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Limite Bankroll mínimo

DANDO TIROS

Em algum momento você terá a tentação de “dar um tiro” e jogar fora dos padrões tradicionais do seu bankroll. Se você está usando um sistema de bankroll baseado no volume, ou seja, na quantidade grande de jogos que consegue jogar dentro do seu bankroll, vá em frente e tente. Só tenha a sabedoria de não arriscar um valor muito alto nesse tiro. O gerenciamento padrão de bankroll diz que você pode arriscar no máximo 2,5% a cada buy in.

TESTEMUNHO

Por mais que artigos e livros expliquem a simples matemática, diversos jogadores consideram isso algo sem importância. Vou colocar aqui um testemunho de um famoso jogador de cash live do Rio que quebrou por não respeitar seu BR. Ele me deu esse testemunho exatamente para tentar ajudar a qualquer um que passe pelo mesmo problema. Espero que, com isso, você entenda a importância de jogar dentro de seu BR, dentro de sua zona de conforto. Doyle Brunson escreveu em um de seus livros: “Todo jogador de poker já quebrou uma vez.” Verdade ou não, você precisa evitar chegar até o final para descobrir. Por isso, mesmo para aqueles que são vencedores, a disciplina é fundamental.

na casa de um amigo, no condomínio da minha ex-namorada. As pessoas que jogavam eram amigos da quadra de tênis. Era um jogo bem baratinho, em que não havia “perigo” de haver grandes perdas. Pensávamos que aquele era um programa como outro qualquer, como ir ao cinema, ir ao teatro etc.

  Após alguns meses, resolvemos conhecer o mundo do poker on-line, afinal, o jogo era tão fascinante que não conseguíamos mais esperar mais 7 dias para nos reunirmos novamente no fim de semana para jogar. Precisávamos jogar durante a semana! Lol. Após fazer o primeiro depósito em um famoso site de poker on- line, conheci esse mundo fantástico que, sem dúvida, enche os jogadores de esperança: ficar rico. Estudava, jogava, estudava, jogava, até me sentir preparado para jogar meu primeiro torneio (multimesas). Lembro-me da excitação que sentia no dia. Tratava-se de um $10+1, em que mais de 10 mil pessoas jogaram. Que chances eu teria? Nenhuma, claro! Pois bem, após meu fracasso inicial, passei a conhecer o mundo dos sit and go on-line, e foi com essa ferramenta que eu construí meu bankroll.

 Passei da casa dos dois, três, quatro dígitos e fui crescendo e crescendo. Sentia-me poderoso, forte, imbatível. Fiz um bankroll que enfim me permitisse voos mais altos, como cash live (mundo do qual até então eu estava muito distante). Iniciei no cash live em um tradicional clube carioca, jogando NL200 ($1/$2). Obtive ganhos e perdas, mas tudo dentro do meu bankroll. Os resultados começaram a aparecer e tornei-me um vencedor. Após uns oito meses, mesmo sem o bankroll necessário, me sentei pela primeira vez em uma mesa NL1000 ($5/$10).

  Nossa, que adrenalina! Potes enormes, jogadores fracos, casa superconfortável. Era o melhor ambiente possível. Senti-me em casa. Passei exatos 10 meses jogando mais ou menos uma vez por semana, sem perder $1 sequer. Era um sonho do qual eu não queria acordar. Passei a ser respeitado, admirado, e ter todas as

regalias no mundo do cash, que antes eu achava que só um “campeão” de torneios poderia ter.

  Em paralelo a isso, meu padrão de vida foi drasticamente elevado. Passei a gastar muito dinheiro com coisas absolutamente desnecessárias. Gastava com viagens, shopping, joias, presentes para a namorada, eletroeletrônicos, enfim, tudo o que estivesse ao meu alcance e que me “desse vontade”. Inclusive um carro zero. E foi a partir da compra do meu carro – para ser preciso, na mesma semana da compra – que as coisas na mesa de poker começaram a tomar um rumo diferente. Eu não sabia, mas estava sendo apresentado àtal da “bad run”, ou o famoso “downswing”, pelo qual todos os jogadores de poker passam na vida (pelo menos uma vez, pois muitos quebram feio e param de jogar para sempre após esse período).

  Com a minha mudança de vida em virtude da compra de muitos bens, e em paralelo esse momento ruim nas mesas, encontrei-me completamente sufocado e com um dilema enorme: “Estou sem grana, pois gastei muito, mas preciso jogar para pagar as contas que assumi com esses bens. O que faço?” A resposta não demorou muito a aparecer no meu cérebro. Eu deveria jogar. É óbvio que esse risco não foi devidamente calculado por mim, pois, como todo jogador de poker, eu tinha um sentimento gigantesco: a autoconfiança. Confio em mim. E não deveria. As coisas não continuaram muito boas e, infelizmente, cheguei a um ponto em que não tinha mais grana para jogar. Aí, nossa cabeça é mexida – e não somente nossa carteira. E quando você perde a cabeça, seu jogo desmorona. Fiz alguns acordos para pagar as dívidas assim que me equilibrasse novamente no meu emprego e deixei o poker de lado.

