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3. INTERPRETIVISMO DE DENNETT: INTENCIONALIDADE

3.2. Teoria da mente

No final da década de 70, os psicólogos Premack e Woodruff (1978) desenvolveram alguns testes para detectar se os chimpanzés possuíam a capacidade de atribuir estados mentais a outras criaturas, chamada por eles de “teoria da mente”. O macaco era exposto a um vídeo no qual um humano aparecia com um problema para resolver, por exemplo, um cacho de bananas muito alto para ser alcançado. Em seguida, eram oferecidas duas fotos ao macaco com possíveis soluções para aquele problema. Nesse exemplo, uma foto era do humano com um tamborete e a outra era do humano com um cabo de vassoura. O macaco deveria escolher uma das fotos. O tamborete, nesse caso específico, seria mais útil, pois permite ao humano subir e alcançar as bananas. (O cabo de vassoura seria mais útil se o objetivo fosse puxar as bananas de baixo de um móvel, por exemplo.) As escolhas efetuadas pelos chimpanzés sugeriam capacidade de atribuir ao personagem do vídeo o propósito de solucionar o problema e a capacidade de escolher alternativas apropriadas para o alcance desse propósito. Esse trabalho foi bastante influente no debate acerca da psicologia de senso comum e da atribuição de estados mentais.

Ter uma teoria da mente, segundo alguns autores, é poder atribuir estados mentais, como desejos, crenças e temores a outros seres, entendendo (1) que pode haver uma divergência entre esses estados mentais atribuídos e a realidade externa e (2) que os estados mentais atribuídos possuem relação causal com o comportamento daquele ser. Dennett, por sua vez, considera que fazemos isso de modo tão natural que a noção de “teoria” não caberia, pois uma “teoria” deveria poder ser formulada linguisticamente e as atribuições de estados mentais que fazemos são frequentemente muito automáticas e não proposicionais. Por isso, Dennett prefere falar em psicologia do senso comum.

Alguns pesquisadores gostam de chamar psicologia de senso comum de “teoria da mente” (ou apenas TOM), mas isso me parece enganoso, uma vez que isso tende a prejulgar a questão de como nós conseguimos ter um tal talento, sugerindo que nós temos, e usamos, uma teoria. Em um espírito similar, nós teríamos que dizer que você tem uma teoria da bicicleta se você sabe como andar de bicicleta, e é a sua

teoria da nutrição que explicaria sua habilidade de evitar morrer de fome e evitar

comer areia. Isso não me parece uma maneira útil de pensar sobre essas competências. Uma vez que todos concordam que nós temos o talento interpretativo, e todas as pessoas discordam sobre como nós conseguimos ser tão competentes, eu penso que é melhor manter o termo “teoria” fora disso e usar um termo um pouco mais neutro por enquanto. A psicologia acadêmica ou científica também estão no negócio de explicar e prever as mentes dos outros, e ela realmente tem teorias: behaviorismo, cognitivismo, modelos neurocomputacionais, psicologia Gestalt e uma série de outras. A psicologia de senso comum é um talento em que nós nos destacamos sem educação formal (DENNETT, 2013, p. 74-75, grifos e aspas do original, tradução nossa).

Outro teste que tem sido muito utilizado para verificar a existência de capacidade de atribuição de intencionalidade é o de falsa crença, desde que foi proposto por Wimmer e Perner (1983). No teste, o sujeito é colocado diante da situação em que um ator x coloca um objeto em uma posição e sai de cena. Sem que o ator x veja, entra o ator y e muda o objeto de posição. Pergunta-se ao sujeito submetido ao teste onde o ator x procurará o objeto quando retornar. As crianças de até 4 anos apontaram para o lugar onde o ator y deixou o objeto, ou seja, não puderam atribuir ao ator x, protagonista da cena, a falsa crença de que o objeto ainda estaria onde ele (x) o deixou. Porém, a partir dos quatro anos, algumas crianças começam a apontar corretamente para o local onde o ator y havia deixado o objeto. Com seis anos, a grande maioria das crianças já consegue passar no teste de falsa crença.

Até recentemente, acreditava-se que a atribuição de falsas crenças era uma habilidade especificamente humana, mas o teste foi aplicado por um grupo de pesquisadores (do qual Tomasello faz parte) em três espécies de símios (chimpanzés, bonobos e orangotangos), e os resultados sugerem que eles também podem atribuir falsas crenças. O teste era feito pelo mapeamento da direção do olhar dos macacos. “A compreensão da falsa crença tem interesse particular porque requer o reconhecimento de que as ações dos outros são dirigidas não pela realidade, mas pelas crenças acerca da realidade, mesmo quando essas crenças são falsas” (KRUPENYE; KANO et al., 2016, tradução nossa).

