O estudo etimológico da palavra “dignidade” indica que sua origem tem como ponto de partida o adjetivo dignus (“que convém a”, “merecedor”, “digno de”) e o substantivo
dignitas (“dignidade”, “mérito”, “nobreza”, “excelência”), ambos derivados do verbo latino decet (“ser conveniente”). O vocábulo “dignidade” faz alusão à noção de “respeitabilidade”,
aquilo que inspira respeito, seja por conta de circunstância pessoal ou por causa do exercício de posição social proeminente. O dignitário seria aquele sujeito honrado, probo, que goza de elevada graduação honorífica ou exerce função hierárquica (WEYNE, 2013). Tais percepções se afastam do atual entendimento do que é dignidade humana, mas são necessárias para compreender sua evolução ao longo do tempo. Nesse sentido, antes de conceituar a dignidade da pessoa humana, ver-se-á como as diferentes sociedades a compreenderam ao longo do tempo.
Não há início preciso do momento histórico em que a ideia de dignidade humana surgiu. Sabe-se que, antes de ser positivada e pertencer ao ramo jurídico, era uma ideia filosófica e teológica. A filosofia grega reconhecia o homem como superior em relação aos outros seres, tendo em vista ser o único capaz de pensar, utilizar a razão. Outra concepção de dignidade, contudo, é a que prevalece na Antiguidade greco-romana, a dignidade como termo sociopolítico, como atributo (honraria ou título), de acordo com o papel que o indivíduo exercesse na sociedade, ou seja, podia ser quantificada, suprimida ou inexistir. Aristóteles defendia que alguns homens são naturalmente superiores a outros, o que justificaria a desigualdade no que diz respeito à dignidade política (WEYNE, 2013).
Em Roma, o conceito de dignidade não era muito diferente. Estava relacionado a uma perspectiva exterior, hierárquica, como um atributo relacionado à classe social, ao status. Por outro lado, com o surgimento do Estoicismo, verificou-se o reconhecimento de outra noção da dignidade humana. Cícero foi o pioneiro ao defender a ideia de dignidade como qualidade intrínseca à natureza humana, característica à parte de qualquer posição ocupada pelo indivíduo na sociedade. Em oposição à concepção sociopolítica, tal perspectiva é interior, espiritual e igualitária. Cícero justificou seu pensamento partindo da compreensão que o homem é superior aos animais, sendo dotado de um quinhão de razão e de dignidade que o coloca acima daqueles. Apesar de ter sido uma das primeiras referências da dignidade como qualidade da própria condição humana e um precedente importante para o desenvolvimento da ideia de dignidade humana, foi a concepção sociopolítica, marcada pela desigualdade, que prevaleceu na sociedade romana (WEYNE, 2013).
Cabe destacar que a Idade Média foi caracterizada pelo fortalecimento de uma acepção de dignidade semelhante àquela defendida por Cícero no Estoicismo, mas sob um enfoque cristão, com a justificativa de que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (SARLET, 2006). Tomás de Aquino alegava que a dignidade está vinculada à noção de pessoa, o termo “pessoa” deveria ser utilizado para designar aqueles que têm alguma dignidade, especialmente a pessoa divina. Nesse sentido, a dignidade humana na Idade Média teve concepção de origem externa, dependente, heterônoma, à luz de Deus, e não à luz do homem. A dignidade humana tratava-se muito mais da dignidade de Deus que da dignidade do homem (WEYNE, 2013).
Com o advento da Idade Moderna, o pensamento ocidental foi caracterizado pela procura de ruptura com os dogmas defendidos pela Igreja Católica, o antropocentrismo foi adotado e a superioridade do homem foi abraçada pela sociedade que buscava distanciar-se do pensamento medieval. Bruno Weyne (2013) ilustra que o humanista italiano Giovanni Pico della Mirandola foi o precursor dessa nova corrente no período renascentista: exaltou o ser humano, mesmo sem romper totalmente com os ideais medievais. Para Pico, a dignidade tem origem no fato do homem ter a possibilidade de construir o seu próprio destino e poder se aperfeiçoar conforme sua vontade e seu livre consentimento.
