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Custos do Sentimento de Insegurança

CAPÍTULO II: CUSTOS DO CRIME

3. Custos do Sentimento de Insegurança

Após ter sido feita uma breve síntese dos principais conceitos e metodologias da literatura dos custos do crime, importa agora atentar sobre o que já foi realizado especificamente em relação aos custos do sentimento de insegurança que, no presente estudo, foram conceptualizados como todas as alterações e reações externalizadas causadas por este. Na verdade, os custos do sentimento de insegurança também se caracterizam como uma subcategoria dos custos do crime. Aliás, retomando novamente o conceito do custo do crime de Brand e Price (2000), já supramencionado, os autores defeniram-no como todos os possíveis impactos causados pelo crime. Porém, como vimos anteriormente, não é só o crime per se que surte um impacto real no bem-estar das pessoas e no seu comportamento.

Neste sentido, Davidson (1999 cit. in Brand & Price, 2000) categorizou os custos do crime em função de três grandes categorias: os custos de antecipação ao crime, os custos como consequência do crime e os custos em resposta ao crime. Como indica Dias (2012), os custos em antecipação ao crime dizem respeito a todas as despesas que foram incorridas antes do evento criminal numa tentativa de diminuir a probabilidade de este acontecer ou as suas consequências. Não obstante, não se tratam apenas de despesas monetárias – aliás, como indicam Cohen e Bowles (2010), os custos de antecipação englobam também o sentimento de insegurança, com especial destaque para os comportamentos adotados por razões de (in)segurança, quer sejam eles de proteção ou evitamento, e quer resultem, ou não, em custos monetários. Mas dever-se-á ainda mencionar que a forma como muitos destes custos de antecipação afetam as nossas vidas no dia-a-dia continua a ser um fenómeno por explorar (Cullen & Levitt, 1999).

Dada a multiplicidade de metodologias disponíveis para estimar os custos do crime, já vários autores se dedicaram também a contabilizar os custos do sentimento de insegurança, existindo pelo menos um estudo para todas as metodologias e para quase todos os métodos explicados a priori.

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A metodologia de avaliar a disponibilidade para pagar, como foi previamente explicado, pode ser feita através de diferentes tipos de métodos. Em relação ao método de revealed

preferences – preço das propriedades – não existe nenhum estudo para estimar os custos do

sentimento de insegurança visto que, devido às características intrínsecas desta (i.e., por se focar no mercado imobiliário), seria uma tarefa muito complexa, se não mesmo impossível. Porém, no caso da possibilidade de considerar a compra de sistemas de segurança de forma a subsumir o valor que os consumidores colocam sobre uma determinada redução do risco, já alguns estudos, como por exemplo o de Brand e Price (2000) contemplaram este elemento, apesar de não lhe terem dedicado muita atenção.

Já no que diz respeito aos métodos de stated preferences, a avaliação contingente, quando aplicada no contexto criminal, tem normalmente como objetivo obter o valor que as pessoas estão dispostas a pagar para uma determinada redução do risco de vitimação (quer real, quer percebido). Como foi anteriormente explicado, a perceção do risco de vitimação trata-se de uma componente intrínseca do sentimento de insegurança. Desta forma podemos considerar que os estudos que utilizam a avaliação contingente no contexto criminal obtêm uma estimação, ainda que indireta, da componente cognitiva do sentimento de insegurança. Porém, não existe nenhum estudo, do qual tenhamos conhecimento, que utilize este método para obter o valor que as pessoas estão dispostas a pagar pela redução de todas as componentes do sentimento de insegurança.

Em relação ao outro método de stated preferences – a abordagem da satisfação de vida – o estudo de Moore (2006) utiliza os dados do European Social Survey para estimar o que o autor indica ser o valor do sentimento de insegurança, mas, mais especificamente, se trata do valor de mudar de uma área de habitação, na qual as pessoas entendem não ser seguro caminhar sozinhas após escurecer, para uma área que é entendida como muito segura. Moore (2006) é assim capaz de determinar a alteração do rendimento do agregado familiar necessária para eliminar o efeito negativo de não se sentir seguro a caminhar sozinho, à noite, na sua zona de residência (ibid). Todavia, para que seja possível fazer esta estimação, o autor tem de partir de uma premissa importante – para além de pressupor que a felicidade aumenta a par e passo com o rendimento – o autor pressupõe que, nas funções índice de utilidade, a satisfação de vida pode ser substituída pelo sentimento de insegurança. Tal significa que Moore (2006), ao substituir na equação a satisfação de vida pelo sentimento de insegurança, assume, sem testar empiricamente, que assim que o sentimento de insegurança aumenta, a satisfação de vida diminui e que as pessoas com um maior rendimento tendem a sentir-se menos inseguras – o

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que, como já anteriormente explicado, não é uma conclusão consensual à luz dos resultados da literatura científica.

