• Nenhum resultado encontrado

3. INTERPRETIVISMO DE DENNETT: INTENCIONALIDADE

3.4. Usos diferentes e complementares para o termo

3.4.2. A mente cultural dos memes

A noção de meme usada atualmente no sentido comum remete atualmente a uma imagem, um pequeno vídeo ou animação ou qualquer coisa que tenha um caráter imagético e muito repetido na internet, frequentemente com tema humorístico. Porém, o termo foi cunhado por Dawkins em 1976. Nessa época, embora a internet já fosse usada nos meios acadêmicos e militares em alguns países, Dawkins cunhou o termo com outro sentido, do qual o sentido comum se deriva.

Em evolução orgânica, Dawkins defende o ponto de vista do gene. Segundo ele, o gene é a unidade de seleção que faz o processo evolutivo seguir adiante, mas com o único propósito de produzir bons veículos para sua replicação. Por isso, desde que a reprodução genética possua boas chances, com fecundidade, fidelidade e longevidade, não importa as consequências para o portador. Nesse sentido, fenótipos que parecem mal adaptativos para um organismo individual podem ser bons veículos para a disseminação dos genes.

O gene é apresentado como uma unidade replicadora. Mas Dawkins amplia essa noção de unidade replicadora. Ao final de seu livro, constrói a hipótese especulativa de que a cultura também esteja à mercê de supostas unidades replicadoras, os memes. O intuito delas é se replicar, independentemente de serem boas ou más para a sobrevivência de seus veículos. Na época, os principais veículos de memes eram os seres humanos, mas havia também os livros, artefatos culturais diversos, músicas, revistas etc. Atualmente, a internet é um veículo que aumentou enormemente a capacidade de reprodução dos memes. Mas aqui, não estamos falando apenas dos memes da internet, sim de tudo que se reproduz culturalmente.

Segundo a hipótese da memética, a cultura é um produto dos memes. Eles se reproduzem em ambientes culturais, que vão desde as mentes humanas até o ambiente da internet. Assim como se reproduzem na cultura, também são capazes de modificar seu ambiente, tornando-o progressivamente mais favorável à sua própria replicação. A internet seria um exemplo de item cultural criado pelos memes para aumentar sua fecundidade, fidelidade e longevidade.

A memética traz consigo um descolamento entre os processos de evolução cultural e biológica, com interessantes consequências. Em primeiro lugar, torna-se possível relacionar

104 Em Fagundes (2009), pode-se encontrar uma explicação da evolução memética como uma aplicação do algoritmo evolutivo, conforme exposto por Dennett. Porém, era um momento em que eu estava mais convencida em relação à memética. Também era um momento em que a própria memética estava mais abstrata e especulativa. Apesar disso, Richerson e Boyd (2005) já haviam escrito um livro sobre coevolução gene/cultura que tem muito em comum com a memética, mas traz os estudos para um plano mais concreto, envolvendo pesquisas populacionais acerca da cultura.

cultura e evolução sem a necessidade de buscar uma explicação biológica para aspectos culturais105. Em segundo lugar, torna-se possível compreender porque muitas vezes somos

culturalmente guiados a nos comportar de modos que parecem prejudicar nosso bem estar corporal, nossos relacionamentos e mesmo nossa sobrevivência e reprodução. É que, além de termos que nos preocupar com nossos “eus” biológicos, precisamos também cuidar dos “eus” culturais.

A consciência humana é distinta de todas as outras variedades de consciência animal por ser um produto em larga medida da evolução cultural, a qual instala um subsídio de palavras e muitas outras ferramentas de pensamento em nossos cérebros, criando assim uma arquitetura cognitiva diferente das mentes de baixo para cima dos animais. Abastecendo nossas mentes com sistemas de representações, essa arquitetura equipa cada um de nós com uma perspectiva - uma ilusão do usuário106 - a partir da qual nós temos um acesso limitado, enviesado, aos trabalhos dos nossos cérebros [...]. (DENNETT, 2017b, p. 370, tradução nossa)

A consciência humana, segundo o autor, envolve compreensão de cima para baixo. Como ela foi construída por um processo evolutivo, vem de baixo. Antes, havia competência cognitiva sem que houvesse compreensão. A compreensão surge depois e pode inverter o sentido da cognição. Essa é, para ele, uma inversão proposta por Darwin. Nós podemos compreender o processo evolutivo, mas não foi preciso haver uma compreensão desse processo para que ele ocorresse. A própria natureza, para Dennett, possui competência sem compreensão. “A compreensão - nosso tipo de compreensão - só se torna possível com a chegada bem recente de um novo tipo de replicador evolucionário - entidades informacionais culturalmente transmitidas: memes” (DENNETT, 2017b, p. 175, grifo do original, tradução nossa).