 O que mais me chateava é que nesse mundo “discrição” é uma palavra que não existe; todas as casas de jogo do Rio de Janeiro se falavam e o comentário era um só: “Fulano quebrou”, “Fulano

não tem mais crédito”, “Fulano é caloteiro”, enfim. Ouvi muita coisa. Apanhei calado. Mas eu estava ferido, não estava morto. Contava com a amizade de muitos ainda. E foi isso o que me deu força.

 Passei a me equilibrar e fui pagando, um a um, o que eu devia, até que, quatro meses depois do colapso, eu não devia a mais ninguém. Foi um dinheiro que eu conquistei de forma suada, fazendo hora extra no trabalho, ou até mesmo vendendo itens supérfluos que eu havia adquirido. Mas o meu carro, eu me recusava a vender. E, por sorte, não precisei mesmo.

  Bom, agora voltamos à estaca zero. Eu não devia a mais ninguém e estava estabilizado. Havia voltado a sorrir. Como deveria encarar o poker a partir de agora? Simples. Como um iniciante. Peguei $50 com um amigo no mesmo site que eu começara a jogar dois anos antes, e comecei a jogar sit and go com limite microstacks. Tudo como antigamente. Comecei a ter resultados muito rápidos, ganhando o necessário por dia para viver muito bem, e em paralelo me planejei para administrar meus ganhos (coisa que eu nunca tinha feito). Com o tempo, consegui ganhar bastante jogando dessa forma, pois o risco era mínimo e o lucro era bem razoável. E, afinal de contas, eu estava jogando muito dentro de meu bankroll! Fui eleito pelo maior site de poker on-line do mundo o melhor jogador de sit and go microstacks do mundo de um determinado mês, com um percentual de ITM altíssimo (que honra!).

 Em consequência a isso, consegui colocar todas as contas em dia, além de tudo, provei, não só a todos, mas a mim mesmo, que eu estava recuperado e que, se quisesse, poderia voltar a jogar live. Mas a diferença é que agora eu sabia a importância de ter um BR, por melhor jogador que você seja, e nunca mais me sentei numa mesa NL1000. Não queria passar pelas mesmas dificuldades por decorrência de não respeitar meus limites. E

óbvio, não torrava mais meus lucros com qualquer coisa que acendesse luz ou tocasse música. Passei a valorizar meu dinheiro. Passei a economizar e guardar meus ganhos. E posso dizer a todos que se eu ouvisse um testemunho como essa na minha fase áurea do jogo live, com certeza, a forma com eu lidaria com o dinheiro e com o jogo seria diferente.

Tão importante quanto saber o motivo de sua bad run e conseguir passar “vivo” por ela é entender quando você passa por uma good run (ao contrário da bad run, um periodo de variação positiva). E o problema é que essa sequência de maus resultados ou bons resultados influenciados pela parcela de sorte pode mexer com a sua cabeça. Você fica com medo e não consegue mais impor o seu jogo; ou fica confiante, esquecendo-se da matemática ou da leitura aprofundada dos adversários, por achar que seu jogo é muito superior e que você não erra. O seu ego pode atrapalhar demais quando você está na “crista da onda”, seu nome é comentado nos fóruns e você tem ganhado muito nas mesas (de cash ou torneios). Você pode estar cometendo erros dantescos sem se dar conta, pois seu ego o atrapalha a ver as coisas como devem ser. Não confunda ego com autoconfiança, pois é muito importante que você tenha confiança em si mesmo e acredite que, dentro dos seus limites realistas, você fará o seu melhor. Uma vez ouvi a Maridu2 contar uma história sobre Gus Hansen, em que ele havia ganhado um torneio na Europa, e, no final, ele não levou o troféu. Quando o chamaram para levar o troféu esquecido, ele respondeu: “Não esqueci não, deixei de propósito; o que vou fazer com isso?” Ou seja, o que importa mesmo é saber que ganhou e não ficar mostrando para as pessoas que ganhou. O grande Christian Toth3 diz que ensinava aos seus alunos de xadrez a largarem os seus troféus para trás, porque isso não os faria bem, até que realmente dominassem a arte do jogo ou a si mesmos – ou seja, nunca.

Os jogadores de sucesso não têm medo de errar e de assumir seus erros (mesmo quando ganham os potes). Ou você treina para que isso não mexa no seu psicológico, ou você não nasceu para viver do poker.

FALINHA

O senhor prefere dar call e morrer lentamente ou ir all in e morrer de uma vez?

PORCO-ESPINHO

1Todos grandes jogadores profissionais de poker internacionais e brasileiros. 2Famosa jogadora profissional de poker brasileira.

CAPÍTULO 11

No documento Poker - A Essencia Do Texas Hol - Carlos Mavca (páginas 111-117)