ENQUADRAMENTO JURÍDICO, PRÁTICA E GESTÃO DO INQUÉRITO.
IV. Hiperligações e referências bibliográficas V Vídeo I Introdução
4. Da gestão do inquérito 1 Enquadramento geral
Estipula o art. 262.º, n.º 1, do Código de Processo Penal que “O inquérito compreende o
conjunto de diligências que visam investigar a existência de um crime, determinar os seus agentes e a responsabilidade deles e descobrir e recolher as provas, em ordem à decisão sobre a acusação.”
Assim, e conforme ensina Germano Marques da Silva o inquérito tem um duplo sentido, por um lado como fase processual preliminar e, por outro como actividade de investigação: enquanto fase processual, o inquérito é a primeira fase do processo penal comum e tem por finalidade o esclarecimento da notícia do crime com vista à formação de uma convicção de acusação ou arquivamento; enquanto actividade, o inquérito vai condensar em si mesmo o conjunto de diligências processuais que visam investigar a eventual prática de um crime, determinar os seus agentes e respectiva responsabilidade e descobrir elementos de prova que sustentem uma eventual decisão de acusação.
Os actos do inquérito, cuja finalidade essencial será a decisão de submissão a julgamento de um determinado episódio de vida, podem ser distinguidos em três tipos ou espécies: actos de iniciação, (acto vinculado à verificação da notícia de um crime), actos de desenvolvimento (as diligências de investigação dos factos, dos seus agentes e das provas, e bem assim as medidas de recolha de prova e cautelares sobre os agentes) e actos de encerramento (actos decisórios que determinam o encerramento do inquérito).
Naturalmente, a abordagem que o Ministério Público fará perante a notícia de um crime irá variar de acordo com o tipo incriminador em questão e ainda de acordo com os factos concretos que estão sob investigação, o que não será diferente para um inquérito por um crime de peculato, ou peculato de uso.
Ainda assim, e atendendo aos elementos objectivos e subjectivos de cada uma das incriminações legais seguro será dizer que os actos de inquérito a praticar terão por objectivo confirmar, ou infirmar, o preenchimento dos elementos de tipo incriminador.
No que concerne à direcção inquérito, é importante ter em consideração, por um lado a Lei de Organização da Investigação Criminal, Lei n.º 49/2008, de 27 de Agosto (LOIC), que veio no art. 2.º, n.º 1 e 4, da LOIC (como, de resto já resulta dos art. 53.º, n.º 1 e 2, al. b), art. 55.º, n.º 1 e art. 56.º, CPP) estipular que a direcção da investigação cabe à autoridade judiciária competente em cada fase do processo, cabendo aos órgãos de polícia criminal actuar no processo sob a direcção e na dependência funcional da autoridade judiciária competente, sem prejuízo da respectiva organização hierárquica.
No que diz respeito ao crime de peculato (objecto do presente guia) há pois que ter bem presente o disposto no art. 7.º, n.º 2, al. j), LOIC e segundo o qual “É da competência reservada
da Polícia Judiciária, não podendo ser deferida a outros órgãos de polícia criminal, a investigação dos seguintes crimes: (…)j) Tráfico de influência, corrupção, peculato e participação em negócio;…” (sublinhado nosso).
Por outro lado, e nesta linha, há ainda que ter em consideração o disposto na Circular PGR n.º 6/02, de 11 de Março de 2002, nos termos da qual, por referência ao art. 270.º, n.º 4 CPP, nos crimes indicados no art. 7.º LOIC cuja investigação sejam da competência da Polícia Judiciária encontra-se-lhe delegada a competência para a prática dos actos de investigação, não obstante o magistrado do Ministério Público titular do processo poder/dever intervir directamente no inquérito.
Tendo estas noções em mente, e ainda bem presente que dificilmente se poderá desenvolver um modelo que possa ser aplicado ipsis verbis a todo e qualquer inquérito passar-se-á, tendo por base dois processos de inquérito que correram termos junto do Tribunal Judicial de Santarém, a analisar os possíveis actos de investigação que foram ou poderiam ter sido determinados.
4.2. Do processo 3398/11.1TDLSB
O presente processo de inquérito iniciou-se com a apresentação de uma queixa-crime pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, Instituto Público, contra AP.
Nos termos da queixa apresentada, AP era funcionária numa USF pertencente ao Centro de Saúde de Santarém, competindo-lhe, no âmbito das suas funções, receber as taxas moderadoras cobradas aos utentes daquele estabelecimento de saúde entregando-as, no final de cada turno de trabalho, na tesouraria de uma USF de São Domingos.
No período compreendido entre 5 de Julho de 2010 e 13 de Agosto de 2010 recebeu dos utentes da USF o montante de €1.096,70 (mil e noventa e seis euros e setenta cêntimos) que não entregou nos serviços de tesouraria, apropriando-se do mesmo.