Para a aplicação do método heterofenomênico107, Dennett sugere que o pesquisador se

mantenha agnóstico acerca de quais seres possuem ou não possuem consciência. Porém, ao compreender a consciência como uma ilusão das mentes linguísticas, Dennett acaba por se

105 Isso evita o erro do darwinismo social que, nos anos de 1870, buscou aplicar os conceitos darwinistas à sociologia de forma desastrosa. O darwinismo social buscava justificar injustiças sociais apelando para conceitos darwinistas, levando à criação de políticas públicas que buscariam uma suposta evolução da espécie humana. Foi uma má compreensão dos conceitos darwinistas, mas foi usada, inclusive, para justificar o nazismo. É compreensível que hoje haja uma grande desconfiança nas ciências sociais em relação a qualquer abordagem darwinista da cultura. Porém, nada há nas características biológicas de um ser humano que vá determinar suas características culturais, pois os processos são separados.

106 Ilusão do usuário é o que vemos diante da tela do computador. Não vemos como ele foi programado, nem como funciona. Ou seja, não conhecemos os mecanismos adjacentes, o que nos provoca a ilusão de estarmos diante de uma máquina incrivelmente inteligente. Mas não é uma mágica real. Assim como a consciência humana, é só ilusão.

107 A heterofenomenologia é apenas uma proposta de método para o estudo da consciência e pode ser adotada independentemente de se abraçar ou não a memética.

comprometer com a ideia de que apenas para nossa espécie108 faz sentido a pergunta “como é

ser, para mim, o que sou?”. A consciência humana, para ele, seria uma ilusão linguística. Dado que a linguagem é um aspecto da cultura, Dennett compreende a consciência como um produto dos memes.

Há, para ele, um “princípio biológico fundamental de distinguir o eu [self] do mundo, lado de dentro do lado de fora” (1991b, p. 414, tradução nossa). Qualquer organismo necessita disso para se abrir aos nutrientes e se fechar às ameaças externas. Algumas espécies foram capazes de ampliar seus limites territoriais, como aranhas, que constroem teias. Essas ampliações dos limites de uma espécie foram chamadas de fenótipo estendido por Dawkins. Às vezes, o indivíduo não é capaz de realizar sozinho essa ampliação de limites, como no caso das formigas que trabalham em grupo. Porém, segundo Dennett, o caso humano é diferente porque o nosso próprio “eu” é um fenótipo entendido, nós o construímos por meio de narrativas contadas por nós sobre nós mesmos, mas também pelas narrativas acerca de nós contadas pelos outros. Isso ocorre, na concepção de Dennett, porque as outras espécies reproduzem genes, enquanto nós reproduzimos memes. Assim, nenhuma espécie possui um fenótipo tão extenso quanto nós.

Um “eu” [self], de acordo com minha teoria, não é qualquer ponto matemático antigo, mas uma abstração definida pelas miríades de atribuições e interpretações (incluindo autoatribuições e autointerpretações que compuseram a biografia do corpo vivo que é Centro de Gravidade de Narrativa (DENNETT, 1991b, p. 428, tradução nossa).

Para Dennett, nós estamos sujeitos a uma série de ilusões cognitivas que criam em nós a impressão de que estamos diante de um espetáculo no Teatro Cartesiano. Os qualia, para ele, são apenas estados disposicionais complexos do cérebro e o “eu” humano é uma criação linguística, não um expectador interno. Por essa razão, os estados supostamente subjetivos podem ser estudados a partir da adoção do método heterofenomênico. A consciência humana, na concepção de Dennett, é totalmente diferente dos sistemas cognitivos das outras espécies. Esse salto provém do fato de sermos animais culturais, veículos de dois tipos de replicadores: genes e memes.