ENQUADRAMENTO JURÍDICO, PRÁTICA E GESTÃO DO INQUÉRITO.
IV. Hiperligações e referências bibliográficas V Vídeo I Introdução
3. Dos crimes dos titulares de cargos políticos
A Lei n.º 34/87, de 16 de Julho12 veio estabelecer os crimes em que incorrem os titulares de
cargos políticos ou de altos cargos públicos, no exercício das suas funções, visando, desta forma, tutelar bens jurídicos como a protecção do bom andamento, legalidade e transparência da administração através da repressão do abuso de funções ou cargo por parte do titular de cargo político.
Assim, e no que ao âmbito do presente guia interessa, o diploma legal em questão vem a prever três tipos de crime de peculato: o crime de peculato do art. 20.º, o crime de peculato do art. 21.º e ainda o crime de peculato por erro de outrem do art. 22.º.
No que concerne, tanto ao crime de peculato do art. 20.º, como ao crime de peculato do art. 21.º da Lei 34/87, os elementos do tipo são em tudo semelhantes aos elementos do tipo de crime de peculato e crime de peculato de uso previstos no Código Penal.
De facto, e nos termos do disposto no art. 20.º, n.º 1, da Lei n.º 34/87, comete, um crime de peculato “O titular de cargo político que no exercício das suas funções ilicitamente se
apropriar, em proveito próprio ou de outra pessoa, de dinheiro ou qualquer outra coisa móvel que lhe tiver sido entregue, estiver na sua posse ou lhe for acessível em razão das suas funções…”, acrescentando o n.º 2 que “Se o infractor der de empréstimo, empenhar ou, de qualquer forma, onerar quaisquer objectos referidos no número anterior, com a consciência de prejudicar ou poder prejudicar o Estado ou o seu proprietário…”.
O bem jurídico primordialmente tutela pelo crime de peculato é a integridade, a probidade no exercício de funções de titulares de cargos políticos, quando esse exercício está directamente relacionado com direitos patrimoniais do Estado, abrangendo ainda o direito de propriedade de particulares quando os bens em questão estejam na posse legítima do Estado.
São, assim, elementos objectivos do tipo: a qualidade de titular de cargo político, a prática de factos no exercício das suas funções, a ilícita apropriação, em proveito próprio ou de terceiro, de dinheiro ou coisa móvel que lhe tenha sido entregue, esteja na sua posse ou lhe seja acessível em razão das suas funções.
No que concerne ao elemento subjectivo temos que estamos em presença de um tipo de crime doloso, sendo necessário que o agente actue com dolo relativamente a todos os elementos objectivos do tipo legal.
No que concerne ao crime de peculato de uso, estabelece o art. 21.º, n.º 1, da Lei n.º 34/87, comete este tipo de ilícito “O titular de cargo político que fizer uso ou permitir a outrem que
faça uso, para fins alheios àqueles a que se destinam, de veículos ou outras coisas móveis de valor apreciável, que lhe tenham sido entregues, estiverem na sua posse ou lhe goram acessíveis em razão das suas funções…”, acrescentando o n.º 2 que comete o mesmo ilícito 12 Alterada pela Lei n.º 108/2001, de 28 de Novembro, pela Lei n.º 30/2008, de 10 de Julho, pela Lei n.º 41/2010, de 3 de Setembro, pela Lei n.º 4/2011, de 16 de Fevereiro e pela Lei n.º 4 /2013, de 14 de Fevereiro.
penal “O titular de cargo político que der a dinheiro público um destino para uso público
diferente daquele a que estiver legalmente afectado…”.
Nestes termos, o crime de peculato de uso previsto na Lei n.º 34/87, pune a conduta que se traduza em fazer uso ou permitir que outra pessoa faça suo, para fins alheios àqueles a que se destinam os referidos veículos ou outras coisas móveis de valor apreciável ou que der a dinheiro público um destino para uso publico diferente daquele a que estiver legalmente afecto.
Mais uma vez, diga-se, que se está em presença de um tipo legal, quanto ao seu elemento subjectivo, doloso, sendo necessário que o titular de cargo político actue com dolo relativamente a todos os elementos objectivos do tipo legal.
Tanto o tipo legal do art. 20.º, como o tipo legal do art. 21.º pune a mesma conduta prevista, respectivamente, no art. 375.º e 376.º, do Código Penal, sendo que a diferença, a distinção entre o âmbito de aplicação de uma e outra norma é a qualidade do agente, visto que os tipos legais da Lei n.º 34/87 só podem ser praticado por um titular de cargo político.
Por último, e nos termos do art. 22.º, da Lei n.º 34/87, comente um crime de peculato por erro de outrem “O titular de cargo político que no exercício das sus funções, mas aproveitando-se
do erro de outrem, receber, para si ou para terceiro, taxas, emolumentos ou outras importâncias não devidas, ou superiores às devidas…”.
Os bens jurídicos protegidos pela incriminação em causa são, por um lado, a integridade no exercício de funções de titulares de cargos políticos quando essa actividade funcional coincidir com o recebimento de importâncias que não são legalmente devidas e, por outro lado, o património do particular. Nas palavras de Carmo Dias, “A tutela penal dirige-se primacialmente à protecção do interesse da “fidelidade” dos titulares de cargos políticos, para garantir o adequado (objectivo, imparcial e transparente) e sério (integro, fiel e honesto) exercício de funções, aparecendo a necessidade de protecção do património do particular como uma consequência da defesa daquele interesse público. A supremacia do interesse da fidelidade é manifestada dado que aqui se está a punir o recebimento de qualquer importância não devida ou superior à devida (…), exigindo, assim, o legislador que o titular de cargo político tenha um papel activo, desfazendo erro em que o cidadão/particular incorra…”13.
Posto isto, e atento a conduta prevista no art. 22.º, da Lei n.º 34/87, o tipo objecto encontra-se preenchido quando o titular de cargo político, no exercício das suas funções, aproveitando-se do erro de outrem recebe (para si ou para terceiro que não o Estado) taxas, emolumentos ou outras importâncias não devidas ou superiores às devidas.Assim, o meio de execução do crime não poderá deixar de ser o “aproveitamento” do erro de outrem que não é compatível com o correcto e honesto exercício de funções, não tendo o legislador expressamente distinguido se o erro foi provocado pelo próprio agente, por terceiro ou se resulta de deficiente informação do ofendido que não é esclarecido.
13 In Paulo Pinto de Albuquerque, Comentário das Leis Penais Extravagantes, Volume I, Universidade Católica Editora, Novembro 2010, pp. 831 e 832.
Não obstante tal omissão, a conduta ter-se-á de considerar como criminosa desde que haja aproveitamento do erro do ofendido, independentemente da forma como aquele se encontra em erro, basta que o agente tenha conhecimento do erro do particular e que actue omitindo o dever de esclarecimento que lhe incumbe, aproveitando-se daquele erro quando recebe a importância que não é devida.
Em última instância, e nas situações em que é o próprio agente que cria a situação de erro em que o particular se encontra, sempre se dira que o mesmo incorre na prática de um crime de peculato por erro de outrem, em concurso aparente com o crime de concussão previsto e punido nos termos do disposto no art. 379.º, n.º 1, CP.
O tipo subjectivo o crime de peculato por erro de outrem fica verificado com o dolo do agente, tratando-se naturalmente de um tipo de crime doloso.
4. Da gestão do inquérito