Nas estimativas por analogia, Cohen (1988) incluiu também no seu estudo a contabilização do sentimento de insegurança. O autor conseguiu obter este valor através desta metodologia uma vez que, em alguns estados dos Estados Unidos da América, os tribunais reconhecem a angústia psicológica e o medo em casos em que as vítimas não sofreram qualquer mazela física. Cohen (1988) recorreu assim a uma compilação de dados, coligida ao longo de 13 anos, sobre indemnizações monetárias atribuídas pelo tribunal de recurso do Louisiana em casos de acidentes pessoais. Nesta compilação, apenas 10 casos envolviam o pagamento por incidentes onde não houve qualquer lesão física ou mental, só o medo. Para controlar as diferenças no grau de risco e medo, o autor dividiu os 10 casos em dois grupos. No primeiro, denominado de “medo causado pelo uso de armas ou instrumentos perigoso”, as vítimas estavam em risco iminente de uma lesão grave ou de morte - em dois dos casos, foram disparadas armas de fogo; num outro, houve o naufrágio de um barco; o último incidente, que também ocorreu num barco quase resultou na decapitação de uma pessoa. No segundo grupo, os incidentes não envolviam quaisquer armas ou instrumentos perigosos, sendo composto por 4 acidentes rodoviários e dois casos de invasão de propriedades residenciais15.

Não obstante, como indica Roman (2009), há diversos problemas importantes no estudo de Cohen (1988), entre os quais se destaca o facto de este assumir (mas não testar) que o medo provocado em contextos não criminais, como, por exemplo, os acidentes rodoviários, é igual ao medo que surge da iminência de uma possível vitimação. Além disso, nunca poderíamos dizer que Cohen (1988) contabilizou no seu estudo o sentimento de insegurança porque, em ambos os grupos, as pessoas sentiram o medo iminente de lesão e não o sentimento de insegurança do quotidiano que é mister obter.

Quanto à utilização de escalas de qualidade física dos indivíduos para estimar os custos do sentimento de insegurança, temos o estudo de Dolan e Peasgood (2007). Aqui, os autores focaram-se na estimação das perdas de saúde mental que estão diretamente associadas à componente emocional do sentimento de insegurança. Os autores teorizam que, quando algumas pessoas entendem que podem estar prestes a serem vítimas de um crime, sentem ansiedade e stress. A frequência e a intensidade com que as pessoas se encontram neste estado

15 No caso do primeiro grupo, que envolvia o medo com a presença de um instrumento perigoso a compensação

média foi de 4535 dólares (de 1988), já no caso do segundo grupo em que não estavam presentes quaisquer objetos perigosos a compensação média determinou-se ser de 2240 dólares (de 1988).

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de ansiedade são as variáveis que irão permitir mensurar a perda de QALY de cada episódio de medo resultante da antecipação criminal e a posterior quantificação dessa (Dolan & Peasgood, 2007).

No que diz respeito à amostra, os autores optaram por não recolher dados, utilizando os que foram recolhidos por Farral e Gadd (2004). O grande problema de os autores terem optado por não recolherem dados é que tiveram de fazer deduções sobre quanto tempo dura cada episódio de ansiedade/stress provocado pela possível vitimação. Quando os participantes responderam que não sentiram muito medo, considerou-se que não houve perda de saúde suficiente para ser considerada; quando indicaram sentir algum medo, os autores assumiram que as pessoas que deram esta resposta tiveram um episódio em que se sentiram moderadamente ansiosas por uma hora; quando responderam que sentiram medo, assumiu-se que esse se tratou de um episódio em que as pessoas também estiveram moderadamente receosas por 2h; e, por fim, quando os inquiridos responderam que sentiram muito medo, inferiu-se que se tratou de um episódio onde sentiram 2h de extrema ansiedade seguidas de 1h de ansiedade moderada.

Contudo, como denotam Farrall e Gadd (2004) as questões utilizadas no seu estudo podem captar picos de níveis do medo que são fora do normal. Ora, como a precisão dos valores estimados no estudo de Dolan e Peasgood (2007) está dependente do quão realistas são as presunções da duração dos episódios e da validade das questões iniciais, o montante final encontrado pelos autores contém uma incerteza considerável. Uma outra limitação é que os custos considerados neste artigo são claramente uma pequena porção dos custos totais do sentimento de insegurança. Adicionalmente, importa ainda acrescentar que a relação entre a antecipação do crime e a perda de saúde é complexa. Não se pode considerar sequer que se trata de uma relação causal, desde já porque a sequência temporal não é clara. É, portanto, necessário, interpretar com alguma precaução os dados deste estudo que associam o medo do crime à perda de saúde, assumindo um efeito de causalidade.

Sumariamente, verificámos que os autores têm de considerar diferentes aspetos do sentimento de insegurança ao utilizar cada uma das metodologias disponíveis para estimar os seus custos. Além disso, em certo respeito, todas os conseguem estimar, porém com diferentes vantagens e desvantagens. Evidentemente, várias das limitações indicadas a priori podem ser ultrapassadas com estudos empíricos especialmente desenhados para tal. Dito isto, parece ser consensual a importância de considerar os custos de antecipação do crime e do sentimento de insegurança em particular, assim como a necessidade de serem realizados mais estudos sobre esta temática.

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