participação no comércio internacional de 3% em 1990 para 7% em 2000, e de cerca de 17% em 2012. A China desponta como o principal motor do crescimento dos emergentes, com média de crescimento anual da ordem de 10% no período 2000-2012. Neste último ano, a produção da economia chinesa foi três vezes maior que em 2000 e cerca de 9 vezes maior que os índices do país em 1990. Para efeitos de comparação, a Rússia sofreu uma contração de 5,1% na sua economia ao longo dos anos 1990 e só retomou os níveis de produção do início daquela década no ano de 2007, depois de expandir seu PIB num ritmo anual de 5,2% a partir do ano 2000 (BUELENS, 2013; FMI, 2013).

O crescimento chinês é um dos fatores que, ao longo da primeira década dos anos 2000, representou uma alteração no centro gravitacional da economia mundial. Seu processo de desenvolvimento econômico, altamente intensivo em matérias-primas (commodities), causou elevação do nível de preços desses produtos no mercado internacional, como pode ser observado no gráfico (Figura 2) abaixo:

47 O agrupamento BRICS surge como acrônimo econômico em 2001, cunhado por Jim O’Neill, economista-

chefe do Grupo Goldman Sachs. Ao longo do tempo, os países membros desse acrônimo passaram a identificar possibilidades de cooperação, o que levou à formação de um grupo de concertação política, envolvendo os líderes políticos desses países. Para efeitos de comparação, não foi possível encontrar dados para o período que tragam também a participação da África do Sul no montante dos BRICS, embora este país faça parte do bloco a partir de 2010.

0 20 40 60 80 100 120 140 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Energia, em USD. Agricultura, em USD.

Figura 2 - Gráfico de preços das commodities energéticas e agrícolas no período 2000- 2012.

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Banco Mundial.48

Esses dados são indicativos do quanto que as economias emergentes alteraram a paisagem da economia global nos últimos 10 anos. A crise financeira internacional, desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers, afetou todos os países do globo, mas de maneira diferenciada. Enquanto as economias avançadas sofreram queda de 3,5% no ritmo de crescimento de seus Produtos Internos Brutos (PIB), os emergentes mantiveram crescimento positivo de 2,7% no ano de 2009. Contudo, não se pode afirmar que os BRICS tenham passado incólumes pela crise. Desde 2011, observa-se uma desaceleração do ritmo de crescimento dessas economias, o qual foi contrabalanceado por um gradual restabelecimento das economias centrais. A isso se deve uma série de fatores, tais como as políticas monetárias expansionistas nas economias centrais (o quantitative easing dos norte-americanos) e os planos de recuperação das economias, com forte apelo keynesiano. A crise fez aumentar o coro de grupos que questionavam a relevância dos BRICS desde sua origem: se os países-

Não obstante essas dúvidas, as quais podem ser tratadas, em muitos casos, como exercícios jornalísticos ou como opiniões imbuídas de interesses escusos (como a deslegitimação de um novo grupo de poder político no mundo), parece importante destacar a importância do BRICS na atualidade: seu surgimento enuncia transformações no campo

econômico, as quais tiveram reflexos no campo político, a partir da maior concertação entre os países emergentes em vários temas da política internacional. Ao mesmo tempo, e inspirados por esse cenário de fragilidade dos países centrais, observa-se o protagonismo dos países do Sul “político”, aqueles que passam a contestar o domínio dos países do centro nos principais foros de decisão do mundo.

Do exposto até aqui, pode-se afirmar que a diversificação dos polos de poder encontra seu significado maior, na transição, em termos de realismo político, da uni à multipolaridade. Ainda que detenham poder incontestável no campo militar, os EUA tendem a compartilhá-lo nas demais esferas devido à intensificação dos processos de interdependência por eles mesmos capitaneados (PECEQUILO, 2008, p. 9). Assim, o sistema internacional estaria caminhando para uma hierarquia de poder dividida entre diversos polos – emergentes ou não – que se concertam em torno dos mais variados temas para fazer valer seus interesses.

Como pôde ser visto ao longo desta seção, as transformações do cenário internacional ao longo da primeira década do século XXI alteraram a disposição das forças no sistema. É inegável que o a paisagem internacional tenha se tornado mais diversificada, com a participação de maior número de países em foros multilaterais. Se, por um lado, o poder do hegemon já não mais pode ser considerado incontestável, por outro, a emergência de países com peso relativo crescente no sistema internacional não produziu, até o momento, mudanças de fundo nas relações internacionais. Apesar de propor mudanças e conquistar alguns resultados, as “vozes do sul” não alteraram a arquitetura da governança mundial, o que indica, muito mais, uma disposição de almejar maior espaço dentro das estruturas existentes do que de refutá-las.

Na próxima seção, busca-se apresentar as políticas externas de Rússia e Brasil ao longo da primeira década dos anos 2000. A Rússia, que permaneceu paralisada após a desastrosa transição para economia de mercado nos anos 1990, retomou seu protagonismo a partir de Putin. Quanto ao Brasil, este, já ao final do governo FHC, mas com maior ênfase a partir do governo Lula, passou a assumir maiores responsabilidades nas instâncias multilaterais e assumiu um papel de maior vulto nos mais diversos foros internacionais. A próxima seção irá contextualizar as diversas ações desses países ao longo da primeira década dos anos 2000 e como estas se relacionam com os eventos no cenário internacional.