Perante os elementos da queixa desde logo é importante esclarecer: a qualidade com que a suspeita actuou - mera trabalhadora, funcionário nos termos em que o prevê o art. 386.º CP, etc.; quais a funções que a mesma exercia; quais os procedimentos estabelecidos pelo superior hierárquico para o exercício das funções da suspeita; qual o valor de que a suspeita ter-se-á apropriado.
Tendo então tais objectivos em mente importante seria obter o contrato de trabalho (ou documento equivalente) que permitisse aferir da qualidade da suspeita, inquirir tanto o superior hierárquico, como colegas de trabalho, caso os houvessem, e ainda obter extratos bancários ou folhas de serviço que permitissem apurar o valor que a suspeita teria recebido e não entregue aos serviços de tesouraria.
No caso do presente inquérito, tais informações já se encontravam junto à queixa-crime porquanto foi motivo um processo disciplinar (laboral), onde foram ouvidos os colegas de trabalho e superiores hierárquicos e onde foi averiguado o valor de que Ana Fragoso se apropriou, sendo que, atento a simplicidade da matérias que lhe estava subjacente, as diligências de inquérito que foram levadas a cabo no processo limitaram-se a inquirir o tesoureiro da USF em causa, constituir AP arguida, sujeitá-la a TIR, e interroga-la, e ainda solicitar informação da entidade patronal de a arguida havia procedido à devolução do valor de que se havia apropriado.
Contudo, se os elementos necessários à decisão de acusar não tivessem sido, na sua quase maioria, recolhidos e prestados pela ofendida, o primeiro despacho a ordenar diligências de inquérito poderia ter sido o que seguidamente se apresenta:
Atento que nos presentes autos se investigam factos passíveis de constituir a prática de um crime que peculato, delega-se, nos termos conjugados dos art. 270.º, n.º 1 e 4 CPP e do art. 7.º, n.º 2, al. j) da Lei n.º 49/2008 de 27 de Agosto, competência na Polícia Judiciária para a investigação dos factos vertidos na queixa-crime, para que proceda, entre outras, às seguintes diligências:
o Inquirição do superior hierárquico de AP, questionando-lhe, nomeadamente: • Quais as funções que AP exerce;
• Os procedimentos que a mesma deve adoptar no exercício das suas funções; • Qual o montante de que AP se apropriou;
• Se AP procedeu à devolução desse valor.
o Inquirição do responsável pelos serviços de tesouraria da USF S. Domingos,
questionando-lhe, nomeadamente, sobre os procedimentos adoptados para a entrega e verificação dos valores cobrados a título de pagamento de taxas moderadoras;
o Constituir arguida AP, sujeitando-a a termo de identidade e residência, e, nessa
Prazo: 35 dias
*
Findo o prazo de 35 dias, conclua os autos no estado em que os mesmos se encontrarem.
No caso agora sob análise, tal como já foi mencionado, não houve necessidade de proceder a diligências de maior complexidade, mas em situações em que a apropriação dos valores seja feita por meio de transferência ou depósito bancário na conta do agente, é importante obter o extrato bancário com vista a determinar que valores foram movimentados, durante que período e, eventualmente, se mais alguém poderia ter acesso aos mesmos, sem esquecer que a apropriação a que se refere o crime de peculato, pode ser efectuada em benefício de terceiro, sendo necessário apurar a identificação desse mesmo terceiro, o que poderá ser revelado pelos movimentos bancários efectuados pelo agente.
Assim, sugere-se o seguinte despacho a proferir no decurso do inquérito:
Investiga-se nos presentes autos factos passíveis de constituir um crime de peculato, previsto e punido nos termos do disposto no art. 375.º, n.º 1.º CP, tendo para o efeito sido utilizada a conta com o Número de Identificação Bancária 00…, do Banco.
As informações constantes da conta depósito afiguram-se essenciais à descoberta da forma como os factos ocorreram e quem foi o seu autor.
O Ministério Público é a autoridade competente para, no âmbito do inquérito, ordenar às instituições de crédito que lhe sejam remetidas todas as informações relacionadas com o crime denunciado.
De facto, dispõe o art. 182.º, n.º 1 CPP que “As pessoas indicadas nos artigos 135.º a 137.º
apresentam à autoridade judiciária, quando esta ordenar, os documentos ou quaisquer objectos que tiverem na sua posse…”, definindo a al. b) do art. 1.º CPP que é Autoridade
Judiciária “… o juiz, o juiz de instrução e o Ministério Público, cada um relativamente aos
actos processuais que cabem na sua competência;”
Assim, e por se afigurar relevante para a descoberta da verdade, notifique o Banco Português de Investimento para, ao abrigo do disposto nos termos conjugados nos art. 182, n.º 1 do CPP e 78.º, n.º 2 e 79.º, n.º 2 al. d) do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras, no prazo de 10 dias, vir indicar aos autos todos os elementos de identificação e morada referentes aos titulares da conta 00…, bem como proceder ao envio do extrato bancário desta mesma conta, referente ao período que medeia entre 05.07.2010 e 13.08.2010.
