2. INTERPRETIVISMO DE DONALD DAVIDSON: COMO O
2.1. Interpretação radical
2.1.1. Davidson e a verdade nas linguagens naturais
Tarski (1936) empenha-se em definir a verdade para as linguagens formais (GÓMEZ-TORRENTE, 2015), considerando que, embora a noção de verdade nos seja
48 Aparentemente, esse não é um ponto desenvolvido por Davidson, mas para os fins dessa tese convém notar que o intérprete atento pode chegar a compreender aspectos da mente de seu interlocutor que este não percebe acerca de si. Pode, inclusive, alertar seu interlocutor acerca dos estados mentais dele (o interlocutor).
familiar e intuitiva, ela também é fugidia quando tentamos defini-la para as linguagens naturais, pois gera ambiguidades e paradoxos49. O predicado de verdade para uma
linguagem-objeto é apresentado por Tarski como pertencendo a uma metalinguagem50. A
construção apropriada de uma definição de verdade, para ele, deverá refletir uma concepção intuitiva de verdade e se aplicar às frases que são intuitivamente verdadeiras na linguagem objeto. Para uma teoria da verdade ser apropriada, Tarski estabelece como critério a convenção-V51 segundo a qual todas as frases declarativas de uma linguagem formal devem
ser derivadas do seguinte esquema de frase: “S é verdadeira se, e somente se, p”, onde S deve ser substituída pelo nome de uma frase na linguagem-objeto e p é a tradução dessa frase em metalinguagem, gerando as chamadas “frases-V” (cada frase-V estabelece as condições de verdade de uma frase da linguagem-objeto). Por exemplo: “Chove” é verdadeira se, e somente se, chove. O que está entre aspas deve ser considerado como o nome de uma frase que ocorre na linguagem-objeto. Então, a convenção-V determina que uma teoria da verdade é satisfatória se gera uma frase-V para cada frase da linguagem-objeto.
Embora Tarski estivesse convencido de que seu trabalho sobre a verdade não se aplicaria às linguagens naturais, Davidson o considera bastante promissor, desde que algumas alterações sejam feitas para acomodar os problemas que surgem na passagem das linguagens formais para as naturais. Um dos problemas é incorporar à teoria da verdade a presença de indexicais52 (são o que ele chama de “aspectos demonstrativos” das linguagens naturais).
Ocorre que, nas linguagens naturais, o momento do proferimento e a pessoa que fala são
49 O principal problema, aqui, é o dos paradoxos semânticos. De acordo com Santos (2014), há duas características desses paradoxos: (1) envolvem conceitos semânticos como verdade, referência, definição, satisfação etc. e (2) como acontece aos paradoxos em geral, possuem uma conclusão contraditória ou absurda. Eubúlides de Mileto (séc.IV a.C.) é tido como o primeiro proponente do paradoxo do mentiroso, o mais famoso dos paradoxos semânticos. Consiste na seguinte afirmação de um sujeito: “Estou mentindo”. Ora, se ele estiver dizendo algo verdadeiro, estará mentindo e, se estiver dizendo algo falso, estará falando a verdade. Santos explica que Tarski se deparou com os paradoxos semânticos como um obstáculo na busca de uma definição de verdade. O problema surge quando uma linguagem possui o seu próprio predicado de verdade e pode ser superado se o predicado de verdade for apresentado como pertencendo a uma metalinguagem (ver a nota de rodapé seguinte), criando uma hierarquia das linguagens. Para uma linguagem L qualquer, o conceito de frase verdadeira em L deve, portanto, ser construído em uma metalinguagem. A verdade, assim, é um predicado monádico de uma metalinguagem. Por isso, Tarski só se propõe a definir a verdade para as linguagens formais: as linguagens naturais já contém o predicado de verdade, o que torna inevitáveis os paradoxos semânticos. Por isso, qualquer teoria semântica das linguagens naturais, seguindo o método de Tarski, seria inconsistente.
