Os efeitos do discurso do ódio são danosos. Winfried Brugger (2007) afirma que os emissores da fala odiosa são vistos como violadores da dignidade humana e da honra de suas vítimas, além de poder ameaçar a segurança e a integridade física delas. Owen Fiss (2005) apresenta a argumentação de que o discurso do ódio ameaça a liberdade. O hate speech pode ser capaz de tornar impossível para suas vítimas a participação na sociedade, no debate
público, ainda diminuindo sua autoestima. Além de serem moralmente reprováveis, as ideias defendidas no discurso do ódio inviabilizam a existência de um ambiente saudável para o discurso plural, tendo em vista que, diante do hate speech, a vítima responde com a mesma violência ou sente-se intimidada, oprimida e humilhada, afastando-se do debate (SARMENTO, 2006).
O discurso do ódio procura validar preconceitos, discriminações e o próprio racismo. Daniel Sarmento (2006) sustenta que o hate speech não favorece o autogoverno democrático, rejeita a igualdade entre os indivíduos, reproduzindo a inferioridade dos seus atingidos. O discurso do ódio adota pressupostos radicalmente antidemocráticos. As possíveis reações da vítima – revidar de forma violenta ou silenciar-se – produzem efeitos danosos à sociedade. A primeira põe em risco a paz social e a ordem pública. A segunda hipótese fere a sociedade como um todo, da mesma forma. As vítimas, amedrontadas e intimidadas, retiram-se da esfera pública, prejudicando a sociedade, que perde com a ausência da participação dessas pessoas. A inferioridade das vítimas defendida pelos pensamentos contidos no discurso do ódio tende a fortalecer os estereótipos negativos, fazendo com que inconscientemente os cidadãos desvalorizem a opinião e contribuições daqueles atingidos pela fala odiosa.
O hate speech inviabiliza a própria liberdade de expressão, posto que desconsidera os direitos de suas vítimas e tenta afastá-las do exercício da cidadania, prejudicando a democracia (FREITAS; CASTRO, 2013). É nocivo na medida em que incute a violência e a intolerância, aviltando o valor da vítima, que sofre com a aversão alheia e tem sua autoridade reduzida (CARDIN; SANTOS, 2015). É importante destacar que, ao se falar que a democracia perde com o discurso do ódio, frisa-se a democracia não apenas no tocante à participação dos cidadãos por meio de votos, mas também no tocante à formação da vontade coletiva – violada por conta das vítimas do discurso do ódio participarem menos ou sequer participarem com a exposição de suas opiniões, acometendo o pluralismo político (SARMENTO, 2006).
As vítimas do discurso do ódio são privadas do direito de serem consideradas aptas para a vida na esfera social. A sociedade torna-se um ambiente hostil, desfigurado, que não transmite segurança a esses indivíduos, que não podem viver com normalidade (DÍAZ SOTO, 2015). O hate speech contribui também para a formação de um pânico moral, ao passo que procura abolir o diferente. O pânico moral, criado de forma velada pela fala odiosa, contribui para que a parcela da sociedade que concorda com as ideias defendidas pelo discurso do ódio
torne-se ainda mais intolerante e veja nas vítimas verdadeiros inimigos (SCHÄFER; LEIVAS; SANTOS, 2015). O ódio é direcionado de forma que não atinja só a vítima, mas também espalhando o medo e o terror, com o objetivo de angariar ainda mais adeptos. Em suma, o hate speech exerce influência na formação da personalidade e na conduta dos cidadãos que fazem parte da sociedade (MEYER-PFLUG; CARCARÁ, 2014). O comportamento das vítimas não é o único afetado, mas também o da sociedade como um todo, como mencionado no conceito da vitimização difusa.
As palavras ou atos utilizados na perpetração do discurso do ódio têm o condão de lesionar a vítima, que pode abalar-se emocionalmente por conta da lesão moral provocada pela austeridade do discurso. O hate speech também pode desencadear uma crise de identidade, provocando na vítima a sensação de inferioridade, fazendo com que ela sinta-se insignificante e desprezível por causa de determinada característica. Sua identidade como cidadão é abalada, bem como sua dignidade humana (CARCARÁ, 2013). A autoestima – enfraquecida pelo discurso do ódio – é essencial para o desenvolvimento da personalidade e para a autorrealização do ser humano. As vítimas, principalmente dos grupos já estigmatizados e vulneráveis, têm seu autorrespeito acometido (SARMENTO, 2006).
Nesse sentido, é importante dar relevo ao fato de que, quando se ofende um indivíduo, não se caracteriza apenas uma situação de coisas, mas cria-se um novo estado, uma nova situação. A linguagem possui uma força própria, principalmente quando há repetições do que se enuncia. Essa força é suficiente para criar a possível realidade que menciona. Essa concepção é conhecida como concepção performativa da linguagem, que tem a capacidade de evidenciar que as palavras não tão somente descrevem, mas têm o poder de agir sobre o mundo. A repetição também cria maior influência nesse poder de transformação da linguagem. Outro ponto importante é o do discurso ser capaz de desencadear sentimentos, emoções e estados físicos. O discurso do ódio, assim, causa constrangimento, sofrimento, além de ofender suas vítimas. Provoca nelas um sentimento de injustiça, de não- reconhecimento e de desconsideração social (OLIVEIRA, 2014).
A fala odiosa, contendo intolerância e preconceito, cria a possibilidade de acarretar vários sentimentos nocivos em sua vítima. Tais sentimentos podem ser psicossomatizados e, assim, o sofrimento físico é atingido. Como o discurso do ódio geralmente molesta grupos estigmatizados ou vulneráveis, já sofredores de uma mácula social, os problemas de autoestima – qualidade essencial para o indivíduo – se agravam e tornam-se frequentes. O
juízo que a sociedade tem a respeito dessas pessoas é contaminado nesse ambiente de ódio, de estímulo ao preconceito, à discriminação e ao racismo. A própria percepção da sociedade afeta a maneira como esses indivíduos se enxergam (SARMENTO, 2006). A concepção da sociedade sobre os seus cidadãos afeta diretamente no que concerne ao reconhecimento deles. O reconhecimento negado evidencia uma conduta maléfica e a compreensão positiva que as vítimas têm de si mesmas é abalada e destruída (SILVEIRA, 2007).
O ambiente político torna-se tenso e inviável graças ao hate speech, a harmonia social sofre sérias consequências e é perturbada. Além do mais, atos de demonstração de ódio através da liberdade de expressão podem ser o princípio de atos mais graves, como a violência física (SILVA, 2015). Não se pode olvidar que a dimensão dos danos e dos efeitos causados pelo discurso do ódio também dependem de fatores externos, como a maneira e em qual contexto a manifestação odiosa se deu, além de circunstâncias ligadas às vítimas, como suas personalidades, por exemplo. De qualquer modo, percebe-se que a fala odiosa provoca graves danos (SARMENTO, 2006). O efeito silenciador, como exposto, é um deles. A dignidade humana de cada indivíduo afetado pelo discurso do ódio é golpeada, os danos psicológicos podem ser gatilhos que se transformam em danos físicos. Em uma sociedade opressora e que cultiva manifestações preconceituosas, discriminatórias e racistas, as vítimas podem psicossomatizar suas dores e tentarem, inclusive, dar cabo de suas vidas.