Na interpretação dos resultados, os autores demonstram não saberem se os macacos percebem o que estão fazendo com o olhar, consideram que os macacos demonstraram uma habilidade implícita de detecção de falsas crenças, menos flexível do que a desenvolvida por humanos. “Dado que os símios ainda não obtiveram sucesso em tarefas que meçam as falsas crenças com base em escolhas comportamentais específicas, a presente evidência pode constituir um entendimento implícito da crença” (KRUPENYE; KANO et al., p. 113, tradução nossa). Passar no teste de falsa crença revela que aquele sistema é capaz de atribuir intencionalidade e de separar estados do mundo externo dos estados daquele sujeito que está diante dele.

3.2.1. A Psicologia de Senso Comum

Desde a década de 80, a noção de psicologia do senso comum tem se mostrado bastante central nos debates em ciências cognitivas e filosofia da mente (RAVENSCROFT, 2016). Psicologia de senso comum é a nossa prática quotidiana de atribuição de estados intencionais aos outros para explicar e prever o seu comportamento. Para alguns, ela é

considerada uma teoria da mente, no sentido que a atribuição de crenças é feita em forma de uma crença: “Creio que meu amigo crê que hoje vai chover.” Ou seja, a psicologia de senso comum pode ser vista como uma teoria que alguns seres possuem acerca dos estados mentais alheios e serve para explicar e prever o seu comportamento. Dennett, contudo, vê a psicologia de senso comum como uma habilidade pré-linguística. Por essa razão, não a compreende como uma teoria, sim algo que fazemos de modo natural e automático.

O termo “psicologia de senso comum” (“Folk Psychology”) é usado por Dennett desde 1981 para designar o que todas as pessoas sabem acerca das mentes, das próprias, mas principalmente das mentes alheias. Dada a pouca informação que temos do que se passa nas mentes dos outros, é impressionante o grau de confiança que habitualmente depositamos em nossas atribuições de estados mentais. Note-se que a psicologia de senso comum não precisa restringir a atribuição de estados mentais apenas aos seres humanos. A teoria dos sistemas intencionais de Dennett considera a psicologia de senso comum como uma habilidade que se manifesta pela adoção de determinada postura diante de outros seres: a postura intencional.

Um ponto a ser destacado aqui acerca da teoria dos sistemas intencionais de Dennett é que, para ele, ter crenças não é algo que se defina pela capacidade de atribuir crenças a alguém. Essa é uma crítica que ele faz tanto a Davidson quanto a Premack. Na concepção de Dennett, esses dois autores erram por perseguirem a essência das crenças, ou as condições necessárias e suficientes para que alguém possa ser considerado um verdadeiro crente [“true believer”]. Davidson, nesse sentido, restringe a capacidade de crer aos seres humanos. A concepção de crença de Dennett é bastante deflacionada quando comparada com essa que pressupõe a capacidade de atribuição de crenças. No fim das contas, a crença é, para ele, um estado cognitivo capaz de influenciar o comportamento de um sistema, ainda que não seja um estado proposicional.

Ocorre que a psicologia de senso comum está na base de todas as nossas relações humanas e de quase todos os nossos projetos. Ela provavelmente se desenvolve na linhagem hominídea como uma resposta à crescente complexidade do ambiente social de nossos antepassados (ABRANTES, 2006). Além disso, o seu poder preditivo é extremamente poderoso, servindo para maior parte de nossas ações quotidianas. Mesmo assim, conforme Abrantes (2013, p. 84):

[h]á uma antiga e persistente controvérsia na literatura em etologia cognitiva, assim como nas resenhas filosóficas dessa literatura, a respeito de ser ou não adequada uma linguagem intencional (tomada, basicamente, da psicologia de senso comum) para descrever e, possivelmente, explicar o comportamento de animais não humanos.

O risco, nesse caso, seria cair em um antropocentrismo ou, na melhor das hipóteses, em um “primatocentrismo”. Dennett, com sua postura intencional, defende a atribuição de atitudes proposicionais às mais diversas entidades, dentre as quais, algumas não são sequer orgânicas. Ele apresenta a psicologia de senso comum não como uma teoria, mas como uma arte ou uma habilidade de fazer algo [“craft”]. Com isso, ele quer dizer que não estamos diante de um conhecimento proposicional, mas sim de um saber fazer, algo que se aprende praticando (DENNETT, 1998b, p. 83 e segs.).

Quando falamos sobre a teoria da mente, para o autor, nossa fala vem repleta de preconceitos, chamados por ele de ideologia de senso comum, os quais não se refletem na prática quotidiana de atribuição de estados mentais. Curiosamente, portanto, a arte da atribuição de atitudes proposicionais não seria para ele um conhecimento proposicional, mas uma arte dominada por todos nós, uma espécie de sabedoria de vida que aprendemos nas relações com outras pessoas, inclusive relações que não são linguísticas. “O que nós aprendemos em idade tenra [“at mother’s knee”] enquanto estamos crescendo e que poderia ser em algum grau inato é um talento variado para ter expectativas sobre o mundo. Muito disso nunca se torna articulado em nada remotamente parecido com proposições” (DENNETT, 1998b, p. 82, tradução nossa). A psicologia de senso comum não pode ser uma teoria, segundo Dennett, pois não é formulada em termos de leis ou teoremas explícitos. Ela é uma habilidade.