50 A linguagem-objeto é aquela sobre a qual se fala. Metalinguagem é a linguagem usada para falar sobre a linguagem-objeto. Em outras palavras, metalinguagem é uma linguagem cujos termos se referem a outra linguagem.
51 Também conhecida como “convenção-T”, optamos por “convenção-V”, pois a letra “T”, aqui, se refere a “truth”, isto é, “verdade” em nossa língua.
52 Indexicais são expressões cuja referência depende do contexto. Conforme Ruffino (2014, p.1), os indexicais incluem pronomes pessoais (“eu”, “ele”, “nós”, etc.), pronomes demonstrativos (“isto”, “aquilo”, etc.), advérbios (“aqui”, “agora”, “amanhã”, etc.) e todo tipo de expressão cuja referência só possa ser determinada dentro de uma situação específica. A linguagem natural se caracteriza por estar permeada pelos termos indexicais.
essenciais para que se avaliem as condições de verdade de uma frase. Em outras palavras, a verdade em uma linguagem natural deve ser caracterizada relativamente a pelo menos esses marcadores: tempo e falante (1973/1984b; p. 131; 1975/1984d, p. 149)53, gerando frases-V
como a seguinte: “Para todos os falantes de alemão x e todos os instantes t, ‘Das ist Weiss’ é verdadeira falada por x em t se, e somente se, o objeto mostrado por x em t é branco” (1975/1984d, p. 151; aspas duplas do original substituídas por aspas simples, tradução nossa).
A interpretação de predicados e nomes comuns depende fortemente de elementos de indexação na fala, tais como demonstrativos e tempos verbais, uma vez que são esses elementos que mais diretamente permitem aos predicados serem ligados a objetos e eventos no mundo. (Para acomodar elementos de indexação, as teorias da verdade do tipo das propostas por Tarski devem ser ampliadas [...]) (DAVIDSON, 1990/2002a, p. 100).
Uma das vantagens da ideia de Tarski, para Davidson, é que ela produz as condições de verdade de qualquer frase de uma linguagem sem precisar recorrer a nada mais do que à própria frase, ou seja, é ontologicamente leve. “A menos que a frase original mencione mundos possíveis, entidades intensionais, propriedades ou proposições, a declaração de suas condições de verdade também não mencionará” (DAVIDSON, 1973/1984b, p. 132, tradução nossa). Contudo, ao aplicar a ideia de Tarski para as linguagens naturais, Davidson não acredita na possibilidade de definir a verdade, ele trata o predicado de verdade como primitivo. As preocupações de Davidson e Tarski, portanto, são diferentes. Enquanto Tarski busca uma definição de verdade para as linguagens formais, Davidson está em busca de uma regra finita a partir da qual seja possível explicar a interpretação de infinitas frases em uma linguagem natural e encontra em Tarski o que procura.
O interessante da concepção de Tarski, para Davidson, é que ela provê uma espécie de pilar no qual uma abordagem da tradução e da interpretação pode se apoiar. Se uma teoria da verdade implica para cada frase da linguagem-objeto uma frase-V, isso serve de base para a tradução. Por exemplo, “Es regnet” é verdadeira se, e somente, se, chove.
Por um lado, nós temos frases-V na forma:
(T) ‘Es regnet’ é verdadeira-em-alemão quando dita por x no instante t se, e somente se, chove próximo a x em t.
Por outro lado, nós temos a evidência na forma:
(E) Kurt pertence à comunidade de fala germânica e Kurt sustenta como verdadeiro ‘Es regnet’ ao meio dia e chove próximo a Kurt ao meio dia. (DAVIDSON, 1973/1984b, p. 135, tradução nossa)
Assim, a tradução pode construir uma frase-V na metalinguagem para cada frase a ser traduzida da linguagem-objeto. Durante o processo de interpretação, a teoria da verdade pode ser testada e reformulada sempre que necessário, com base nas evidências disponíveis ao intérprete. Ora, mas Kurt poderia estar enganado acerca de se chove próximo a ele. O método para a interpretação, segundo Davidson, consiste em maximizar a concordância, tão frequentemente quanto possível, acomodando os diversos tipos de engano54.