ENQUADRAMENTO JURÍDICO, PRÁTICA E GESTÃO DO INQUÉRITO.
III. Hiperligações e referências bibliográficas IV Vídeo I Introdução
2. Os Tipos Especiais de Peculato 1 O Peculato de Uso
2.2. O Peculato na Lei n.º 34/87, de 16 de Julho
A Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, veio, conforme resulta do respectivo artigo 1.º, determinar os crimes da responsabilidade que titulares de cargos políticos ou de altos cargos públicos cometam no exercício das suas funções, bem como as sanções que lhes são aplicáveis e os respectivos efeitos.
Entre os crimes previstos na referida lei, iremos, de uma forma muito breve, abordar apenas aqueles que se encontram numa relação de especialidade com os previstos no Código Penal, isto é, os tipos de peculato, previsto e punido pelo artigo 20.º, e de peculato de uso, previsto e punido no artigo 21.º, e iremos também, ainda que de uma forma muito superficial, analisar o crime previsto no artigo 22.º, o peculato por erro de outrem.
O bem jurídico titulado por estes crimes é, primacialmente, a integridade ou probidade no exercício de funções de titulares de cargos políticos e, acessoriamente, o património alheio, do estado ou de particulares. Assim, tal como nos crimes de peculato previstos no Código Penal, também nos ilícitos criminais ora em análise é dupla a protecção conferida pelas incriminações acima referidas.
O crime de Peculato (por titular de cargo político) encontra-se previsto no artigo 20.º da referida Lei n.º 34/87, de 16 de Julho e tem a seguinte redacção:
“1 - O titular de cargo político que no exercício das suas funções ilicitamente se apropriar, em
proveito próprio ou de outra pessoa, de dinheiro ou qualquer outra coisa móvel que lhe tiver sido entregue, estiver na sua posse ou lhe for acessível em razão das suas funções será punido com prisão de três a oito anos e multa até 150 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
2 - Se o infractor der de empréstimo, empenhar ou, de qualquer forma, onerar quaisquer objectos referidos no número anterior, com a consciência de prejudicar ou poder prejudicar o Estado ou o seu proprietário, será punido com prisão de um a quatro anos e multa até 80 dias.”
Comparando a redacção do n.º 1 do presente artigo, com a do artigo 375.º, n.º 1, do Código Penal, verifica-se que são essencialmente três, as diferenças entre os dois crimes. Desde logo, tal como nos restantes crimes já analisados, estamos perante um crime específico impróprio em que por força de uma qualidade especial do agente – o facto de o mesmo ser titular de cargo político – a ilicitude da conduta é agravada, relativamente a outros crimes,
designadamente o furto, o abuso de confiança, e neste caso até o crime de peculato, previsto no Código Penal.
Assim, para efeitos do presente tipo legal, o agente é o titular do cargo político que se enquadre no elenco definido no artigo 3.º, n.º 1, da Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, que define quais os cargos políticos para efeitos da presente lei, sendo eles o de Presidente da República; o de Presidente da Assembleia da República; o de deputado à Assembleia da República; o de membro do Governo; o de deputado ao Parlamento Europeu; o de membro de órgão de governo próprio de região autónoma; o de governador de Macau, de secretário-adjunto do Governo de Macau ou de deputado à Assembleia Legislativa de Macau; o de membro de órgão representativo de autarquia local; o de governador civil.
Por outro lado, o agente tem de actuar no exercício das suas funções, não bastando que a posse do objecto ou dinheiro, ou a acessibilidade a estes ocorra em razão das suas funções. A própria conduta punível – a apropriação ilegítima – terá, também, de ocorrer no exercício das funções ou do cargo do funcionário.
Contudo, mesmo não constasse do tipo legal a expressão “no exercício das suas funções”, sempre se deveria considerar que a apropriação teria necessariamente de ocorrer, tal como no caso do crime de peculato do Código Penal, no exercício das funções específicas do funcionário, porque, por um lado, é isso que o bem jurídico protegido pela incriminação exige e, por outro, porque é isso que resulta da posse (em sentido lato) ou da acessibilidade ao bem ou dinheiro em razão das suas funções.
Por fim, verifica-se que o crime de peculato cometido por titular de cargo político é punido em alternativa com pena de prisão de 3 a 8 oitos anos e multa até 150 dias, se pena mais grave não lhe couber por força de outra disposição legal. Comparando a moldura penal deste crime com a actualmente prevista no peculato do Código Penal, facilmente se verifica que a mesma se encontra desactualizada38.
Por outro lado, no tipo em análise, não existe norma que desqualifique a conduta do agente, em face do valor diminuto da coisa ou dinheiro, como acontece no artigo 375.º, n.º 2, do Código Penal.