Os presentes autos iniciaram-se, de forma resumida, com a notícia de que MP, Presidente de Justa de Freguesia no período compreendido entre 1979 a 1997, sendo que, no exercício das suas funções enquanto Presidente dessa Junta de Freguesia, celebrou um contrato de arrendamento visando uns terrenos da propriedade da autarquia local, tendo sido convencionado um determinado valor, valor esse que chegou a ser entregue ao cofres daquele organismo por quanto foi o mesmo depositado directamente na conta de MP.
Também no exercício das suas funções, e entre Junho de 1991 e Fevereiro de 1992, o arguido recebeu e depositou directamente na sua conta três cheques que se destinavam ao Centro Paroquial da Freguesia, não obstante bem saber que os mesmos não lhe pertenciam.
Por último, em Dezembro de 1996, foi doado à Junta de Freguesia um veículo automóvel, sendo que o MP não só o utilizou em seu proveito pessoal, como o entregou a sua neta, para que o utilizasse.
Conforme se pode observar, os factos em questão reportam-se a um período em que as norma vigentes não são as actuais, não obstante, e transpondo a situação fáctica para a actualidade, temos que MP terá praticado um crime de peculato, punido e previsto nos termos do disposto no art. 20.º da Lei n.º 41/2010, de 3 de Setembro, e ainda um crime de peculato de uso, punido e previsto nos termos do disposto no art. 21.º, n.º 1, do mesmo diploma legal.
Também nesta sede temos que a investigação é, nos termos conjugados do art. 7.º, n.º 2, al. j), LOIC e da Circular PGR 2/02, temos que a competência para a investigação recairá, igualmente, sobre a Polícia Judiciária, devendo nesta ser delegados os actos de inquérito para os quais a mesma tenha competência e que, à semelhança do processo analisado anteriormente, deverão visar os mesmos objectivos.
Não obstante a similitude entre o crime de peculato do art. 375.º CP e do crime de peculato do art. 20.º, da Lei n.º 41/2010 de 3 de Setembro, há que, atento à complexidade das matérias e a alguma facilidade de perda de prova, nomeadamente documental, é de ponderar serem encetadas outras diligências como buscas ou escutas telefónicas.
Nesse sentido, um despacho possível será:
Conforme resulta dos elementos probatórios de fls (…) a (…), a saber extractos bancários, e dos depoimentos das testemunhas (…) e (…) a fls. (…) e (…), respectivamente, recarem sobre MP fortes suspeitas de ter praticado um crime de peculato e um crime de peculato de uso, previstos e punidos nos termos do disposto no art. 20.º e 21.º, n.º 1, respectivamente, da Lei n.º 41/2010, de 3 de Setembro.
Não obstante as diligências até ao momento efectuadas indiciarem a prática de tais factos, atendendo ao tipo de crime em investigação e à dificuldade de obtenção de provas, nomeadamente no que concerne a documentação relativa à contabilidade da Junta de Freguesia que se encontra na posse do arguido, afigura-se-nos que a comprovação de tais suspeitas apenas pode lograr efectivar-se mediante a realização de buscas à residência do
arguido sita (…) e bem assim, às instalações da autarquia local, sitas (…), a fim de, dessa forma, se viabilizar a apreensão de material probatório com relevo para a investigação e apurar as responsabilidades do arguido no eventual cometimento dos crimes em investigação.
Assim, nos termos e para os efeitos do disposto nos artigos 174.º, n.º 2, art. 177.º, n.º 1 e art. 176.º, todos do Código de Processo Penal, conclua os autos ao Meretissimo Juiz de Instrução Criminal junto de quem se promove que seja autorizada a supracitada busca à residência do arguido e às instalações da Junta de Freguesia.
Naturalmente, muitas outras diligências poderão ser determinadas em função das especificidades do caso concreto, sendo importante ter presente que, independentemente do número de diligências a determinar, delegando ou não a competência para a investigação no órgão de polícia criminal, é necessário que o magistrado do ministério público titular do inquérito tenha o cuidado de ter presente os elementos e o estado do processo, acompanhando-o em todas as suas fases.
Para tal, é necessário que controle o tempo despendido na realização de determinadas diligências, sendo que, se necessário for, atento a complexidade do caso, a organização de um processo de acompanhamento, contendo um índice sistemática e de fácil utilização que permitia o mais rápido manuseamento do processo que, no caso do processo n.º 856/98.5TASTR, quando chegou à fase de instrução ia já com 9 volumes.
IV. Hiperligações e referências bibliográficas