Como é que “todos sabem” a psicologia de senso comum? Ela é, no fim das contas, ToM101, um tipo de teoria que você aprende quando criança? Algo dela é inato, ou se a aprendemos toda, como e quando o fazemos? Houve um fluxo de pesquisas sobre essas questões nos últimos trinta anos. Minha resposta (ainda, depois de todos esses anos de pesquisa), é que ela não é tanto uma teoria como é uma prática, uma forma de investigar o mundo que vem tão naturalmente que deve ter alguma base genética em nossos cérebros. Você tem que aprender algo dela em idade tenra [“at mother’s knee”], e se você fosse de algum modo privado de todo contato com outros seres humanos enquanto crescesse, você provavelmente seria surpreendentemente inepto em psicologia de senso comum (junto com suas outras deficiências sérias), mas o impulso é muito forte de interpretar coisas que se movem de modo irregular (diferentemente de um pêndulo ou uma bola rolando por uma colina) como agentes (DENNETT, 2013a, p. 75, aspas do original, tradução nossa).

Por que isso faz sentido? Primeiro porque, em geral, nós não transformamos nossas atribuições de estados mentais aos outros em proposições. Ao contrário, fazemos isso automaticamente o tempo todo e tomamos decisões comportamentais a partir daí. Segundo que não atribuímos às pessoas crenças e desejos discretos. Para que possamos pensar uma proposição como “meu amigo pensa que eu gosto de lasanha”, é preciso atribuir ao mesmo

tempo a ele uma quantidade enorme de outras crenças, como “ele tem as mesmas crenças que eu acerca do que a maior parte das palavras significam”, “ele deseja me atribuir um gosto por algo”, “ele crê que lasanha seja algo bom para se comer, ou que seja ao menos comestível” etc. Além disso, provavelmente também seja necessário atribuir a ele estados mentais e habilidades cognitivas não proposicionais (desde que disposicionais, claro! Qualia não relacionais estão fora!). Mas esse conjunto de atitudes proposicionais e demais estados mentais não podem ser atribuídas de modo discreto, uma a uma, ou teríamos um problema de “explosão combinatória” (DENNETT, 1998b, p. 93).

Um exemplo bastante ilustrativo dado por Dennett (2013c) é o dos preconceitos. Ele pede para supormos que Pat atribui a Mike uma “coisa” em relação aos ruivos. Essa “coisa” não é uma crença, não é uma atitude proposicional, mas se revela nas suas atitudes: um comportamento mais agressivo e hostil em relação aos ruivos, uma dificuldade maior para elogiar um ruivo e por aí vai... Pat pode estar mais correta em relação a Mike do que ele próprio sabe, pois a atitude dele não pode ser pinçada por meio da atribuição de uma crença isolada, nem por ele mesmo nem pelo intérprete. Seu comportamento está enraizado em um conjunto de crenças das quais ele não tem muita consciência e que não se sujeitam a codificação linguística. Os preconceitos influenciam o comportamento das pessoas de uma forma muito complexa, frequentemente sem que elas próprias possam perceber. Justamente por isso, não podem ser capturados em forma de crenças isoladas.

Assim, Dennett rejeita a ideia de que as atitudes proposicionais possam ser selecionadas e atribuídas de modo discreto. Elas não podem, para ele, ser individualizadas. Além do mais, a atribuição de estados mentais não inclui apenas atitudes proposicionais, mas também estados não proposicionais. Outro ponto: ao atribuir estados mentais a alguém, o intérprete pode fazê-lo de modo proposicional, por exemplo, “creio que João creia que choverá em breve”, como também pode fazer de modo não proposicional. Isso vale tanto para a atribuição de estados mentais proposicionais quanto para a atribuição de estados não proposicionais. É uma consequência de não se considerar a psicologia de senso comum como uma teoria.

Uma consequência dessa rejeição é que não se podem localizar estados cerebrais correspondentes a crenças isoladas, assim também não se encontram estados funcionais de um sistema correspondentes a atitudes proposicionais específicas. Dennett (2013b) apresenta uma situação para mostrar isso. Imagine que um cientista “neurocriptógrafo” implante na mente de um sujeito a seguinte crença falsa: “tenho um irmão mais velho que vive em Cleveland”. Então, esse sujeito diz isso aos seus amigos em um bar, mas logo é questionado: - “Como ele

se chama?” Rapidamente, o sujeito irá perceber que sua crença era falsa, pois não é possível inserir uma crença solta que não combine com as demais crenças daquele sujeito. Uma crença falsa depende, portanto, de uma complexidade de ajustes no conjunto de estados mentais daquele sujeito.