No que respeita ao tipo objectivo do n.º 2 do artigo 20.º, da Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, verifica-se que o mesmo corresponde com pontuais diferenças ao do n.º 3 do artigo 375.º do Código Penal. O legislador optou, contudo, pela referência a “infractor”, em vez de titular de cargo político no exercício de funções. É, ainda, elemento típico a consciência de prejudicar ou poder prejudicar o estado ou o proprietário do bem, que como vimos também estava presente no artigo 424.º, n.º 2, do Código Penal de 1982, e que foi suprimida na reforma operada em 38 De facto, se a compararmos com a moldura penal que resultava no antigo artigo 424.º, n.º 1, do Código Penal de 1982 (“prisão de 2 a 8 anos e multa até 100 dias”), verificamos que o agravamento que resulta da presente lei será adequado face à qualidade do agente, enquanto titular de cargo político. Contudo, não se justifica que, actualmente, se puna o peculato praticado por funcionário apenas com pena de prisão e o peculato por titular de cargo político possa ainda ser punido com mera pena de multa, cujo limite máximo é muito inferior àquela com que é punido o peculato de coisa de diminuto valor, nos termos do artigo 375.º, n.º 2, do Código Penal.
1995. Quanto à moldura penal prevista (“prisão de um a quatro anos e multa até 80 dias”), considera-se que, designadamente o limite máximo da pena de multa se encontra desajustado, remetendo-se para o que acima se referiu relativamente ao n.º 1 do artigo 20.º.
No artigo 21.º, da Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, encontra-se previsto o crime de peculato de uso por titulares de cargos políticos, o qual, à excepção da qualidade do agente (“titular de
cargo político”) e da moldura penal (“pena de prisão até dezoito meses ou multa de 20 a 50 dias”), não tem qualquer particularidade face ao previsto no artigo 376.º do Código Penal.
Por fim, no artigo 22.º, da Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, encontra-se previsto o crime de peculato de por erro de outrem, que tem a seguinte redacção: “O titular de cargo político que
no exercício das suas funções, mas aproveitando-se do erro de outrem, receber, para si ou para terceiro, taxas, emolumentos ou outras importâncias não devidas, ou superiores às devidas, será punido com prisão até três anos ou multa até 150 dias.”. O crime de peculato por erro de
outrem, previsto nesta lei, inspirou-se no artigo 426.º do Código Penal de 1982, que tinha a mesma redacção para situações em que o agente do crime revestia apenas a qualidade de funcionário, crime que foi eliminado pela revisão operada em 1995, passando as condutas ali descritas, a ser punidas pelo crime de Concussão, agora previsto e punido pelo artigo 379.º do Código Penal vigente.
Este crime da responsabilidade de titular de cargo político, não reveste de especial dificuldade de interpretação, integrando as condutas de um titular de um cargo político, nos termos do artigo 3.º, n.º 1, da Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, que, no exercício das suas funções, aproveitando-se de erro de outrem, recebe (para si ou para terceiro que não o Estado) taxas, emolumentos ou outras importâncias não devidas ou superiores às devidas. Estão, pois, em causa quantias monetárias que o cidadão comum normalmente paga sem questionar, por acreditar que são devidas por lei, desde que exigidas ou cobradas pela Administração ou por quem funcionalmente a represente39.
Estes três crimes de peculato, previstos na Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, estão ainda submetidos ao regime do artigo 4.º deste diploma que prevê a punibilidade da tentativa de todos os crimes previstos nesta lei, independentemente da moldura penal em causa, sendo punida nos termos previstos no artigo 23.º n.ºs 2 e 3 do Código Penal, e ficando ressalvada a possibilidade de desistência, nos termos e para os efeitos do artigo 24.º do Código Penal.
Por outro lado, nos termos do artigo 6.º deste diploma, a pena aplicada pela prática destes crimes poderá ser especialmente atenuada, quando se mostre que o bem ou valor sacrificados o foram para salvaguarda de outros constitucionalmente relevantes ou quando for diminuto o grau de responsabilidade funcional do agente e não haja lugar à exclusão da ilicitude ou da culpa, nos termos gerais.
39DIAS, Carmo, Anotação à Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, em Comentário às Leis Penais Extravagantes, Volume I, Universidade Católica Portuguesa, 2010, pág. 832.
Por fim, em caso de condenação pela prática destes crimes, cujo processo tem também as especificidades previstas nos artigos 32.º a 41.º da Lei n.º 34/87, de 16 de Julho, as penas aplicadas têm ainda os efeitos previstos nos artigos 28.º a 31.º do mesmo diploma.
3. Prática e Gestão do Inquérito