O pensamento humanista, que procurou evidenciar o homem, mas ainda não adotando uma concepção laica, foi seguido pela evolução da ciência, por diversas descobertas científicas e o pensamento filosófico tornou-se, de fato, afastado daquele divino. A evolução
do significado da dignidade humana na Idade Moderna culminou com a filosofia de Immanuel Kant. Kant justifica a dignidade humana sob outro prisma não abordado anteriormente.
Tanto assim que não é no uso teórico da razão onde ele encontra a grandeza do homem, mas no seu uso prático. Isso porque, no seu entendimento, a dignidade humana não concerne ao saber ou à ciência e, portanto, não reside simplesmente no domínio sobre a natureza, como muitos modernos sustentaram; antes, a dignidade do ser humano reside precisamente na sua razão prática, isto é, na sua capacidade moral de se autodeterminar livremente, de apenas se submeter às leis que a sua própria razão estabelece como legisladora universal. E é por ser sujeito da razão que o ser humano tem dignidade, um valor íntimo, superior a todas as coisas, que têm somente um preço e, portanto, um valor relativo; por isso, ele é também o único dos seres que existe não como simples meio para o uso arbitrário da vontade, mas como fim em si mesmo que limita todo o arbítrio pelo respeito que infunde em sua humanidade. Essa concepção de dignidade humana, secularizada, igualitária e fundada na autonomia do sujeito, pode-se dizer, “encerra” o processo moderno de tomada de consciência do ser humano sobre a sua posição central no mundo. (WEYNE, 2013, p. 84, grifo do autor).
Kant sustenta que a autonomia da vontade4 é um atributo exclusivo do ser humano,
consistindo no fundamento da dignidade humana. O filósofo ainda identifica duas situações, na primeira as coisas têm um preço, podem ser substituídas. Na segunda, entretanto, quando uma coisa não tem um preço, tampouco pode ser substituída por outra equivalente, ela tem
dignidade. A dignidade está acima de qualquer preço. A concepção kantiana sustenta que a
pessoa deve ser considerada como fim, não como meio, repelindo a coisificação e a instrumentalização do ser humano. As ideias de Kant a respeito da dignidade humana representaram uma guinada no campo filosófico e serviram de inspiração no âmbito jurídico. A doutrina jurídica, nacional e estrangeira, ainda hoje sofre influência do pensamento de Kant para fundamentar e conceituar a dignidade humana (SARLET, 2006).
Além dos aspectos já tratados, convém destacar o marco histórico mais significativo no que concerne à construção da noção atual de dignidade humana. O fim da Segunda Guerra Mundial fez com que as pessoas se deparassem com os horrores provocados pelo nazismo e pelo fascismo, o mundo estava moralmente arrasado pelo totalitarismo e pelo genocídio. Tais acontecimentos propiciaram um ambiente favorável à positivação da dignidade humana, que foi incorporada ao discurso político dos vencedores, como alicerce para um esperado período de paz, democracia e proteção aos direitos humanos. Já a sua incorporação ao discurso
jurídico se deu por dois motivos: o primeiro ocorreu com a inclusão em diversos tratados,
documentos internacionais e em Constituições. O segundo, por sua vez, foi a promoção de
4Conforme Ingo Wolfgang Sarlet (2006, p. 33), a autonomia da vontade é “a faculdade de determinar a si
uma cultura jurídica que reaproximou o direito da moral e da filosofia política, afastando-se do positivismo. A dignidade humana exerce forte papel nessa cultura, cuja interpretação das normas é influenciada por fatos sociais e valores éticos (BARROSO, 2012).
3.2 Conceito jurídico atual da dignidade da pessoa humana no prisma jurídico-