Quando se fala em capacidade contributiva, quer dizer que o contribuinte deve possuir meios necessários para arcar com sua própria subsistência e também com o ônus estatal relativo à imposição do pagamento do tributo.
Esta é a questão primordial para que prevaleça o princípio, pois refere-se à capacidade econômica da pessoa, especialmente em manter o mínimo existencial que necessita para sobreviver.
É neste sentido, que ensina José Maurício Conti, pois trata-se da aptidão dos indivíduos para obter riquezas, exteriorizando-se pela sua capacidade de obter renda, consumo e patrimônio. Assim, afirma que todo indivíduo que tenha poucos recursos que corresponda ao mínimo que necessita para sobreviver, tem capacidade econômica, porém não terá a contributiva, haja vista a impossibilidade de arcar com o ônus fiscal sem prejuízo próprio, pois o Estado não deve admitir como legítima uma tributação que atinja o mínimo vital do homem.
Quer dizer que a capacidade financeira pode ser entendida como a disponibilidade para o cumprimento das obrigações tributárias. Exemplifica-se esta situação, com a situação de um indivíduo que possua um imóvel, mas aufira parcos recursos mensais. Este tem capacidade para manter sua mantença devido ao seu patrimônio e salário, contudo, não possui a liquidez para poder arcar com o ônus tributário.
Regina Helena Costa92 entende que o princípio da capacidade contributiva funciona como um critério de graduação do imposto, e atuará como um limite da tributação, permitindo a manutenção do mínimo vital, compreendida como mínima riqueza capaz de oportunizar ao indivíduo uma vida digna, impondo obstáculos à progressividade tributária para que esta não atinja efeito de confisco ou cerceamento de outros direitos e garantias constitucionais.
É que a lei tributária deve considerar primeiramente para que o cidadão seja contribuinte, sua titularidade sobre patrimônio ou renda pura, para poder exigir o tributo (o imposto no caso). Todavia, nem sempre o indivíduo que possui tal titularidade é capaz de contribuir.
Ressalta-se de acordo com o ensinamento de Aliomar Baleeiro93 ressaltado por Misabel Derzi, que o valor atribuído ao patrimônio ou a renda do indivíduo não são índices seguros da capacidade contributiva, haja vista a necessidade de aferir-se sua capacidade econômica.
Ensina ainda, que esta capacidade é subjetiva, pois infere-se na apreciação por exemplo da idade, saúde, estado civil, encargos familiares do indivíduo, quer dizer, tudo contará para aferir o quanto a pessoa é capaz de obter riqueza, prover-se, prover seu patrimônio, e por fim, cumprir com o ônus fiscal.
Nas palavras de Sérgio Ricardo Ferreira Mota94 a capacidade econômica traduz a ideia de mínimo existencial propriamente dita, pois qualquer que seja o sentido que for empregado, nas mais variadas áreas, está relacionado à vida, à liberdade, justiça, e à dignidade da pessoa humana.
O mínimo existencial pode ser protegido tanto por parte da ideia dos mínimos sociais como por parte das ideias do mínimo vital, mínimo alimentício, mínimo de sobrevivência, mínimo de subsistência ou mínimo não imponível (mínimo não tributável).
(...) porque todas essas ideias se prestam a assegurar condições mínimas da inclusão social do indivíduo e de sua família.
Ensina também Sacha Calmon Navarro Coêlho95 sobre a capacidade econômica, a qual somente se inicia após a dedução dos gastos à aquisição, produção, exploração e manutenção da renda e do patrimônio.
O princípio da capacidade econômica, do ponto de vista objetivo, obriga o legislador ordinário a autorizar todas as despesas operacionais e financeiras necessárias à produção da renda e a conservação do patrimônio, afetado à exploração. O princípio constrange a lei a permitir o abatimento dos gastos destinados ao exercício do trabalho, da ocupação profissional como fonte, de onde promanam os rendimentos.
Do ponto de vista subjetivo, a capacidade econômica somente se inicia após a dedução das despesas necessárias para a manutenção de uma existência digna para o contribuinte e sua família. Tais gastos, como por exemplo, alimentação, moradia, vestuário, saúde, dependentes, tendo em vista as relações familiares e pessoas do contribuinte.
93 BALEEIRO, Aliomar. Limitações constitucionais ao poder de tributar. 7ª ed. Rev. E compl. À luz da Constituição de 1988
até a Emenda Constitucional nº 10/1996. Rio de Janeiro: Forense, 1997. pg 235.
94 MOTA, Sérgio Ricardo Ferreira da. A imunidade do mínimo existencial omitida no sistema constitucional tributário
brasileiro: legitimidade da tributação e limites imanentes ao sistema. Florianópolis (SC), 2018. pg 75.
Fica então demonstrado que o constituinte, quando instituiu o princípio da capacidade contributiva, de forma indireta faz menção à proteção da família, do direito de propriedade, do trabalho e sua valorização, e especialmente à dignidade da pessoa humana, sem que hajam excessos e o confisco.
Até porque, estas ideias de proteção ao indivíduo e de respeito ao mesmo quando enquadra-se na condição de contribuinte, tem origem na Declaração Universal de Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948, e também possui fundamento no Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.
Pois, seguindo os ensinamentos de Sérgio Ricardo Ferreira da Mota96,
O mínimo existencial abrange tudo o que diga respeito às condições mínimas de existência digna da pessoa humana. Por isso, termina por compreender uma gama enorme de bens materiais e imateriais, ou melhor, muita coisa, (...) aquelas condições mínimas relacionadas às esferas cultural, espiritual, intelectual, emocional, psicológica, etc.
Desta forma, a capacidade econômica, extremamente ligada ao respeito ao mínimo existencial, protege o indivíduo, limitando o Estado em seu poder de tributar.