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4. COMO COMPREENDER OS ESTADOS MENTAIS

4.2. Dennett: a realidade que provém da utilidade

4.2.3. Resposta de Davidson a Dennett

Nas perspectivas desses autores, Dennett e Davidson, quando atribuímos conjuntos de atitudes proposicionais a um sujeito, há uma tendência forte a que (1) muitas daquelas atitudes proposicionais atribuídas realmente pertençam ao sujeito e (2) que o sujeito esteja majoritariamente justificado em ter aquelas atitudes proposicionais. Isso ocorre, em Davidson, pela forma como aprendemos a linguagem, ou seja, o processo de triangulação relaciona nossas crenças, as crenças do nosso interlocutor e o mundo. Por mais que as crenças se justifiquem umas pelas outras, há algum tipo de contato com o mundo que permite a comunicação. No caso de Dennett, a questão se torna mais sutil. Não há nada tão firme ancorando as atitudes proposicionais, mas nossa espécie chegou até aqui atribuindo crenças e desejos aos outros121. Nossas atribuições de atitudes proposicionais quotidianas são, além de

120 Ver: seção 2.2.1.

úteis, vitais.

Um ponto comum entre esses autores que se torna importante para compreendermos a sutileza de seu realismo é que ambos defendem um tipo de monismo não reducionista. Do ponto de vista ontológico, há apenas uma realidade. Mas os diversos tipos de situações dessa realidade exigem vocabulários específicos. Então, o ponto a ser destacado aqui é que, para eles, o vocabulário da psicologia não poderá ser reduzido ao da física. Tal redução implicaria em perdas epistemológicas que vão além do que poderíamos humanamente suportar.

Não poderíamos interagir com os outros sem lhes atribuir estados psicológicos. Isso traz um realismo às atitudes proposicionais do qual não é possível abrir mão. Sua realidade, no caso de Dennett, está atrelada à sua força epistêmica. No caso de Davidson, o realismo das atitudes proposicionais está vinculado também ao argumento da triangulação, um argumento que afasta o ceticismo do caminho, dando consistência às crenças, às atribuições de crenças e ao mundo objetivo.

Convém notar que, quando falamos de verdade em Davidson, há a verdade objetiva, independente das crenças, embora não haja a maneira certa de descrevê-la, várias descrições diferentes da mesma realidade são igualmente válidas. Mas e quanto à atribuição de atitudes proposicionais? Acontece o mesmo, pois as atribuições de atitudes proposicionais podem ser verdadeiras ou falsas, ainda que não haja a forma unívoca de interpretar o comportamento e o discurso de alguém. Diferentes interpretações do comportamento de um agente, para ele, preservam o sentido geral das atitudes proposicionais dele, de modo que, em princípio, seria possível confrontar a interpretação e as crenças do agente para dizer se a interpretação é correta.

Dennett (1991a) considera sua perspectiva acerca da ontologia das atitudes proposicionais próxima da de Davidson. Porém, Dennett pensa que Davidson passa do ponto no realismo ao comparar as atitudes proposicionais aos sistemas de medição, pois diferentes sistemas de medição, em geral, se sobrepõem a algo fixo que está subjacente. De fato, Davidson adota uma postura mais branda que a de Dennett em relação à indeterminação - o que acaba intensificando seu realismo - e procura defender seu ponto. Acerca de Dennett, escreve Davidson:

[E]le pensa que dois diferentes sistemas de atribuição de crenças a um indivíduo podem diferir substancialmente, até o ponto de produzir diferentes previsões do comportamento, e mesmo assim nada iria estabelecer que um sistema e não o outro descreveria as crenças reais de uma pessoa (Davidson, 1997/2001h, p. 81, tradução nossa).

De fato, Dennett (1991a) faz uma leitura mais radical da indeterminação e, provavelmente, mais próxima do próprio Quine. Davidson reconhece isso ao apresentar a comparação com os sistemas de medição. “[A] indeterminação da interpretação é a contraparte semântica da indeterminação da tradução de Quine. Em minha abordagem, o grau de indeterminação será, eu penso, menos do que Quine contempla” (DAVIDSON, 1975/1984d, tradução nossa).

Davidson (1995/2005c) está preocupado com mostrar que a indeterminação não implica em relativismo acerca da verdade. Para ele, duas teorias diferentes não podem ser “logicamente incompatíveis e empiricamente equivalentes” (1995/2005c, p. 76, tradução nossa), como quereria Quine (1970). As teorias diferentes seriam descrições da mesma realidade em termos diferentes. Elas não seriam contraditórias entre si, mas conteriam ambiguidades semânticas relativamente a termos-chave, o que lhes daria essa aparência de contradição. Ou seja, a partir de um olhar bem aproximado para essas teorias, perceber-se-á que, no fundo, elas falam idiomas diferentes. Essa manobra em relação à indeterminação, para Davidson, é importante para evitar a posição relativista segundo a qual dois conjuntos de crenças incompatíveis poderiam ser ambos verdadeiros, pois isso desconectaria a verdade da realidade objetiva.

Conforme Pereira (2016), embora Davidson tenha sempre tomado a verdade como indefinível, ele tentou em alguns momentos esclarecê-la. Inicialmente, ele a considera como correspondência. Porém, posteriormente, passa a considerar que a coerência produz correspondência. As crenças se justificam umas sobre as outras, por coerência, mas a existência de comunicação entre as pessoas é evidência da existência do tripé que conecta os sujeitos em comunicação com o mundo objetivo. Assim, é o mundo que causa parte de nossas crenças, as quais constituirão uma rede de crenças majoritariamente coerentes entre si.

Silva Filho (2002, p. 154) argumenta que, embora Davidson não traga uma resposta acerca do que seja uma crença verdadeira (até porque não há crenças isoladas que possam se confrontar com a realidade), ele consegue mostrar “porque é que as crenças verdadeiras são justificadas”. Estamos justificados, a partir da coerência entre nossas crenças, em supor que elas são majoritariamente verdadeiras.

O conceito de verdade, assim como o de objetividade, está sempre ligado ao surgimento do pensamento e da linguagem. Na concepção de Davidson, a noção de objetividade só passa a ter algum sentido a partir da comunicação com os outros. A comunicação faz com que passemos a diferenciar o que se passa nas mentes dos outros, nas nossas mentes e no mundo. Isso não significa que não haja um mundo independente das

mentes. Há a verdade objetiva e independente das mentes, mas ela não teria qualquer sentido se não houvesse mentes. É assim que a verdade se torna um elo entre eu, o mundo e o outro sujeito. “[O]s três conhecimentos - sobre o mundo, nossas mentes e as mentes dos outros - são assimétricos, mas se referem à mesma realidade (SILVA FILHO, 2005, p. 166)”.

O princípio de caridade tem um papel importante no realismo de Davidson, pois em última instância, ele concatena os estados mentais dos sujeitos em comunicação com o mundo, fazendo com que a atribuição de estados mentais se fundamente na intersubjetividade. Quando duas pessoas se comportam de modo a assentir às mesmas frases pelos mesmos eventos ou situações, na concepção do autor, elas compartilham de muitas frases de observação.

Verdade e significado andam juntos no pensamento de Davidson. “O centro da vida do significado passou a coincidir com o centro de gravidade que determina a verdade” (DAVIDSON, 1995/2005c, p.80, tradução nossa). Davidson não desenvolve a noção de centro de gravidade, como faz Dennett, mas é interessante a sua colocação da verdade como um centro de gravidade. Há uma forte tendência do conjunto de nossas crenças a serem majoritariamente verdadeiras, embora tenhamos uma série de crenças falsas. Nosso conjunto total de crenças orbitam ao redor desse centro de gravidade. Por mais difícil que seja pinçar as crenças verdadeiras e separá-las das falsas, a verdade predomina como um centro de atração.